18 de jul de 2007

GURDJIEFF - UM MESTRE DO CÁUCASO







GURDJIEFF,

UM MESTRE DO CÁUCASO



Para Raissa,








Copyright © JESUALDO CORREIA 2006.


Abstract

These are the accounts of Vladimir Shiralishvili, a young man in his 20’s when he first met Georges Ivanovitch Gurdjieff, in 1910. He was a strong old man in his 90’s when I became acquainted with him in Central Asia, at the beginning of 1980. Seventy years had elapsed since then, when such a decisive, upside-down turning meeting took place, between him and Gurdjieff. He was now sitting in front of me, opening his mind and heart in order to pay a debt. Notwithstanding his advanced age, he was in full control of all his mental and nearly all his physical faculties.
From Georgian ascendancy, his father´s side, Russian from his mother`s, Shirali was a living example of the famous Caucasian longevity. Since long he had been contemplating the need of putting on paper the fruits of all those years passed in the company of, or around the master, thus since his early days as an archaeology student, up to Gurdjieff’s death in 1949.
Once during one of the whole series of interviews we had he disclosed to me, in a sort of confession, that his original intention was to register all he knew in some form of literary characterisation, let alone semi-fictional. But as he considered absolutely inconceivable that such a genre could in any way damage or contaminate the precious content, he kept delaying it all the time. Once having decided to pass over to me all, or nearly all he could draw from memory, he imposed on me the task of playing an active, vigilant role in this task. Moreover there was already available and ready to be edit a considerable amount of notes and several scattered sketches, loose data ...
An extremely well educated man, a free-thinking scholar of a higher rank, expressing himself fluently in several languages, our exchanges were mainly in Russian and French, although not seldom we let ourselves be carried away in short dialogues which would for sure remind the atmosphere of old Babylonian days. In these occasions Sanskrit and Chinese, Turkish and Arabic words and expressions would play an active role.

Through Shirali I learned some Georgian and a bit of the Turkish spoken in those areas. Another factor which brought us much closer, besides the very object of our common interest, that is, the life and work of Gurdjieff, was our natural inclination towards languages and philosophy. Shirali, a man from Oriental ascendency with Western academic background, mastered both worlds in flesh and soul. He was as well versed in all the fields considered a must for a highly educated man by European standards. Besides that I had no doubt he was a consummated knower of Western mystical and esoteric traditions.
I´ve tried to reconstruct our dialogues in every single detail, let alone for the memory and generosity of that strange man, as well as for the memory of our common master. Although inclined to give the account a literary coloratura, as was his wish, I knew at the same time that I should never indulge in it. The essence of facts should prevail and too much of aesthetic concern could jeopardise the whole task, its spirit and essence. Thus I beforehand apologise for all the breaches which I should be accountable for and beg for the reader’s tolerance whenever it may happen to be the case.











ÍNDICE


I- O Trabalho ruma para o Ocidente

II- Magos e Revolucionários

III- Tashkent

IV- Fragmentos de uma Infância

V- Tibete e “O Grande Jogo”

VI- Grupos

VII- Café Fillipoff em Petrogrado

VIII- Gurdjieff versus Freud em Moscou

IX- Momentum

X- Sugestionabilidades e Automatismos

XI- Cáucaso

XII- Instituto Para o Desenvolvimento...

XIII- Alpinismo Espiritual

XIV- Istambul

XV - Shirali sai de Cena

XVI- Do Bósforo à Alemanha

XVII- Interlúdio

XVIII- Prieuré

XIX- Estranho Acidente

XX- Dissolutio

XXI- Os Bizarros anos 30

XXII- A “Corda”

XXIII- Relatos de Belzebu...

XXIV- O Trabalho na Paris Ocupada

XXV- Idiotas no Pós-Guerra

XXVI- Adieu Tout le Monde









"He was extraordinary! You simply cannot imagine how extraordinary Gurdjieff was.”


[Esta é uma obra de ficção que procurou se manter absolutamente fiel aos fatos reais que nortearam seu enredo]



ABSTRACT


Estes são os relatos de Vladimir Shiralishvili, jovem de 20 anos tornou-se discípulo de um tal de George Ivanovitch Gurdjieff, em 1910, e um ativo ancião nas casa dos 90 à epoca em que o conheci na Ásia Central, em 1980. Setenta anos transcorridos! Sentado agora à minha frente, ele abria o coração e escavava da memória a fim de pagar aquilo que considerava uma dívida. Indiferente à avançada idade, detinha pleno domínio de todas suas faculdades mentais e grande parte das físicas, totalmente indiferente à impertinência de uma avançada lordose. De aspecto fisico e maneirismos preponderantemente georgianos, dada sua ascendência paterna, ele era também um russo, sobretudo no sentimento, por parte de mãe. Shirali constituía um bom exemplo da proverbial longevidade caucasiana.
Desde havia muito se propusera ele a verter para a escrita suas reflexões sobre os frutos de todos aqueles anos de convívio com o mestre e com sua obra, desde os dias de seu tempo de ávido estudante de arqueologia até a morte de Gurdjieff, em 1949.
O plano de nossas entrevistas fora genericamente traçado por trocas prévias de missivas. Sob a forma de um percurso biográfico, eu haveria de relatar fidedignamente seus depoimentos e faria os acréscimos ou modificações estilísticas que me parecessem necessárias, desde que essas não ofendessem os conteúdos. Como meu tempo de estada em Tashkent tinha limitações, teríamos que trabalhar diligentemente para obter resultados concretos em tempo hábil. Nossos diálogos haveriam de transcorrer sobretudo em russo, mas também em francês, já que o meu georgiano ou turco eram por demais incipientes. Contudo, como tínhamos ambos aptidões para as linguas orientais e ocidentais, assim como interesse por vários outros campos de saber afins, não raramente fazíamos perambulações ad libitum nessas áreas, ingressando no universo filosófico-terminológico do sânscrito, do chinês ou do árabe, ou ainda nos meandros do amplo espectro das escolas de filosofia e esoterismo, o que investiu nossos interlóquios de um um teor altamente profícuo.
Por fim, cabe dizer que, graças a Shirali, tive a oportunidade de confrontar-me, não poucas vezes, com várias realidades de meu mundo interior, com paisagens e conteúdos sobre os quais tanto meus mecanismos de defesa quanto a minha própria avidyâ (ignorância) costumam obstruir. Sou-lhe também por isso infinitamente grato.











O TRABALHO RUMA PARA O OCIDENTE




-“ O observador neutro é o precursor do mestre interior. Não se identifique com o mundo externo, com suas formas voláteis e tampouco com a personalidade e a ilusão das máscaras. Desenvolva a vontade, que nasce da paciência. Domine o zig-zag interior. Hoje você não pode, mas amanhã já poderá, desde que continue trabalhando sobre si. Procure lembrar-se sempre da totalidade de si, mas para tal desenvolva a atenção. Sinta mais, sensitiva e instintivamente. A mente é um luxo. Eu respeito com a totalidade da minha presença aquele que trabalha sobre si ”.

Tíflis, verão de 1911. Café da Avenida Central Rushtaveli, o grande herói nacional da Geórgia. Aquelas sussurantes frases reverberavam através de sua consciência, enquanto o jovem Vladimir Shirashvili aguardava, provido da disciplina de um soldado o momento da ação. Um gesto sinalizador o faria aproximar-se da mesa. Mas, por alguma razão, ainda não chegara esse momento. Shirali aguardava à distância. O homem seguia bebendo café à moda turca, sobre o qual ele despejara várias gotas de um quarto de limão. Gestos lentos, precisos, mesmericamente sincronizados, como se fossem um mecanismo de dínamos; havia algo naquela presença, sem dúvida uma aura, que chegava a incomodar os ocupantes das mesas vizinhas, deixando-os curiosos e desconcertados, tensos e alertas. Subitamente, a raspada cabeça ovalóide, presidida por um olhar, expressivo e desnudador, voltou-se na direção de Shirali. Um queixo, alado por enorme bigode, apontou então para a mesa, à guisa de convite.
Não, não eram boas as notícias de Istambul. A carta, entregue agora discretamente como se fora um documento secreto e cujo exato teor Shirali desconhecia, continha um prognóstico desanimador. Gurdjieff era aconselhado a não iniciar o Trabalho na antiga Constantinopola. Não então. O olhar do homem desviou-se da carta, debruçou-se sobre o mensageiro e a seguir projetou-se ao longe, em direção às majestosas montanhas caucasianas, contíguas aos arredores da cidade. Através daquelas mesmas montanhas voltaria ele a Tíflis, sete anos mais tarde, e aí sim, através de epopéicas peripécias, seguiria rumo a Istambul. Mas, por ora, o destino faria um desvio de rota. Sua voz a seguir soou baixa, em bom tom monasterial, como que apenas para si e para o santo com quem dialogava:
-"Então tudo deverá de novo começar pela Rússia! Amanhã regressaremos a Bucara ".
Ainda antes de soerguer-se, contemplou por algum tempo o movimento intenso dos transeuntes, apreciou a estátua do herói Vakhtang e, descansando sobre Shirali os penetrantes olhos negros, amparados agora por um condescendente sorriso, comentou em tom didático:

-"Veja como a humanidade mecânica se move para a vida! Aqui, como em qualquer lugar, a lei é a mesma. Guerras exteriores eles estão sempre prestes a travarem, mas não as interiores, as únicas que servem. Com a esmagadora maioria deles, tudo apenas acontece, nada é realmente feito, escravos que são das leis cósmicas e históricas mais elementares. Veja seus gestos, olhares... escute suas vozes, ouça as frases que emitem, estude suas linguagens corporais e a violência ou repressão que descrevem, observe as atitudes que tomam... Quase tudo pura inconsequente mecanicidade. Estão identificados com as máquinas que os habitam, com suas personalidades, com a mente, mesmo por aqui, nesta encruzilhada com o Oriente, onde os vínculos com a essência ainda são mais genuínos, onde as técnicas de desidentificação são mais difundidas. Só o trabalho sobre si, a desidentificação conduzida pela abnegação e por um verdadeiro amor ao próximo poderá salvar uma parcela deles”.
Com este relato inaugural findo, Shirali permitiu-se descansar por algum tempo. Sua voz ficara trêmula como a chama de uma vela ao sabor do vento. Eu não saberia dizer se por emoção. Com gestos ancestralmente lentos, serviu-nos água quente do reluzente samovar. Bebemos nosso chá abrigados por um silêncio que não ousei interromper. Após uns trinta minutos, retomou:

-"Ah! Acho que foi ali que tudo começou, histórica e espiritualmente. Quero dizer, o projeto do Ocidente. Deveria ter sido por Istambul, mas aquela carta fora decisiva. Mais tarde, em Paris, pouco antes de falecer, Gurdjieff pontificaria de maneira sibilínica, talvez se lembrando daquele final de tarde em Tíflis: ‘lembrem-se bem: tudo começa e termina na Rússia’.

"De regresso a Bucara, seguir-se-íam meses de viagens de negócios entre Samarcanda, Kirmanshah e Tashkent, durante os quais ele comprou, vendeu e trocou expressiva quantidade de tapetes e objetos de arte, dissolveu parcerias e tornou contante considerável fortuna: cerca de 1 milhão de rublos. Tudo transcorria segundo um plano previamente traçado. Todos os preparativos seguiam o roteiro de uma concepção minuciosa, exaustivamente elaborada sob a égide de um inquebrantável propósito.
A dispersão dos discípulos, episódicos ou regulares, as cartas endereçadas a mestres- de Bucara a Lhasa, de Samarcanda à Adis Abeba -, o armazenamento de ervas e incensos especiais, dos mapas e manuscritos, das porcelanas e tapeçarias; as remessas de dinheiro para Kars, Kirmanshah, Tíflis e Moscou...”
Shirali aproveitou então para enfatizar que, segundo Gurdjieff, quando se empreende algo, é fundamental esforçar-se ao máximo por fazê-lo de cabo a rabo. Tanto no trabalho sobre si, quanto nas tarefas externas, o que realmente importa é o esforço extra, pois é ele que faz a diferença, que descompassa a mecanicidade, que propicia a passagem. Sempre conscientemente.
“Mas já no final de dezembro tudo estava arranjado, pronto para a grande travessia, para a importante passagem, cujos efeitos, em breve, irão literalmente sacudir os espíritos de considerável parte da Europa e dos Estados Unidos. O Trabalho partia para o Ocidente! Gurdjieff tinha uma missão a cumprir. Aquilo que viria a ser conhecido como o Trabalho constituía uma nova síntese de ensinamentos esotéricos, uma atualizada dimensão da espiritualidade, da prática do auto-conhecimento, posta em linguagem psicológica direta e provida de exercícios apropriados ao homem contemporâneo. Gurdjieff realizara um enxugamento depurador e estava agora codificando expressiva parte daquele conjunto, testando e experimentando de várias formas. Depois, somente muito depois, viria eu a compreender que um homem como ele, completo em todo o espectro concebível, só aparece de vez em quando na história".

Durante algum tempo trabalhei com Shirali a forma geral sob a qual o próximo capítulo deveria se revestir. Refizemos várias vezes inúmeros trechos até ele se sentir confortável com o resultado. Por fim, pontificou: “faça disso uma tradução tão literal quanto possível para a lingua de destino, mas não perca nunca o senso poético e a adaptabilidade dos sentidos às suas roupagens.”

II

MAGOS E REVOLUCIONÁRIOS

“Intenso era o frio daquele mês de janeiro em Moscou. Na plataforma da estação central, a fileira de carregadores, contratados com antecedência, esperava, com indolente serenidade a chegada do trem Vladivostok-Moscou. Era como se um alto dignatário da aristocracia russa estivesse retornando após longa permanência no exterior. Dez bagageiros para um total de 50 fardos; cinco corridas cada.
O imponente trem, glória da ferida tecnologia da Rússia imperial face aos japoneses, já atrasado de um par de horas, surgia por fim através da névoa de fumaça cada vez mais próxima. Ao soar seu apito profundo, transgredindo a monotonia da cidade apenas semi-desperta, uma comoção de ânimos percorre a plataforma, até então apática devido à espera e ao frio. Tudo agora se movimentava pleno de vida: funcionários ferroviários, militares, políticos, mujiquis, carregadores, vendedores ambulantes e até os agentes secretos. As primeira, segunda e terceira classes traziam de tudo: nobres russos regressando de suas dashas e militares de seus postos distantes, deportados políticos indultados, condenados que sobreviveram ao degredo na Sibéria... e até mesmo soldados russos remanescentes da guerra russo-nipônica, que somente agora retornavam, oito anos depois.
Mesquinhos, tênues raios solares debruçavam-se sobre o monumental vitral da abóbada da estação, criando uma atmosfera de acolhida parisiense em meio aos motivos art-nouveau. Shirali deu ordem aos carregadores para seguirem-no, enquanto ele, de vagão em vagão, procurava pelo mestre. O próprio Gurdjieff, agora soberanamente em pé na plataforma, já supervisionava o ritual da retirada dos fardos, dispostos por tamanho e carregados em fila indiana até os meios de transporte que os aguardavam.

Moscou, 1913. Oito anos antes, ocorrera o Domingo Sangrento, quando centenas de manifestantes haviam sido fuzilados durante pacífica demonstração. Dez anos antes, em Kishiniev, tivera lugar o primeiro de uma série de pogroms, seguido por vasta onda de anti-semitismo por todo solo russo: milhares de mortos. Dezoito anos antes, na chodinka da coroação, centenas de fiéis morreram pisoteados. Exatamente oito anos antes, portanto em 1905, Império russo sofrera humilhante derrota diante do emergente imperialismo japonês: 400 mil mortos! A revolução burguesa ocorrida nesse ano cobraria cerca de 65.000 vidas e a Primeira Guerra Mundial, já vindoura, vários milhões, os quais, somados aos cerca de 20 milhões da Segunda Grande Guerra e mais os colossais expurgos da era stalinista, constituíram uma espécie de holocausto eslavo do século XX.

Moscou 1913, e em apenas quatro anos o edifício de mais de trezentos anos da dinastia Ramanoff, que emergera após o interregno iniciado com a morte de Ivan O Temível e a ascensão de Boris Godunov, sossobrará por completo e nem mesmo as vidas dos membros da família real serão poupadas.

Latente e efervescente prosseguia, em meio a esses acontecimentos de início de século, uma extraordinária atividade cultural e política, semi-pública ou clandestina; uma explosão de aspirações artísticas e intelectuais, e não menos espiritualizantes, místicas... Um sentimento de ante-clímax de explosão política rondava e se alojava cada vez mais nos espíritos. Quase todos pressentiam que algo de decisivo, irreversivelmente demolidor se avizinhava. Lenta e inexoravelmente ela ia chegando, prestes a pulverizar centenas de anos de uma enferma, anacrônica, estratificada ordem social. Ela, a revolução!.
"O caráter daquele taciturno czar, fatalisticamente resignado, algo pusilânime e politicamente irremediavelmente retrógado, Nicolai Romanoff, favorecia ainda mais o clima místico subjacente, próprio do fim de uma Era. Les Signes du Temps estavam se tornando por demais conspícuos. A alma russa, através de sua intelligentsia "de direita", abria-se cada vez mais à influência do budismo, em particular o tibetano, por uma espécie de via eslava do orientalismo. Havia certamente por trás disso algo remanescente das expectativas nutridas antes no “Grande Jogo”. Era por essa época grande o número de magos, místicos, curandeiros, videntes de toda espécie que vicejavam ao redor e no interior da vida cultural e espiritual russa: dentre os mais famosos Kozelskii, o anão milagroso; Greguar, o hipnotizador; Agrippina, Monsieur Philippe, e Illiodor- "o domador de pássaros"; Grishek; Bácia- o gigante...; o padre Kronstads; o famoso francês Papus e o ilustríssimo, magnífico Shamzaran Badmaev, o “médico tibetano...” Por fim ele, saído do fundo da alma russa, das entranhas da Sibéria... Gregori Efimovitch... Rasputin!”

O acesso de Rasputin aos salões aristocráticos de São Petersburgo e, a seguir, à própria família imperial, fora quase que imediato à sua chegada em São Petersburgo, no princípio do século. Assim como no caso dos outros místicos, mas em muito maior grau, Rasputin possuía aquele abismal fervor religioso típico da alma eslava, dilatado magnetismo animal, assim como inegáveis poderes de cura através da sugestão, da hipnose, da reza e do toque. Após haver aliviado a histeria e outros tormentos de inúmeras damas da aristocracia, não menos por métodos nada espirituais, ele seria introduzido ao czarevitch Alioshka numa das crises hemofílicas do pequeno herdeiro, e sua ação teve o efeito de um milagroso bálsamo. A partir dali, e com aquele misto típico de santidade e depravação próprios das extravagâncias de uma personalidade paroxística, seu poder sobre a corte cresceria alarmantemente. Quando de sua morte, em 1916, Alessandra Fiodorovna, em parte também o próprio czar e considerável facção da corte e da máquina política, encontravam-se sob seu jugo.
Mas Rasputin não foi tão somente apenas aquilo que a posteridade caricaturizou e que o Ocidente fixou dele como imagem demonizada. É certo que era um devasso sexual, um mujique sem escrúlos que passara a exercer considerável poder junto à família imperial, transitando favores e interesses e exercendo sobre os negócios de Estado desastrosa influência, sobretudo quando da permanência de czar no fronte, quando da Primeira Guerra Mundial. É certo que seu lado promíscuo, falstafiano, ajudou de certo modo a consolidar a imagem que sucitava, no âmago de uma ordem política já fadada ao ocaso. Não obstante, ele era apenas um dos aspectos do monumental mosaico de contradições e aflições nacionais daquele princípio do século, assim como um produto típico da alma russa. A história, impulsionada pelos interesses políticos da época, resolveu fazer dele um bode espiatório.
Gurdjieff, ao se instalar em Moscou, sob as personae de um rico príncipe oriental e de importante mercador de antiguidades, restabeleceu contato com o médico tibetano Shanzaram Badmaieff e com Agwan Dordjieff, este último um extraordinário doublé de líder espiritual buriati, representante da hegemonia sobrevivente do budismo tibetano e estrategista geopolítico do "Grande Jogo". Por iniciativa de Dordjieff, e com o empenho pessoal do próprio czar, seria inaugurado naquele mesmo ano de 1913, em plena São Petersburgo, um templo budista. A inauguração fora concebida de modo a coincidir com a da celebração dos trezentos anos da dinastia Romanoff. Importantes nomes da intelligentsia russa já convergiam por essa época para as atividades budistas na capital, entre outros os orientalistas T. S. Stcherbatsky, U.L. Kotvich, A. D. Rudnev e o próprio príncipe Esper Ukhtomsky, que acompanhara o então czarevitch Nicolau em sua famosa viagem pelo mundo, em princípios de 1890. O orientalismo russo em geral, e os estudos de filosofia budista em particular, adquiriam momentum. Nas artes, as idéias revolucionárias da Europa Ocidental exerciam grande impacto sobre a intelectualidade e os artistas daquele período pré-revolucionário, mas não menos vice-versa: Malevitch, Larianov, Lissitsky, Kandinski, Maiakovski, Blok, Scriabin… a lista é longa… a mais pura vanguarda!
É nesse cenário cultural, político e religioso da Rússia do início da segunda década do século XX que Gurdjieff dera início ao Trabalho. Mas seu ensinamento, um legominismo in progress, precisava de nova codificação, novas roupagens, e era por isso preciso cooptar os melhores discípulos, formar um espectro constituído de uma gama de tipos psicológicos bem definidos, capazes de dinamizar diferentes faces do Trabalho.
Tratava-se de construir uma ponte entre o saber ôntico do Oriente e a verbalização intelectiva do Ocidente. Como ponta de lança dessa codificação, desse legominismo, deveria haver um grupo-núcleo de discípulos e, dentre esses um cuja motivação existencial girasse em torno de uma busca esotérica, mas que, ao mesmo tempo, tivesse acesso aos canais de divulgação na cultura vigente.
Ao se instalar em Moscou, Gurdjieff sabia que haveria um período de incubação, para aclimatização dos segmentos constitutivos de sua “presença geral” e seus propósitos. Dentre as várias identidades de que dispunha, a do príncipe Ozay lhe valeria acesso à aristocracia e, episodicamente, à entourage royale, conduzido possivelmente por Badmaieff, muito embora ele já houvesse tido audiência com o monarca uns 15 anos antes, talvez quando entrevistado para o desempenho de importante papel no “Grande Jogo”.
Em sua juventude, como observador político no Cáucaso e no Tibete, Gurdjieff, usando os recursos que sua dupla ascendência armênia e grega lhe outorgavam junto às comunidades e organizações secretas da região, podia atuar e coletar informações em relação às tendências políticas e, em particular, as inglesas, nas diversas áreas de importância geopolítica da Ásia. Transitando com facilidade em várias linguas e dialetos, conhecedor de toda aquela região como a palma da mão e sabendo se disfaçar como um mestre dessa arte, Gurdjieff era o homem perfeito para o papel de agente secreto. Em outras circunstâncias, ele já desempenhara esse papel como agente político dos movimentos revolucionários gregos e armênios”.
Aqui Shirali fez um desvio de rota para ponderar sobre um curioso tópico:
“Aliás, cabe dizer que a profissão de agente de inteligência é uma das que melhor evocam certa postura de um homem do Trabalho. O treinamento para essa profissão, assim como o seu próprio desempenho reúnem práticas que em muito se assemelham àquelas próprias do trabalho: observação nítida daquilo que concretamente está ao alcance dos sentidos e a capacidade de descrever com objetiva precisão o que está acontecendo, de modo a não “imaginar” ou perambular pelas projeções do mental e das emoções, edificando uma realidade inexistente; controle emocional e mental nas situações de extremo perigo, por vezes criadas intencionalmente (pelo menos no caso do Trabalho); capacidade de passar despercebido, “invisível”, para melhor atuar; capacidade de decidir rapidamente em cima de cada situação e atuar; mudança continua de formato de acordo com a forma da situação vigente; ser operacional, etc. Sobretudo: exercício de máxima e concentrada atenção. O diabo... é a dispersão”.
E ele a seguir retomou a narrativa.
“Além da casa, nos arredores da cidade, Gurdjieff alugou um apartamento no centro de Moscou, na Bolshaia Dmitrovna, e pouco mais tarde um outro, em São Petersburgo, na esquina da Nevsky Prospekt com a Ulitsa Pushkin, portanto colado estrategicamente à estação ferroviária, e não muito longe do Palácio de Inverno...
Exatamente à época de sua chegada em Moscou, um incidente portador de sérias conseqüências políticas abalaria a capital do Império: o assassinato do moderado Stolypin, cometido pelo chefe da polícia secreta, a Okhrama, ocorrido quase que diante do próprio czar, por ocasião de um espetáculo na Ópera de São Petersburgo.
Não é improvável que a intensa guerra de forças antagônicas, no interior do establishment, tenha dado a ele a certeza de encontrar-se vulnerável na disposição das peças do tabuleiro da política russa. A posição de seus contatos e aliados talvez não fosse muito saudável. Sem dúvida que a experiência política no Tibete, cerca de nove anos antes, ensinara-lhe várias lições. Passado algum tempo, Gurdjieff esgueira-se da intimidade da corte, mantém-se por um tempo afastado da capital e casa-se com a misteriosa Ostrowa, bela polonesa de suposta ascendência nobre, impactante silhueta e passado intrigante. Agora ele passa a assumir outras personae, dentre elas a de mercador dublê de obyvatel, ou seja, de bom chefe de família, mas também a de um mirabolante yogin “hindu”.
Mas é sob a roupagem do Príncipe Ozay ( ou Lev Levovitch ? ) que ele começa ficar conhecido e fazer escola em Moscou. Sir Paul Dukes, então jovem estudante de música, agente do serviço secreto inglês e futuro autor de um livro sobre a Revolução Russa- famoso pela estapafúrdia definição: “... a revolução bolshevique foi baseada em três coisas, o cérebro judaico, as baionetas dos letões e dos chineses e a crassa estupidez do povo russo”- será um de seus primeiros alunos.
Foi Lev Levovitch, hipnotisador de renome, ocultista, quem possivelmente introduziu o jovem Paul não apenas ao mundo das idéias esotéricas, mas também àquele com quem ele realmente se iniciaria nos segredos das entonações mântricas dos cantos da igreja ortodoxa, a saber, o inigmático Principe Ozay, sobre quem misteriosos boatos de possuir poderes telepáticos já corria pela cidade.
Como nas cidades do Cáucaso e da Ásia Central, em tempos passados, ele também se ocupava agora de outra tarefa, a saber, a de livrar os dependentes de um flagelo que assolava o país: o alcoolismo. Desde já havia um bom tempo Gurdjieff descobriria um método capaz de efetivamente curar os viciados desse terrível mal. Graças à eficácia de sua terapia ganhara ele não apenas notoriedade, mas também muito dinheiro. Esse método, que consistia em desalojar o sujeito de sua consciência de superfície, através da hipnose, e ingressá-lo em seu subconsciente profundo, no qual eram então introduzida poderosas injunções. Gurdjieff aperfeiçoará e praticará essa técnica pelo resto de sua vida, seja em Moscou, em Constantinopla, Paris ou Chicago. Creio que Gurdjieff chegou a idealizar uma clínica de cura, à exemplo do famoso boticário de Badmaieff em São Petersburgo, mas esbarrou em tantos empecilhos burocráticos que acabou desistindo.”
IV
TASHKENT

A esta altura da história do nosso herói, os relatos de Shirali passaram a ser mais abundantes ele passou a receber-me dia sim, dia não. Parecia recear que o volume das descrições, que sua memória começava a trazer à luz, pudesse vir a exigir muito mais tempo do que a minha estada na Ásia Central poderia suportar. Receava também que a morte, em seu jeito não raramente inusitado de nos visitar, pudesse surpreendê-lo antes que findasse suas narrativas. Interrompemos apenas por algumas vezes a seqüência de nossas colóquios, quando se fizera necessário que eu realizasse curtas viagens a cidades adjacentes. Ao regressar, eu me dirigia incontinenti da estação ferroviária para sua casa, localizada nas imediações do famoso observatório Ulug-beke. Já à distância vislumbrá-lo, sentado à entrada da casa, baforando de seu naghilê sob o ameno clima daquelas simpáticas tardes de verão, dáva-me uma reconfortante sensação de otimismo e de sentido nas coisas da vida.
Não obstante viver quase toda a família por parte de pai na Geórgia, e tendo vivido entre Moscou e Tíflis durante toda a primeira parte de sua vida, Shirali resolvera morar no Uzbequistão no crepúsculo de sua existência. Estávamos no início da década de 80, a cerca de 70 anos de distância da primeira vez que ele conhecera Gurdjieff, quando com 19 anos de idade e estudante de arqueologia em Moscou, fora parar na Ásia Central, como membro de uma expedição. Ao decidir-se tarde em vida por morar em Tashkent, Shirali voltava assim à região de origem de suas investigações acadêmicas, assim como de seu contato com Gurdjieff. A arqueologia decidira por ele.
-"Imagine numa única região existirem cidades como Samarcanda, Tashkent e Bucara! Por aqui tem passado a história da humanidade. Por aqui passava a Rota da Seda rumo à lendária China; por aqui passaram todos os grandes megalômanos da história, dos persas antigos a Alexander e Tamerlão. O melhor, a verdadeira jóia da arquitetura islâmica encontra-se em Samarcanda. O mais esotericamente representativo do islamismo também forjou-se por aqui. Da mesma forma que o budismo alcança sua máxima difusão quando sai da Índia, o islamismo ao chegar aqui produziu sua verdadeira síntese
O sufismo, os essênios, os nestorianos, correntes várias desde a mais alta antiguidade têm, por assim dizer, atravessado para lá e para cá do mar Cáspio. Quase todas as culturas cruzaram estas terras e deixaram vestígios. Foi para aqui, para Bucara, que vieram grandes contigentes dos judeus quando da destruição do segundo templo. E foi aqui que Gurdjieff se estabeleceu e iniciou escola, após os acontecimentos do Tibete. Preferi vir para Tashkent quando retornei da Europa, em vez de ficar do outro lado do Cáspio, em minha amada Tiflis e suas proverbiais águas sulfurosas. Tashkent, "a cidade das pedras". Houve aqui um terremoto em 1966, mas pior mesmo que o terremoto foram estas construções soviéticas erigidas sobre os escombros. Samarcanda também teve um terremoto, creio que em 1720. Para cá e para lá do mar Cáspio os terremotos não são raros...
Perto daqui, entre o Cáspio e o Mar Negro, e um pouco mais a sudoeste, na Anatólia Oriental, encontra-se o berço do chamado mundo indo-europeu. O Museu Estatal da Armênia, em Ierevan, possui incomparável acervo que prova isto. O arqueólogo em mim ainda se fascina por esses fatos. Até hoje supervisiono as escavações no sítio da antiga Maracanda, nome grego dado a Samarcanda. Mas tudo isso é história exterior. Um escritor irlandês disse certa vez que a história é um pesadelo que ele procurava esquecer. Como arqueólogo discordo, mas como espiritualista concordo”.
Shirali estava convicto não haver sido por casualidade seu encontro com Gurdjieff. Os arqueólogos da expedição russa que ele integrava haviam recebido indicação expressa, do professor Skridlov, para entrarem em contato com “o grego de Kars“, em torno do qual havia já uma aura de lenda. Eles o localizaram ali mesmo em Tashkent. Estávamos em 1910! O primeiro contato entre ele e o mestre fora fulminante. Como Shirali levava sobre seus colegas a vantagem de poder se comunicar nas línguas caucasianas, assim como em turco, a ponte lingüística, a simpatia mútua, certa conterraneidade e o elo espiritual que se estabeleceu entre os dois cristalizaram-se de imediato. Mais tarde, a partir do final da década de 20, e graças ao fato de alguns de seus parentes georgianos ocuparem altos cargos na administração de Stalin, Shirali entraria e sairia da Rússia Socialista sem grandes dificuldades, antes e depois da Segunda Grande Guerra, podendo percorrer as Repúblicas que se formavam, para cá e para lá do Cáspio, e, uma vez mais, desempenhando sua "sagrada" missão de mensageiro a serviço do Trabalho.
Mas agora Shirali resolvera abruptamente mudar de foco e falar sobre os princípios cosmológicos do Trabalho:
"Os fundamentos da cosmologia do "sistema" de Gurdjieff partem da sabedoria do antigo Egito e de certas linhas espirituais que tinham, na Anatólia, na Ásia Menor e no Cáucaso origem inegavelmente sumérica. Gurdjieff falava freqüentemente de uma linha de conhecimento espiritual que vinha do Egito pré-faraônico, da sabedoria da submersa Atlantis, que manifestou-se sobretudo na linguagem das pedras das construções egípcias e em diversos fragmentos de ensinamentos esotéricos pré-dinásticos e dinásticos. Quando falava da Babilônia, dava-nos a impressão de ter sido ontem. Tudo isto causava a nós, arquéologos, espanto e desconcerto. Isto porque, embora sabedores de sua reputação de homem de grandes conhecimentos ocultistas e de explorador, espantava-nos o tom categórico de certas afirmações, principalmente ali onde a "ciência "ainda não dera a última palavra. Por outro lado, sabíamos que durante longo tempo ele viajara e convivera intimamente com renomados arquéologos russos e com eles absorvera o conhecimento acadêmico então existente.
Gurdjieff proclamava ter tido na sua juventude acesso a um mapa do Egito anterior ao deserto, assim como às "chaves" das inscrições do Templo de Edfu, onde está relatada a chegada de habitantes de um continente submerso. Muito posteriormente, já em pleno período dinástico, Moisés, um príncipe egípcio, teria resgatado e passado parte desse conhecimento adiante, aos hebreus, sob o prisma monoteista. A partir desse momento divulgar-se-íam os princípios dessa sabedoria sob outras roupagens, dentre as quais a da cabala, e, por outra vertente, a do ensinamento cristão, que não teria apenas uma ascendência hindu, mas também egípcia. As leis cósmicas fundamentais, do Três e do Sete, assim como a perspectiva matemática dos princípios sonoros e arquitetônicos de leis cósmicas - de resto tão comuns na cosmologia hindu, e por outra vertente em Pitágoras- teriam também origem no Egito pré-faraônico. Para Gurdjieff, assim como para os hindus, já houvera, mais de 10 a 15 mil anos antes, em momentos pretéritos à civilização suméria, um conhecimento esotérico muito bem codificado.
"Música, arquitetura, dança, quando expressas sob a forma de uma genuína arte objetiva, obedecem às leis fundamentais que regem a vida cósmica e humana. Tal visão, própria ao esoterismo do Egito antigo, encontra também respaldo nas antigas teorias hindus, particularmente do tantrismo, onde o universo e a criação são vistos como regidos, em última instância, por pura vibração sonora, o objetivo do yogin sendo tambem o de remontar à esta fonte e homologar suas vibrações de consciência ao plano cósmico. A questão da oitava musical é central nesse contexto e Gurdjieff nos martelou exemplos durante os períodos de Moscou-São Petersburgo, de Essentuki, de Tíflis e, de resto, até o final de sua vida."
Shirali fez então uma preleção genérica sobre a teoria da oitava e sobre o eneagrama, este importante símbolo no ensinamento gurdjieffiano. Sua rápida exposição visou demonstrar, por um lado, a variada aplicabilidade da teoria e das leis do eneagrama em situações psicológicas e nos ciclos de vida; por outro, o caráter absolutamente esotérico contido nesses ensinamentos. Segundo ele, quem compreende plenamente as implicações cósmicas e individuais da oitava ou da metáfora do movimento perpétuo contida no eneagrama pode-se considerar um esoterista, cabalista ou mago a justo título. Contudo, compreender não significa apenas entender intelectualmente, mas sim dimensionar plenamente, realizar em si mesmo essa compreensão, fazê-la emergir à consciência, vivenciá-la com cada partícula do ser.
"Um determinado período de vibração sonora pode ser dividido, desigualmente, em oito intervalos, antes que se reduplique. Quando do último salto, o novo dó inicial será repetido com o dobro do número de vibrações. Nas vibrações, contudo, de cada segmento ou nota, ocorre uma defasagem de extensão, sendo esta uma aceleração ou retardação da vibração, junto aos intervalos. Esses choques, necessários à passagem de certos tons ao seguinte, eraM freqüentemente referidos por Gurdjieff em situações concretas de ciclos de compreensão e de vida”.
"O eneagrama, por sua vez - e aqui estou tratando apenas do genérico- representa as etapas na consecução de ciclos operacionais. Podemos aplicá-lo na cozinha, ou seja, no ciclo que vai da obtenção dos alimentos a serem preparados até o seu consumo, passando pelas etapas de busca e seleção dos produtos, corte e condimentação, cozimento, até as etapas finais de ingestão e digestão... Podemos aplicá-lo numa tarefa cotidiana qualquer a ser desempenhada, desde que desdobremos em etapas os aspectos dessa tarefa; podemos aplicá-lo nas relações de trabalho, políticas, amorosas…podemos aplicá-lo sobretudo para a compreensão das leis cósmicas de três, de sete e da oitava e seus intervalos e choques. Cada organismo vivo possui um eneagrama dentro de si, mas para compreedê-lo impõe-se que um homem conheça a si mesmo. Você só poderá compreender o eneagrama plenamente se o fizer a partir de si, e não fora como uma projeção do intelecto. Uma forma de se compreender o eneagrama, de vivenciar sua compreensão a partir de si mesmo, é por meio de certas danças, e as danças-movimentos de Gurdjieff serviam exatamente para isso.
Eu pessoalmente estou convencido que existe uma convergência de influências, ou anterioridades, no eneagrama trazido por Gurdjieff para o Ocidente. Sua ascendência sufi parece cada vez mais inequívoca e certamente tem a ver com os “nove pontos” da metáfora imaginal (sic ) do sufismo. Além disso, ele pode ser também visto, por um lado, como uma matriz do uso esotérico que encontramos em Athanasius Kircher, jesuíta e mago do século XVII, e, por outro, como avatar da cabala judaica. O importante é assinalar, como Gurdjieff sempre repetia, que o eneagrama deve ser compreendido como uma ferramenta de algo em movimento contínuo, tal como a vida. "
A essa altura dos relatos de Shirali tive que interromper a fim de realizar rápida viagem a Samarcanda. Ao longo dessa ausência, de quatro dias, meditei longamente sobre a riqueza do material até então reunido e passei a limpo as notas, traduzindo diversos trechos ainda registrados apenas em russo. Quando voltei a Tashkent tinha uma pergunta em pauta- que de resto não precisei formular. Shirali, como um introito à retomada de suas narrativas do período de Moscou, respondeu-a de maneira epigráfica, algo alegórica.
- “Certo dia, em tom grave, quase solene, Gurdjieff disse-me: ‘Você como miniatura do anjo Gabriel no plano terrestre. Esta sua missão. Esta sua característica maior: intermediar planos opostos e ser arauto. No futuro três círculos, esotérico, mezotérico e exotérico. Você no mezotérico: tem acesso a mim e ao exterior. Nobre missão, mercurial, muito nobre’.”
Resumindo assim, laconicamente, o porquê de Gurdjieff o chamar de mensageiro, e como que revelando certa preocupação, através de um olhar interrogativamente jogado à distância, indagador ao infinito se haveria ou não desempenhado bem o papel, Shirali mudou de assunto e deixou-se levar de novo pelas reminiscências, delineando os contornos daqueles primeiros momentos moscovitas, reconstituindo situações, lugares, pessoas...
- “Ali mesmo em Moscou, onde estivera cerca 15 anos antes, ele vivenciara um momento decisivo, uma passagem interna de oitava, um momento de sincronicidades internas, que em termos de intensidade, talvez tivesse sido semelhante apenas a uma outra, ocorrida no Tibete.
Mas retornando ao período incial de Moscou, cabe relembrar que para Gurdjieff, tratava-se não apenas de um momento de incubação, aclimatação e observação..."quando a montanha não se move", mas também de codificação conceitual e coreográfica das danças - então referidas como ginástica sagrada-, mais tarde conhecidas como Movimentos. Um balé também estava em gestação, e serviria de veículo. Seu título : A Luta dos Magos.

O período inicial moscovita foi também o de garimpo terminológico, de certas adaptações conceituais e alguns neologismos. A expressão “trabalhar sobre si”, por exemplo, pode ter sido extraída do método para formação de atores de Stanislavsky: rabota aktiora nad soboi ("O trabalho do ator sobre si "). Mas o arcabouço daquele imenso conhecimento e de seus pontos nucleares, a caminho agora do Ocidente, sob a batuta de exercícios bem específicos, tinha origem extremamente diversa e longínqua. Elementos das sabedorias egípcia e suméria, em certos aspectos dimensionados na Babilônia, e que ingressariam mais tarde no cristianismo ortodoxo da igreja Armênia, assim como da copta e talvez etíope; elementos neo-platônicos, nestorianos, mazdeistas, islâmicos e do budismo tântrico Tibetano e, não menos, da ciência hindu do yoga. Mas atenção: tudo isso já havia sido compreendido, e sobretudo vivenciado por ele com providencial ressonância, e então transubstanciado e reduzido a um certo pragmatismo. E esse pragmatismo essencialista, sua marca registrada, era por Gurdjieff reiterado de maneira enfática:
-‘TRABALHE SOBRE SI! Observe a si mesmo com toda a atenção das partes constitutivas do seu ser e, após muita prática, algo acontecerá, e este novo fator, esta sensação nova de si, propiciará o surgimento de algo mais, que dará uma dimensão inteiramente nova à sua vida, será diferente de tudo que tiver sido vivenciado até então!’
"Habitava naquele espírito empreendedor, sem paralelos, naquela gigantesca luta que se iniciara já na sua infância, o arquétipo de heróis como Gilgamesh, o avatar do qual ele num certo sentido era, e cujos feitos ele escutara em versos, viva voce, cantados e comentados pelo seu próprio pai, um ashokh de extraordinário talento. Havia também algo da astúcia e, por vezes, da falta de escrúpulos, do arrojado Ulisse, já que seu temperamento grego nunca desapareceria por completo; fazia parte de sua essência."
"Durante longas décadas pensei sobre tudo isso, e cheguei à conclusão de que o período de Moscou teve aquela fase inicial de compilação pragmática, de algo que, durante inúmeros anos anteriores, já havia se consolidado no essencial. Creio também que os momentos supremos de saltos qualitativos de sua consciência, de sua consciência objetiva, ocorreram quando da renúncia ao uso errado dos poderes psíquicos que ele possuía, na renuncia a certas aplicações desses poderes, extensivamente desenvolvidos em várias escolas e em situações-limites de vida”.
Shirali interrompeu então o relato, ingressando em profundo silêncio. Tal ruptura com a narrativa fora dessa vez inusitada, e tão significativa, que a grande sala em que nos encontrávamos, assim como os objetos circundantes e mesmo os ruídos de fora da casa, adquiriram de repente para mim uma pregnância especial, embora dificilmente definível. Antes, tudo era secundário diante da abstração em que nos enfiáramos; agora, como que sacudidos e despertados, a essencialidade das nossas realidades interna e externa retornava à proeminência. Tal episódio se repetiria inúmeras vezes, em momentos cruciais das narrativas, como que a lembrar, através de um STOP, que a prática da presença, da atenção e lembrança de si, nunca devem ser secundárias a nada, nem mesmo a uma narrativa sobre o próprio Gurdjieff.
Em nosso subsequente, encontro pedi a Shirali que me falasse sobre as circunstâncias de infância, históricas e psicológicas. Em tom professoral, quase que sob a forma de uma palestra, ele assim começou...


IV

Fragmentos de uma infância


“Os acontecimentos bélicos da segunda metade do século XIX, na região da Anatólia Oriental e Cáucaso, revelam um Império Otomano em lento processo de enfraquecimento, após séculos de soberana hegemonia. Na região balcânica e na Europa meridional os movimentos de independência do jugo otomânico já progrediam desde princípios do século, com a Grécia tendo sido a primeira se liberar em 1820, quando o Parthenon, transformado em depósito de munição pelos turcos, foi irrecuperavelmente bombardeado.
Os russos, por sua vez, retomavam o projeto expansionista de Pedro O Grande- quando esse conquistara Ozov em 1696-, e passavam agora a exercer grande pressão na região do Caúcaso, como parte de um pacote geopolítico que tinha seu outro braço estendido atraves dos Urais até a Mongólia.
A Armênia de 1860, passada a glória do seu último grande Império, o Bagrátido, encontrava-se havia séculos à mercê dos projetos alheios de expansão, primeiro dos mongóis, a seguir dos seldjucos. A região abaixo das grandes cordilheiras caucasianas, com seus estreitíssimos vales, constitui um reduto natural contra invasões, e a antiga cidade de Kars, por exemplo, possuía uma fortaleza em pedra, hoje em ruínas, que serviu de poderoso instrumento de resistência durante muitos séculos. No inverno de 1877, quando a cidade foi tomada aos turcos pelos russos, após sangrenta e prolongada batalha, e tendo sido praticamente destruída, São Petersburgo promoveu um gigantesco programa de revitalização cristã em toda região.
Gurdjieff tinha cerca de onze anos quando seu pai muda-se de Alexandropol, situada um pouco mais acima, e vai tentar a sorte na nova Kars, para aonde afluíam contigentes cristãos oriundos da mais diversas procedências, até mesmo dos países bálticos. A família de Gurdjieff, por parte paterna, havia antes se fixado na Geórgia e foi em Tíflis que se dera a partilha da fortuna entre os irmãos, antes que seu pai se movesse em direção ao sul, para a então futura Alexandropol armênia –atualmente Gumru- local onde ele se casará.
Gurdjieff nasce em torno de 1867, em território armênio sob a tutela do expansionista império czarista. Muito menos do que pensar no seu núcleo familiar como parte hegemônica de uma nação, com territorialidade definida, tratava-se de sobreviver como minoria dentre as tantas outras que compunham o gigantesco mosaico étnico-religioso-linguístico daquela área nas últimas décadas do século XIX.
À época em que os russos prevaleceram sobre os turcos, ocorrera também nos balcãs uma retumbante vitória búlgara contra a Porta, iniciada com o levante da Bósnia de 1875. Mas aqui no Cáucaso, com a expulsão da maioria da população turca, Kars e Alexandropol passaram a constituir território eminentemente armênio. Gurdjieff, filho de gregos que vinham se afastando de Bizâncio desde a queda de Constantinopla e que já haviam chegado até Tíflis, era em princípio um armênio, na ascendência materna, na consciência lingüística e no sentimento religioso. Mas ele era também no temperamento um grego caucasiano de plena expressão e direito e, durante grande parte de sua juventude, fora conhecido como o "grego moreno”.
O pai exercera sobre seu processo educacional um papel decisivo, fortalecendo-lhe o corpo e o espírito com severos exercícios. Tratava-se de prepará-lo para as realidades de seu mundo interno e externo. Assim, além de fazê-lo correr nu em torno da casa, nas gélidas manhãs do rigorosíssimo inverno do Caucaso, enfiava-lhe na cama pequenos animais para que sua natureza perdesse o medo inerente e sua essência se expandisse. Conduzirá sua imaginação também através do maravilhoso mundo dos relatos épicos do Gilgamesh- que ele recitava como um bardo oriental de memória- , da Bíblia e de todo o universo de parábolas da sabedoria cristã. Logo o submetará aos cuidados educacionais do padre Bosh, principal da comunidade russa local, onde ele aperfeicoará o russo e os rudimentos de várias disciplinas. Sua bela voz o conduzirá pouco mais tarde a fazer parte do coro da catedral de Kars e é também por essa época que ele é iniciado nos segredos do grego clássico. Além de naturalmente trilingue, o jovem Gurdjieff aprenderá inúmeras outras linguas e dialetos que abundavam naquela região: variantes do turco, o georgiano- onde possuía familiares e viveria em inúmeras oportunidades-, o persa, tadjique, dialetos dos ciganos ou yazides...

V

Tibete e o “Grande Jogo”

-Tibete...- comecei eu, passados dois dias de nossa última entrevista-... há pouca referência a respeito. Foi realmente importante?"

“Crucial, nos dois planos, espiritual e político”, disse Shirali. "Desde o final do século XIX, e quase até 1904, isto é, até a invasão de Lhasa pelos britânicos, Gurdjieff esteve profundamente envolvido com o budismo tibetano", e, ao mesmo tempo, tanto quanto pude verificar, com as atividades geopolíticas do “Grande Jogo", ou seja, o jogo político entre os russos e ingleses visando a supremacia naquela área da Ásia. Para o establishment russo, o Tibete era visto, a um só tempo, como a encarnação do mais sagrado reduto estratégico para o conforto do império czarista, e não menos o locus privilegiado da espiritualidade oriental.Gurdjieff, com seu extraordinário faro por fontes, já devia estar por algum tempo em contato com o grande líder espiritual Agwan Dordjieff, budista de ascendência buriati e arquiteto de uma visão político-espiritual que conciliaria o mundo da cristandade ortodoxa com o budismo. A liderança político-militar dessa aliança caberia à Rússia, sendo o Tibete o limite geográfico de referência. Dordjieff, que fora o preceptor do 13º Dalai Lama, Thupten Gyatso Pelzangpo, sobreviverá mais tarde à ascensão bolshevique, vindo a falecer em 1938, por ocasião de uma renovada onda de perseguição aos budistas.
Espiritualidade e política não se dissociavam muito uma da outra por essa época e Gurdjieff combinou por certo a prática das duas. Esta prática ele já começara antes, em associação com os grupos clandestinos de liberação, armênios ou gregos. Existe hoje a forte suspeita de que ele pudesse ter sido, ajudado pela arte do disfarce, ninguém menos do que o próprio lendário Ushe Narzunoff, homem de confiança de Dordjieff. Gurdjieff praticou técnicas diversas do budismo tântrico tibetano e provavelmente muito de magia. Seus poderes psíquicos por essa época desenvolveram-se a tal ponto que era capaz de “matar um um búfalo tibetano (o iaki) à distância”. Existem indícios de que tenha se casado com uma tibetana e que deixou ali filhos naturais.
Mas o grande projeto geopolítico de integração regional, cultural e espiritualmente, uma aliança cósmica do pan-budismo com a igreja ortodoxa se desmoronará com a invasão do Tibete em 1904. Uma espécie de paranóia vinha se apoderando de Londres, alimentada por agentes secretos servindo a vários propósitos, conjugada com a inexperiência diplomática tibetana, precipitaram os acontecimentos. Esses acontecimentos, a invasão inglesa comandada por Younghusband e a operística “resistência” dos lamas deram fim ao projeto local russo no “Grande Jogo”, com a debandada da elite religiosa, incluindo o próprio Dalai Lama. O Grande Jogo continuaria agora em torno do Afeganistão e da Pérsia. Para Gurdjieff, atingido por uma “bala perdida”, a desestruturação de toda uma ordem vigente e do projeto espiritual que se tinha em vista, devem ter produzido uma profunda comoção naquele período de sua vida. Ele daria mais tarde indicações de que aquele episódio, aquela “excursão” inglesa a Llasa, dissolveu uma confraria de sete líderes espirituais do mais alto grau, assim como a grande oportunidade para que a humanidade viesse a se regenerar. Ferido e acometido por hidropisia, Gurdjieff é retirado da área e levado para a Ásia Central. Após longo período de convalescência, segue para Alexandropol, onde durante meses meditará sobre aqueles trágicos acontecimentos. Creio que é por essa época que ele decide tornar-se um chefe de escola espiritual, como parte da tentativa de salvar a humanidade desse ininterrupto processo de autodestruição. Mas há agora uma diferença: longe da política. Estamos em 1905. Dessa data até 1910-12 ele se tornará rico e famoso na Ásia Central.
Deve ter sido ali, nesse período, que começou a tomar forma a estrutura de um “sistema”. A humilhação inglesa comandada por Younghusband causara imenso impacto em toda a civilização tibetana, repercurtindo na Rússia, China, Nepal, na própria Índia e em grande parte da Ásia Central. Younghusband, mais tarde convertido a uma forma de espiritualidade oriental, tenta minimizar, em livro escrito posteriormente, a importância do ocorrido, a fim de dar ao acontecimento uma embalgem simpática à visão ocidental”.
Quando conheci Gurdjieff, cerca de sete anos já se haviam passado desde a época daqueles trágicos eventos, mas creio ter tido a impressão que o acontecimento ainda devia estar bastante presente em sua mente, embora ele nunca falasse a respeito. Não obstante, essa uma característica típica do psiquismo oriental, a saber, não denotar externamente qualquer emoção do mundo interno, em Gurdjieff tal prática atingira o máximo da perfeição. Guerras, assassinatos, massacres proliferavam a seu redor desde o momento do nascimento, e sua própria família será mais tarde vítima deles. Como agente secreto, shamã hipnotizador ou comerciante de tapetes ele conseguia transitar entre as comunidades e regiões com passe livre, favorecendo com isso o seu objetivo de ordem espiritual, híbrido em caráter, ora sufi, ora budista, ora nas variantes da ortodoxia cristã.. Mas uma potência ocidental havia destruído sua visão mágica quanto a possibilidade de redenção da humanidade. Para ele impunha-se agora fazer algo que pudesse contribuir para reverter essa ordem de coisas. O verdadeiro progresso terá que vir com a implantação de uma consciência objetiva no indivíduo, que extraia o homem adormecido desse contínuo processo de mecânica repititividade.. Para Gurdjieff, aquilo que ocorrera no Tibete era mais um dos monumentais desatinos desses imbecis perambulantes, os Hasnamusses como ele designava o homem comum adormecido, fruto
da fúria desenfreada desses inconsequentes e auto-destrutivos seres humanos que vicejam por toda parte ”.
-"Quarenta anos mais tarde, após a Segunda Grande Guerra, ao escutar os relatos sobre os massacres nazistas nos campos de concentração, sua expressão facial adquiriu a força de um Deus enfurecido, e certamente ele pensou: -“coisas dos Hasnamusses, esta espécie abundante dos bípedes tricerebrais que de tempos em tempos saem, em espírito de manada, destruindo os semelhantes, guiados por essa ou aquela ideologia”. Em verdade, um dos temas centrais na análise de Gurdjieff do “horror da situação” humana, diz respeito à guerra, este mecanismo de autodestruição do qual os homens não conseguem se libertar desde os tempos imemoriais até o nossos mais recentes dias. 'Não houve progresso nesse sentido' ”.
A vida externa de Gurdjieff até o período tibetano foi excepcionalmente repleta de acontecimentos épicos, os quais, à exceção dos heróis míticos da antiguidade, tais como Gilgamesh e Ulisse, poucas biografias antigas ou contemporâneas poderiam se igualar. Mas ela assim continuará a ser, embora agora algo menos aventureira. Talvez uma das biografias que mais lembrem a de Gurdjieff em termos de coragem, audácia, sentido explorador e conhecimento de línguas seja a de Richard Burton. Ambos tinham uma extraordinário talento para o disfarce, ambos exploraram regiões desconhecidas, ambos dominavam várias línguas orientais e ambos tiveram, de uma forma ou de outra, atividades de agentes secretos. Contudo, embora Burton fosse um talentoso investigador das fontes literárias orientais, seus objetivos eram no fundo de natureza literária ou antropológica, cujo telos não possuia a dimensão de Gurdjieff, nem de longe, seja como homem de conhecimento esotérico, seja como chefe de escola espiritual. Absolutamente extraordinário em Gurdjieff é exatamente esta junção de presença magnética, em plena ação, em proporções para além de épicas, e a extraordinária solidez, na teoria e na prática, de seu lado de mago, esoterista e homem do mais alto conhecimento espiritual. Pouca notícia se tem, na história da humanidade, de algo paralelo a isto. Ninguém, absolutamente ninguém que o tenha conhecido um pouco mais de perto poderia se evadir à constatação de duas inequívocas certezas que ele sucitava: a da sua imensa presença e inquestionável força psicológica e o mais profundo senso de objetivo superior em sua missão. Um homem de cabo a rabo, atravessado por uma intencionalidade ”.
Arrematando os emocionantes relatos daquele período, Shirali conjecturou sobre a possibilidade de que a "iluminação" de Gurdjieff, seu djartklom - para usar a terminologia do Trabalho-, seu grande choque e passagem de oitava, não teria ocorrido durante os prolongados períodos de recolhimento espiritual em monastérios, mas sim num dos extraordinários momentos de tensão em sua vida mundana, quando em seu ser, acometido pela extraordinária dialética do sim e do não, pelos contínuos esforços-extras, e acirrado ao extremo pela confluência da ação sincronizada de todos os centros, eclodiu um irrompimento ecstático, fenomenal. Tal como a iluminação abrupta descrita pelos zen-budistas. Talvez uma combinação de forte reverberação à base da coluna vertebral misturada a uma extraordinária cólica na região do "campo do cinabre". Após esta combinação insuportável de duas dores associadas a um só processo atingir um clímax, algo transubstanciou-se em ampla dimensão em todo o espectro de seu ser. A seguir uma paz, celestial, e então ele saiu "pulando como um cabrito", tendo assim atravessado definitivamente para o outro braço do rio, ao que leva ao grande oceano. Quando exatamente isto ocorrera, Shirali não tinha idéia, mas acreditava ter sido por volta do período tibetano, ou seja, em torno do final do século. Mas atenção, pois segundo Shirali, outras experiências desse teor voltaram a ocorrer nos tempos de Gurdjieff na Ásia Central, assim como após a invasão do Tibete, em Moscou, em Istambul e certamente em Paris quando do quase fatal acidente de carro. Trata-se de um fenômeno semelhante em efeitos de um terremoto, cujas réplicas de trepidação e reverberação em menos escala seguem ocorrendo ainda por certo período de tempo.

VI

GRUPOS


“A Fé da Consciência é liberdade.
Fé do Sentimento é fraqueza.
Fé do Instinto é estupidez”

"No Trabalho de Gurdjieff, a função operacional do grupo é fundamental. Mas, segundo Gurdjieff, um verdadeiro grupo é difícil de ser constituído, pois que requer, de certa forma, como que um pacto de sangue entre seus membros. Neste contexto, o papel de um mestre é inapelável. Por outro lado, na ausência de um verdadeiro mestre, os instrutores dos grupos só podem exercer um papel circunstancial, e não raramente falacioso, pois falam daquilo que raramente concretizaram em si mesmos e, tal como os psicanalistas projetam suas próprias circunstâncias pessoais sob o disfarce do conhecimento que detêm apenas no plano teórico.
Para que a dinâmica psicológica do trabalho ocorra é necessário não apenas o despojamento egótico progressivo por parte de cada um dos membros, a absoluta sinceridade, a capacidade de se auto-humilhar intencionalmente, mas também uma absoluta confiança mútua- a despeito e sobretudo por força das diferenças dos tipos psicológicos. Num grupo verdadeiro, essa interação passa a gerar uma energia espiritual imanente.”
Foi com este preâmbulo que Shirali iniciou o relato sobre os grupos de Moscou e os de São Petersburgo.
"Se me lembro bem, o primeiro embrião do grupo de Moscou surge em fins de 1914, ou princípios de 1915, mas houve antes uma fase preliminar, quando Gurdjieff explorou a via esotérica cristã ortodoxa sob a persona do príncipe Ozay, e onde encontramos o musicista inglês Paul Dukes e Vladimir Pohl como seus primeiros discípulos. Os primeiros grupos de São Petersburgo só passaram a existir em princípios de 1916, quando Gurdjieff voltou a visitar a cidade de maneira regular. O primeiro contato com Ouspensky fora feito no final da primavera de 1915, quando após uma série de bem sucedidas conferências sobre suas viagens no Oriente, o doublé de jornalista e matemático esoterista seria informado por Vladimir Pohl, músico, e por Sergei Merkurov, o escultor, sobre a presença na cidade de um certo grego de ascendência caucasiana, na verdade o próprio hindu que anunciara pouco antes um balé, A Luta dos Magos, no jornal russo Golos Moskvi (A Voz de Moscou). Ouspensky resistiu ao sabor exótico da apresentação que faziam daquele estranho oriental, mas sob a insistência de Mercurov resolveu ceder a um encontro, ao encontro do qual partira com certa prevenção. Dentre suas primeiras impressões daquele estranho homem, ocorrido num pequeno restaurante de Moscou, ficara a de que Gurdjieff evocava a imagem de um homem mal disfarçado.
Gurdjieff trocou então com ele informações sobre práticas esotéricas do Oriente, checando os conhecimentos que Ouspensky adquirira em suas viagens e investigações. Gurdjieff, que já sabia de seus escritos, tinha agora certeza de seu tipo psicológico e por quais vias perambulavam suas aspirações espirituais. Dentre outros tópicos, ele falou de "química", leia-se alquimia interna, e de técnicas de transformação. Do Café em que se encontravam seguiram para uma sala, sumariamente mobiliada, numa escola municipal, onde uma introdução pobremente literária e bastante genérica das idéias do Trabalho, na formatação em que se encontrava, foi exposta por um dos cinco ou seis discípulos reunidos. Ouspensky, embora continuasse às escuras quanto ao esquema maior, e olhasse com desconfiança o mostruário de vitrine, já se sentia internamente cada vez mais mobilizado. Quando sua pergunta se tornou mais enfática, Gurdjieff falou de algo como "trabalho sobre si". Aquele primeiro encontro concluiu-se sob a égide de uma ambigüidade. Intelectualmente, Ouspensky rejeitara a modesta apresentação feita, rejeitara o nível intelectual daqueles "discípulos" e sentia que indo nessa direção não haveria, a rigor, porque se interessar por aquela linha. Mas ao nível interno de sua percepção, algo nele sentira na presença magnética de Gurdjieff um algo mais, algo que cada vez mais o convencia da veracidade daquilo tudo. Ele então agiu sobre si e antes que a possibilidade de uma nova oportunidade se esvaisse, perguntou a Gurdjieff se poderia vê-lo de novo. Dia seguinte, mesmo café, mesma hora.
Gurdjieff, por sua vez, teria que rearticular a estratégia de sedução, já que ele precisava de um articular intelectual do nível de Ouspensky, alguém que viesse a servir de ponte com os códigos intelectuais vigentes. O segundo encontro teria que ser definitivo. Durante vários dias consecutivos trabalhou Gurdjieff sobre a oportunidade de conquistar a adesão de Ouspensky, elucidando-lhe as mais sôfregas perguntas, instigando-o e provocando-o em seu intelectualismo, sendo absolutamente bem sucedido em seu intento."
Exatamente por essa época, mais precisamente ainda durante o verão de 1915, Gurdjieff passou a demonstrar preocupação cada vez mais maior em obter notícias do Cáucaso. Terríveis rumores começavam a circular até que, por fim, já não havia mais dúvida: ocorria, através de quase todo território da Anatólia Oriental, silenciosamente para o mundo exterior, um planejado massacre das populações armênias. Um plano fora diabolicamente concebido e seu passo inicial dado em abril de 1915, quando uma centena ou mais de personalidades políticas, intelectuais e artistas armênios havia sido sumariamente executada em Istambul. Esta fora obra da pressão dos Jovens Turcos, ansiosos por terminar o massacre iniciado em 1894-95, sob o sultão Abdulhamid. A desculpa generalizada respaldava-se na acusação de que as comunidades armênias do território turco enviavam soldados para a frente russa de guerra. A seguir, teve lugar o desdobramento sistemático de uma estratégia ardilosa, a tal ponto sutil que a astúcia inata ao inconsciente armênio não seria capaz de num primeiro momento perceber e soar o alarme. Aldeia após aldeia, comunidades inteiras eram convencidas a entregarem suas armas, sob o pretexto de contribuição ao esforço nacional de guerra contra os aliados europeus. A seguir, vinha o imperativo de remanejamentos populacionais, durante o percurso dos quais ocorriam as execuções em massa. Por fim, o massacre tornou-se manifesto à plena luz da história, com os gigantescos êxodos para os desertos da Síria, transformados naturalmente em campos de extermínio. Mais de 1 milhão de vítimas. Ainda não seria desta vez que familiares de Gurdjieff viriam a ser alvos desse eterno conflito entre turcos e armênios, já que se encontravam então em território do então império russo. Não então, mas certamente logo a seguir, quando da retomada, pelo moribundo império otomano, de cidades como Kars e Alexandropólis, imediatamente após o final da primeira Grande Guerra.
“Qual não deve ter sido o imenso dilema que ele enfrentou, em seu mundo interno, entre as opções de seguir o curso de sua missão espiritual e a consciência política de seu povo, em breve vítima de um genocídio. Ele, que pertencera em sua juventude aos quadros de organizações políticas armênias, provavelmente o Dashnaktzutiun. O mesmo tipo de impasse ele enfrentará de novo alguns anos mais tarde, em Istambul.”
A voz de Shirali fraquejara, como aconteceria em algumas outras narrativas. E a cada vez que tal ocorria eu me sentia culpado por estar talvez forçando-lhe a memória e extenuando-lhe a condição física. Numa dessas ocasiões, lendo-me a preocupação no semblante, ele seria enfático em assegurar-me que aquela era uma missão sagrada que ele cumpria. E, com um gesto de mão à moda eslava, arremataria:
"E se morrer falando sobre o Trabalho, qual o problema? Não terei que morrer em breve de alguma forma? Que seja falando do Trabalho". Essa observação tirou-me um peso dos ombros e passou mesmo a investir minhas perquirições de uma maior incisividade. De qualquer forma, eu só o veria de novo alguns dias depois, quando ele retomou a descrição do período russo.

VII

Café Fillipoff em Petrogrado


"Pense no homem como uma fábrica de três andares. Toda a administração se concentra cada vez mais no andar superior, deixando esquecidos, ou quase abandonados, os andares de baixo. Mas a fábrica depende, essencial e organicamente, da produção dos andares inferiores. Ali se encontram os insumos e as energias a serem transformados. No terceiro andar, encontra-se a burocracia, a "mente" da fábrica. Preocupada cada vez mais apenas com seus próprios interesses, ela já não consegue perceber que a fábrica encontra-se à beira de um colapso e que sua produção já não é normal há muito tempo, por má administração e falta de interação com a realidade e com as demandas dos andares inferiores".
Foi com esta longa tirada, certamente inspirada em Gurdjieff, que Shirali antecedeu sua descrição do clima cultural e espiritual da cidade fundada por Pedro, o Grande. Ele gostava das epígrafes, das citações, e sobretudo das blagues, às quais ele se referia, em francês, como boutade, detendo-se longamente no ú: bouuutade!
“O Café Fillipoff localizava-se numa das esquinas da Prospekt Nevsky, principal avenida da cosmopolita São Petersburgo, agora renomeada Petrogrado. O famoso café subterrâneo “O Cão Vadio”, frequentado por todo o espectro da intelectualidade da cidade, fora fechado pela polícia czarista em 1915. Talvez por essa razão, o Filipoff tornara-se o ponto de encontro de nosso grupo. Em alguns dias específicos da semana ocorria uma freqüência tumultuada de artistas, boêmios, intelectuais e mesmo de políticos. Gurdjieff preferia aquele Café a outros exatamente por essa razão, já que o barulho forçava-nos a um maior exercício de concentração. ‘Um dos melhores exercícios de auto-controle é o de resistir às manifestações contrárias provindas do mundo exterior’, costumava ele dizer.

Numa quinta-feira de março de 1916, nosso pequeno grupo encontrava-se reunido, bebericando e degustando da deliciosa shashlik (salsicha) com kapushta (repolho) servidas com um especial molho tártaro, uma das iguarias do Fillipoff. Gurdjieff chegara de Moscou já fazia uma semana, em companhia de alguns uns novos alunos. Dera-nos o exercício de colocar o máximo de atenção, atenção tríplice, em absolutamente cada gesto, cada sensação, cada ruído percebido. Tratava-se de sentir com consciência, e não mecanicamente. E sentir com a consciência significava sentir integralmente. "Vocês precisam ter presença. Para ter realmente presença é preciso ser. Não o ser no sentido ordinário, mas sim na acepção plena, possível e inerente ao homem.. Para que possam ser, as partes constitutivas precisam estar conscientemente ativas. Temos que retomar aquilo que deveria haver naturalmente, mas que foi corrompido pela mente.” Para resgatar esse estado original, é necessário agora um grande esforço de trabalho sobre si. Algum cético, espécie de idiota desesperançado objetivo, questionou: ‘mas se todos vão inevitavelmente morrer e se esta parece ser a única verdade concreta, para quê tanto esforço?’
A resposta de Gurdjieff teria vindo como um tiro:
-‘Para não morrer como um cão. Um homem deve trabalhar sobre si não apenas para ascender em seu nível de consciência, visando a cristalização de um Eu superior, de modo a que ele possa justificar o título de homem sem aspas, mas também para que os seus objetivos o distinguam dos animais irracionais. Em geral os homens são homens com aspas, e é preciso que se tornem plenamente seres sem aspas. O trabalho visa ao rompimento com o sentimento automático de rebanho, à desconstrução de falácias e os truques dos chamados frutos das civilizações, as mentiras construídas século após século, milênio após milênio’. Victor Stepanovitch, um novato do grupo de Moscou, de passagem por Petrogrado, arriscou uma nesga de indignação:

-Nu potchemú kak sabáka (“Mas por quê como um cão ?”) ?

“Gurdjieff sorriu e desdenhou uma resposta. Essa parte da resposta Victor teria que trabalhar por si mesmo. Afinal, o que distancia os homens dos outros animais?
Anna, sempre espirituosa e samaritana tentou a aliviar a tensão que se instalava, mudando de assunto:
-‘E o que pensa sobre Gregori Efimovitch? Rasputin! Estive com ele algumas vezes e me parece uma espécie de santo’.
-‘Também morrerá como um cão. Possui força espiritual, mas não conhecimento. Talvez tenha uma morte trágica. O místico sem conhecimento pode ser um... como dizem os franceses... um fou de Dieu. O sábio sem espiritualidade, apenas um cientista. Não adianta apenas uma parte estar desenvolvida. O que são a obsessão e a alucinação, afinal de contas, senão a ausência de conjunção harmônica dos centros’ ”
Aqui Shirali interromperia sua descrição para fazer algumas observações sobre o estilo da exposição gurdjieffiana. Sendo o russo sua terceira língua-, o armênio a primeira e o grego a segunda-, Gurdjieff tinha sobre ela um domínio incompleto, embora fizesse dela um uso absolutamente original. Essa característica sintática que o russo dispõe, a saber, a de que sua frase seja montada como se fosse por blocos, criando uma relação direta, quase rude entre seus elementos- e que, no falar do mujique, alcança sua mais contundente expressão-, era explorada por ele de maneira ainda mais enfática. A impressão que se tinha, ao ouvi-lo falar- apesar do sotaque caucasiano e dos erros de declinação-, era a de se tratar de alguém com um domínio arquetipal da língua, alguém que estava conduzindo o idioma às suas características inaugurais, usando as palavras tal como elas realmente deveriam ser empregadas, sem quaisquer rebuscamentos que prejudicassem o conteúdo.

VIII

Gurdjieff versus Freud em Moscou


Aquela era a terceira, ou talvez a quarta vez que Shirali fora convidado para uma conferência sobre tema de livre escolha, em meio a um ciclo anual de palestras patrocinado por uma instituição moscovita de estudos comparativos. Sua última palestra, ocorrida uns dois anos antes, versara sobre a história da integração metodológica das escolas européias e russa de arqueologia até 1918. Desta vez ele tinha algo que preparava para além do formato acadêmico: uma conferência genérica sobre as similitudes, e principalmente diferenças entre a psicologia de Gurdjieff e a psicanálise de Freud.
Chegamos em Moscou sob o entardecer de um belo e agradável dia de verão tardio, e seguimos da estação diretamente para o amplo apartamento de um sobrinho-neto de Shirali por parte de mãe, funcionário senior da Nomenklatura. A palestra, proferida no grande salão de um sobrado da Ulitsa Gorkovo, acabou desdobrando-se por duas tardes, e o que aqui segue é um resumé das gravações que fiz.
Shirali iniciou por um rápido esboço cronológico das vidas de Gurdjieff e Freud, mencionando os pontos de contemporaneidade entre ambos e, principalmente, o clima cultural europeu nas primeiras décadas do século, quando formularam conceitualmente seus métodos. Falou também do elemento "oriental" em Freud, um ashkenazi por ascendência e que além de representar a ponta de lança da mente européia do final do século XIX trazia ainda os elementos de sua judaica.
A seguir Shirali apontou para os elementos axiológicos das duas escolas, para o fato de que o ponto de partida para um estudo comparativista dos dois poderia ser considerado a frase de Freud de que os homens encontram-se presos e acorrentados em suas fantasias da infância e nos valores culturais que os moldaram, e de como, providos de precário conhecimento das forças -do inconsciente para Freud, subconsciente para Gurdjieff- que os dominam, atuam mecanicamente na vida em seus chamados “estados de vigília”.
Freud, um homem inserido na cultura e no compromisso científico de sua época, procura formular suas soluções dentro da perspectiva sócio-cultural de seu tempo. Gurdjieff, em sua busca cósmica, acredita na expansão de um processo de individuação à margem do núcleo cultural, que ele denuncia como uma absurda mentira. Gurdjieff, um homem que explorara as profundezas do psiquismo e dos poderes ocultos imanentes ao homem, era inevitavelemnte um transgressor nesse sentido e dava ao plano sócio-político uma importância apenas circunstancial. Para Freud, o inconsciente era uma terra incognita, caótica, a ser interpretada e resgatada pela consciência. Para Gurdjieff, esse inconsciente deveria ser visto como subconsciente e tornar-se cada vez mais parte integral na presença geral do homem, através do processo de auto-observação, ou como ele codificara, "lembrança de si ".
Segundo Shirali, o Freud estratificado acadêmicamente, ao formular seus conceitos fundamentais, criou um compromisso hierárquico em sua visão do mundo psíquico do ser humano. Gurdjieff formulava instâncias-psíquicas de forma mais genérica, dinâmica, fenomenicamente, exatamente para fugir das inevitáveis estratificações. Assim, o traço fundamental ou a característica preponderante que cataliza o tipo psicológico predominante de cada um será o ponto de partida, fenomenologicamente falando, para o trabalho sobre si. Embora refratário e prevalescente, este ou aquele traço fundamental, o famoso chief-feature, encontra-se como tudo mais em movimento, em mutação. Mas ele é o centro de gravidade do psiquismo, represando o fluir que deveria haver na mente.
Para Shirali, a dinâmica nos métodos terapêuticos constitui um dos pontos altos das diferenças entre as duas escolas. Na psicanálise, existe algo de estático, relativamente passivo, na relação entre o paciente e o psicanalista, não obstante o pressuposto da transferência. O próprio divan é símbolo disto. No Trabalho, essa função do psicanalista é apenas parcialmente relegada ao instrutor do grupo, que a rigor seria aquele que já alcançou um nível de compreensão e de realização de si mesmo de modo a poder coordenar os trabalhos. Como o psicanalista, o instrutor ou orientador domina a linguagem conceitual de sua escola e maneja bem o aspecto formal de sua aplicação. Tal como inúmeras outras escolas, a função do instrutor, no plano formal, é aquela de colocar o aluno face a face com suas ilusões e mentiras e ajudá-lo a trabalhar sobre si a partir daquilo que realmente está ao nível de sua essência, e não de suas ilusórias representações de si mesmo como fruto dos ideais dos vaidosos impulsos da personalidade ou das falaciosas representações culturais. Além disso, existe uma agressiva dinâmica de observação mútua que é tudo menos passiva, agindo através de continuos processos de fricção e choque.
“Outra diferença fundamental entre as duas escolas é a que diz respeito à compreensão da função, simbólica inclusive, do corpo. Na psicanálise o corpo é quase que apenas uma metáfora, a ser analisada pelo mental e seus esquemas interpretativos. No Trabalho de Gurdjieff o corpo, principalmente em seus aspectos motor-instintivo-sensorial é locus de resgate e deve ser ativamente instigado, forçado a trabalhar, a desenvolver lembrança de si e “falar” ativamente. O trabalho físico, as atividades manuais, o sistema de danças e movimentos que visam a desautomatizar registros psíquicos acumulados pela hereditariedade e pela influência do meio educacional, liberando as travas emocionais, desempenham papéis centrais. O homem precisa ter compaixão ativa dentro de si, pois este é um dos traços maiores de sua condição humana e é por isso que o Trabalho também lança mão de outro instrumento importante: a música. Aqui a arte não é vista como forma de deleite ao espírito e à exclusiva perambulação da subjetividade. A arte, seja a dança ou a música, têm a função de providenciar instrumentos de desidentificação do homem com os seus históricos, com as fantasias, ilusões e apegos de seus vários níveis de ignorância. Ela tem que ser arte objetiva. Esta outra faceta do trabalho, ou seja, a de que tudo que está relacionado com as atividades físicas ( os movimentos de dança sagrada e outros exercícios ), assim como a prática das artes, existe exatamente para contrabalançar o caráter eminentemente crítico, intelectivo, “racional” do trabalho, em sua devastadora função de observação e auto-observação. Denuncie como suspeito tudo aquilo que ainda não fizer parte conscientemente, e que não tiver passado antes pelo princípio da verificabilidade intelectual ou ôntica. A idéia-trabalho princípio da verificabilidade está diretamente relacionado com o processo de desidentificação, esta pedra angular não só do trabalho, mas também de todo a sabedoria oriental. A desidentificação é, portanto, o divisor de águas.
Num certo sentido, podemos afirmar que o Trabalho começa onde a psicanálise formulou o seu campo, e dali avança para os registros do corpo instintivo-sensorial, tornando sua participação ativa. O Trabalho, como de resto toda a tradição oriental, sabe que a mente tem um grande poder de ilusão e de monopólio e que o corpo (na acepção mais pregnante possível da palavra), relegado a segundo plano por ignorância, tem que resgatar o espaço que lhe foi usurpado e tornar-se ativamente co-partícipe do processo.
Mas esse resgate do corpo não significa outorgar-lhe primazia, como os modismos atuais tendem a considerar. O corpo representa, por outro lado, as amarras do ser às leis repetitivas na natureza, e o objetivo do Trabalho é se libertar dessas amarras. Aqui entramos no território propriamente esotérico, com a emergência do conceito de alma, ou corpo astral. Essa formação sutil, cristalizada através de longo processo de misturas de substâncias no qual o sangue e a respiração são fundamentais, é o primeiro passo rumo ao Solei absolut. Mas nada disso será possível se "a casa não estiver arrumada", o que significa restaurar e restabelecer uma base de equilíbrio entre os centros instintivo-motor, o sensitivo e o mental ou intelectual. Apenas quando esses três centros trabalham convergente harmonicamente entre si é que o observador neutro, o precursor do Eu verdadeiro, pode se instalar.
Freud e Gurdjieff tinham visões até certo ponto parecidas em relação ao ego. Freud o considerava um piloto sem grande autonomia, ilhado pelo inconsciente. Gurdjieff não via um único ego, mas sim uma variedade de voláteis "eus", que eram como que instâncias-papéis, efêmeros, que se arvoravam ser algo de especial, não sendo senão frutos da plástica da personalidade, da vaidade, do orgulho e das aspirações ideológicas da cultura. A construção de um Eu verdadeiro, vinculado à essência e às várias consciências possíveis ou inerentes ao homem, desidentificado na representação com o mecanicamente herdado, é um dos objetivos do Trabalho. Gurdjieff possui do ego uma visão por refração, próxima daquela da escola yogacara do budismo, onde ele representa a sétima consciência, ou instância cognitiva, passadas as outras seis (cinco sensoriais clássicas e a mental), nutrindo-se das sementes da oitava consciência, a consciência-depósito (alaya-vijñana), onde se armazenam e são geradas as sementes perceptivas. Assim, essa sétima instância-cognitiva desempenha um papel “organizador”, semelhante ao daquilo que chamamos de ego: trata-se de uma instância que se outorga o estatuto de núcleo do ser e é a couraça protetiva daquilo que passou a ser constitutivo dos apetrechos do homem, a vaidade, o amor-próprio, o orgulho, a personalidade, a ilusão da contigencialidade, do tempo. Além disso, ela usurpa das funções das outras instâncias para os seus próprios intentos. Em Gurdjieff, essa instância parece ter sido impulsionada e foi certamente alimentada pelo surgimento de um órgão designado por ele como kundabuffer, ou seja, um esquema de amortecer a realidade por meio de expedientes ilusórios. Mas no yogacara o objetivo é a transformação de todas essas consciências, numa supra consciência agregada, talvez o Eu verdadeiro ou a Consciência objetiva de Gurdjieff.
Um ponto forte no sistema freudiano é a categoria desejo, formulada pelo princípio do prazer. Gurdjieff outorga ao desejo o mesmo estatuto de força conflitante com o seu oposto o não-desejo. Para Gurdjieff, à semelhança do budismo, o homem deve travar com o desejo uma luta intensa com vistas a fazer predominar o não-desejo, a partir do que o ser ganha em dimensão como compensação.

Devo ainda dizer, em favor de Freud, que o aspecto que mais o distingue em relação a Gurdjieff, e no qual creio estar ele adiante, é o da análise psíquica dos conteúdos das experiências de infância. O mergulho freudiano nesta área, seu carro-chefe, é bem mais incisivo e producente do que o de Gurdjieff. Era como se Gurdjieff pressupusesse que as relações afetivas elementares entre o indívíduo e os pais devessem estar bem resolvidas desde a incepção, para que ele pudesse realizar o Trabalho. Havia no Prieuré um aforisma a esse respeito”.

( Alguém lá do fundo da platéia perguntou algo sobre a função da sexualidade. Shirali pigarreou antes de responder ).

“No sistema de Gurdjieff, se puder assim me referir, a energia sexual é vista como combustível a ser utilizado para as transformações de energias psíquicas. Gurdjieff distingue uma função sexual reprodutiva, puramente orgânica, de outra mágica, capaz de gerar poderes psíquicos. Seja como for, o Trabalho é sempre no sentido da desidentificação com os padrões herdados, embora ele seja resignado quanto à lenta mutabilidade da essência, o que poderia ser descrito como o quantum cármico.
Freud e Gurdjieff vêem o homem, ao nascer como uma folha em branco ao nascer sob o ponto de vista da influência cultural que recebe. Gurdjieff, contudo, assevera que o homem tal como se manifesta é fruto de três grandes influências : a primeira proveniente de sua hereditariedade, a segunda, das influências astrológicas atuantes no momento de sua concepção e nascimento e a terceira das forças cultural-ideológicas da época histórica de sua cultura e de seu meio-ambiente.

Essência e Personalidade

Outra diferença fundamental entre os dois sistemas diz respeito à existência, em Gurdjieff, de uma divisão dicotômica entre essência e personalidade. Para Gurdjieff, todo homem nasce com uma essência, fruto de sua hereditariedade e de seu aporte astrológico como tipo psicológico. Nessa ordem de seqüência, quanto à constituição de sua essência, a hereditariedade é anterior em importância à influência astrológica. A seguir vem aquilo que, variando em graus de civilização para civilização, e de família para família, constitui a máscara social, a segunda natureza, chamada personalidade. A partir do momento em que a personalidade se instala, com o avanço do processo “educacional” na infância, a essência tende a se retrair. O ser se manifesta cada vez mais a partir dos ideários dessa ou daquelas personae idealizada por ela em meio às opções que a educação cultural, a paideia vigente lhe oferece, através de uma profusão de eus que ele identifica sempre ilusoriamente na primeira pessoa do singular. Um dos objetivos do Trabalho, nesse processo de reconstituir a harmonia possível ao homem a partir das anomalias dos processos civilizatórios - "os frutos da civilização"- constitui um reverter da ordem psicológica vigente, ou seja, tornar a personalidade passiva e a essência ativa.
Para Gurdjieff, a essência da maioria das pessoas é em geral tímida, recolhida confusamente sobre si mesma desde o período da infância, quando as formas de superestrutura do ser, construídas pelas ideologias culturais e modelos educacionais estapafúrdios (a malaise combatida por Lev Tolstoy) usurpam cada vez mais o espaço de manifestação da essência. O quantum dessa essência e sua própria modalidade de manifestação variam naturalmente de pessoa para pessoa. Retraída, reprimida e mal desenvolvida desde a mais tenra infância, essa essência poderá voltar a crescer, embora muito, muito lentamente, se as condições para tal forem criadas, sendo esse um dos objetivos do Trabalho. Mas o mental, esse tirano, tentará usurpar e sabotar esse processo. A verdadeira dimensão da essência de uma pessoa é mais facilmente vista nos momentos de grande perigo, quando o ser retorna aos planos elementares de manifestação ôntica. Para Gurdjieff, o grande mal do ser humano encontra-se nessa retração, nesta obstrução da essência; aí se encontra a grande infelicidade do homem, e sua doença. Qualquer crescimento possível ao homem só pode ocorrer a partir desta parcela original e genuinamente sua: a essência. Qualquer outro crescimento é superficial, sob o ponto de vista ôntico. Esse é também o tema central do zen-budismo. No plano da consciência, ou dos aspectos da consciência, o domínio do inconsciente- subconsciência para Gurdjieff-, ocorre o mesmo tipo de malheur, já que também ali tem lugar um impedimento de manifestação por força de uma outra superposição, operacionalizado pela suposta consciência de vigília do homem ordinário... A essência é o bem mais inalienável da condição humana, sua vinculação com a terra e o plano do manifestado. Essa dicotomia entre essência e personalidade pode também ser vista como um paralelo à questão das duas linhas fundamentais: a do ser e a do conhecimento. Visto em sentido lato, a essência está para o ser tal como o conhecimento está para a superestrutura das representações do ego.

(Alguém perguntou sobre a relação dos elementos da cultura esotérica judaica, a cabala especificamente, nos dois sistemas ). Shirali respondeu:

Não estou inteiramente capacitado para falar sobre a influência desses elementos no caso de Freud, embora em seu livro Moisés e o Monoteismo, ele defenda a tese de que Moises, um egípcio, e não hebreu, foi o exportador de um conhecimento iniciático, pela vertente do monoteismo. Ora, segundo Gurdjieff, toda a herança esotérica ocidental, assim como a do próprio cristianismo, é originária do Egito antigo. Quando comparamos a cabala com o eneagrama, percebemos não poucos elementos em comum. As notas de uma oitava são não raramente dispostas ao longo dos sephiroth em imagens da árvore da vida- tal como pode ser o caso no eneagrama- e assim como certas correspondências planetárias. Creio que Freud extraiu muito da sabedoria cabalistica, via roupagem talmúdica, e transformou-a, sublimou-a ou adaptou-a às necessidades de sua época, tais como ele as considerava. Esse era o seu material arquetipal, latente. A ciência dos sonhos, tem antecedentes na tradição da hermêutica cabalística. Tanto Freud quanto Gurdjieff usaram o hipnotismo como instrumento de cura, ambos se sentindo obrigados a diminuir a importância dessa prática por força das circunstâncias, Freud muito mais que Gurdjieff, evidentemente.
Volto a enfatizar que uma das diferenças entre os dois métodos encontra-se na dinâmica. Em última instância, o Trabalho não tem um sistema conceitual, um procedimento vertical ou horizontal, um padrão fixo, um formato; está sempre em movimento, como a própria dinâmica do eneagrama. O concurso dos fatores externos e internos faz com que a afirmação, a partir da essência dessa junção entre os "si mesmos" e um Eu que se cristaliza em nome das partes constitutivas.
A categoria - se é que devemos usar esse termo – “esforço-extra”, a qual é próxima do conceito de sofrimento voluntário, constitui outra dessas instâncias operacionais no Trabalho. A mim me parece que tal instância-conceito não ocupa nenhum papel de destaque no sistema Freudiano”.
Shirali finalizou a palestra do dia seguinte de forma, a meu ver, apoteótica. Ele mesmo parece ter se admirado da riqueza de teor com que a encerrou, A palestra de um Gurdjieffiano convicto até o fundo da alma. Literalmente, assim disse ele.

“Para finalizar gostaria de enfatizar outra dicotomia importante, a meu juízo de extraordinária originalidade no Trabalho. Gurdjieff fala de duas linhas fundamentais, uma do Conhecimento e a outra do Ser e enfatiza que as duas têm que correr, senão paralelas, pelo menos em certa convergente conjunção. De quase nada adianta, sob o ponto de vista ôntico, o acúmulo de entendimento no plano intelectual. Quantos generais, gênios em estratégia militar, são não apenas dominados por suas mulheres, mas também capazes de entrar em pânico ao descobrirem um camundongo debaixo de seus lençóis ou a presença de um espírito em seus quartos? ( "Ah, os ocidentais são tão atormentados por espíritos e por aquilo que designam como inconsciente. Eles deveriam ler mais da farta literatura chinesa sobre os espíritos. É tão saudável. E quanto ao incosnciente, conheço alguém que partiu em viagem exploratória para a Mongólia mas parece que ainda não o encontriou", ironizava Shirali vez por outra).
Quantos cientistas, com vários títulos de pós-graduaçao e honrarias, são sexual e emocionalmente frágeis como uma virgem tímida. Segundo Gurdjieff, o conhecimento de si é verdadeiramente sólido apenas quando assimilado por todas as partes constitutivas do Ser e não estiver sendo alojado apenas na parte intelectual. É evidente que não se aprende matemática com a emoção, mas também o é que não se faz sexo com o intelecto ou se vivencia o amor com o instinto de caça, residual em todos nós. O homem contemporâneo está tão hipnotizado pelo conhecimento científico, e pelos ditames do mental, que ele perdeu o faro de si mesmo; quase que a totalidade de seus sentires já não é mais genuina, sendo apenas uma espécie de caricatura de sua face original, que de resto não é como se pressupõe misticamente única, mas sim fenomênicamente múltipla. E não adianta tentar compreender linearmente pelo intelecto aquilo que não está se manifestando plenamente por si mesmo, mas tão somente por desvios representacionais, superposições filosóficas ou ideológicas. Estamos falando de tempos de maturação bastante diferentes nos diversos planos do ser e é como se estivessemos tentando descrever o gosto da maçã sem realmente ter saboreado uma. O Trabalho é sobretudo esta tentativa de integração desses dois planos e ele custa um preço alto em termos de esforços pessoais, em termos de abnegação aos valores dos mundinhos interior e exterior! Spocibo i zhelaiu vas xorochaia rabota nad soboi...” (Obrigado e desejo-vos bom Trabalho sobre si.!).

Durante grande parte de nossa viagem de regresso a Tashkent discutimos vários aspectos daquele enfoque comparativista. A minha pièce de resistance era a defesa da importância que Freud atribuía aos registros psíquicos da infância, a questão dos traumas, das pulsões de morte, a teoria do complexo de édipo, assim como da teoria da sexualidade, que Shirali rechaçava incontinenti como apenas outra faceta do desejo, sem atribuir-lhe por isso maior importância. Shirali argumentava, sob o ponto de vista da posição de Gurdjieff, manifestada pelos seus escritos, pelas suas palestras e por aquilo que poderia ser referido como o hadith gurdjieffiano, mas também sua própria visão das coisas. Para Shirali, dadas as condições psicológicas normais de infância- normais em relação aos pais-, o trabalho de auto-conhecimento posterior não teria porque estar refém de qualquer recorrência episódica, nem ser obstruído em seu avanço. Eu lhe perguntei então o que seriam estas “condições normais”, como ter certeza que o mundo interior de um aspirante não está bloqueado pela não-solução de tais problemas, para os quais a técnica psicanalítica é inquestionavelmente um recurso, quanto mais não seja por abordar a compreensão daquelas instâncias, ainda que não as solucione? Além de responder que o “normal” seria apenas o resultado de um educação objetiva, que estimule a expansão da essência e retarde o processo de usurpação do espaço daquela pelo cultural na construção da persona, do ego tout court, Shirali fez ainda ver que, do ponto de vista oriental, o pressuposto fundamental é o de que tudo será sanado com a obtenção de níveis superiores de consciência, que atuarão como as águas de um rio ou de um lago que atingem um solo esburacado, cobrindo e permeando tudo, indiscriminadamente. O que “somos” está na consciência tão somente- como dirão os budistas, particularmente os yogacarins- e nas representações formuladas por ela; se esta se modificar todo o resto, todo o encadeamento de registros e vestígios- avasana- também se modificará ou terá seu estatuto modificado.

IX

Momentum

Entre a narrativa anterior e a que se segue transcorreram duas semanas, duas longas semanas durante as quais Shirali tivera que fazer uma curta viagem a Tíflis.
No primeiro encontro que então tivemos, ele sacudiu a poeira de um velho caderno, em sinal de triunfo, e disse:
-“Achei, por fim achei. Eu sabia que se encontrava na casa de algum parente na Georgia. Boa parte se extraviou, mas aqui estão ainda as anotações dos últimos encontros de Petrogrado e de Moscou, entre novembro e fevereiro 1916-17, antes da Grande Travessia pelo Cáucaso. Eu farei a leitura. Você só tem que gravar e prestar atenção. Depois traduz”.

“Petrogrado, 18 de setembro de 1916. A reunião hoje foi na casa de P. Anna estava muito agitada com o assassinato de Rasputin e a atmosfera geral de incerteza e conspiração que ameaça toda a Rússia. Todos estavam muito tensos. A um determinado momento, atento para o clima psicológico reinante, Gurdjieff disse algo como: ‘Lembrem-se que é exatamente nos piores momentos que melhor observamos nossa verdadeira essência. Este é o melhor momento para o trabalho sobre si’.

O exercício do dia consistiu em dividir a atenção em três partes. O doutor Leonid Stjornvald manteve-se misteriosamente calado a noite toda. Não fomos ao Fillippoff depois. Acompanhei Anna até sua casa. Ela continuava tensa. Falou-me de premunições e deixou transparecer que estava sofrendo com a morte de Rasputin. Revelou-me que estivera com ele umas duas ou três vezes e que o considerava um santo, excêntrico e libidinoso. Apenas escutei, um pouco perplexo com sua interpretação. Para mim, e todos que conheço, o homem não passa de um charlatão. Ao nos despedirmos ela perguntou se eu viajaria para Moscou no dia seguinte e, sem esperar minha resposta disse-me num rompante: “Comece a fazer arranjos, Vladimir Shiralivitch. Prepare-se porque sinto que em breve será impossível continuar na Rússia”.

Moscou 12 de dezembro. O encontro de hoje foi em casa de K. As palavras de G. foram uma por uma registradas, embore em geral ele não consintisse isso, pois dizia que a atenção fundamental perdia força com essa prática. Havia quase mesmo uma ponta de dramaticidade em sua maneira de falar essa noite. "Vocês precisam sentir, sentir profundamente, até o mais interior possível de si mesmos, até resgatarem a consciência daquela parte da base da coluna vertebral onde em épocas passadas havia uma cauda. Sentir, mas sem a emocionalidade cultural, sem o apetrecho estético. Se necessário arrependam-se profundamente para poderem sair da couraça do orgulho do ego. Chorem se for necessário, mas sobretudo sintam. O eu verdadeiro de vocês só poderá emergir pelo sentir superior, pela emoção superior. A mente é um luxo. Serve para a ciência e jogar xadrez. Mas não para o Ser. Vocês se esqueceram do Ser. Precisam se lembrar de si para poderem se reinstalarem nele e crescerem rumo ao potencial máximo. Devem querer chegar à consciência objetiva, ir ao Sol absoluto! Precisam se conscientizar, pela inteligência dos outros centros, das partes mecanizadas, ainda em estado subconsciente. Procurem compreender isto a partir de outros enfoques. Muito da psicologia atual ajuda nos primeiros passos. Lembrem-se de si, agora e sempre e não percam de vista que o objetivo é a consciência superior".

Moscou, 20 de dezembro. Comecei a ler hoje o último livro de Piotr Demianovitch, "Conversas com o Diabo" ( Rosgavor s tchiortom) . Ao folhear trechos do dois contos que compõem livro, nota-se inequivocamente a influência de Gurdjieff, embora tenha sido escrito originalmente antes de 1915. Ouspensky deve tê-lo modificado.

Moscou, 21 de dezembro. Gurdjieff enviou mensagem solicitando que aparecesse em sua casa no final do dia. Ao chegar, esbarrei com alguns comerciantes de tapetes e de antiguidades que embalavam mercadorias. Gurdjieff ao ver-me, foi direto ao assunto e apontando para certos embrulhos colocados no canto da sala, disse-me que precisava que eu os guardasse comigo e seguisse mais tarde com eles para Tíflis. Perguntou-me se seria possível afastar-me de minhas atividades em janeiro.
Moscou. 24 de dezembro. Reunião no apartamento temporário de Piotr Demianovitch. Falou-se da Lei de Três e do Raio da Criação. Gurdjieff explicou que esta é a mais fundamental de todas as leis do universo e que tudo que existe é fruto da interpenetração de três forças: afirmando, negando, reconciliando...
Sobre o Raio da Criação: “Todos os sóis da Via Láctea influenciam nosso sol; nosso sól influencia os planetas que conhecemos e os que ainda não conhecemos (acho que ele se referia a netuno e plutão, entre outros); os planetas influenciam a terra e a terra influencia a lua. Essas influencias são exercidas através de irradiações. Imaginemos o raio da criação na forma de três oitavas de irradições. A primeira oitava tem lugar entre o absoluto ou infinito (para usar provisoriamente esses termos) e o sól, a segunda entre o sól e a terra e a terceira entre a terra e a lua. etc. Seguiu-se uma longa explicação sobre as etapas do raio da criação, com os intervalos e os choques na oitava musical usada como exemplo. Achei surpreendentemente interessante, mas cansativo. Espero retomar o tópico em outra oportunidade.
Tratamos também de assuntos religiosos e da tabela dos hidrogênios. Não tomei nota. Ao término da reunião Gurdjieff pediu para que eu ficasse. Solicitou-me que viajasse para Petrogrado amanhã, a fim de tratar de alguns assuntos. Achei tudo muito estranho. Pego o trem à manhã à tarde.

Moscou, 06 de janeiro de 1917. Encontro no banho turco. Presentes também Zaharov e Vasca. Gurdjieff perguntou-nos se tínhamos idéia do que faríamos quando a velha ordem política entrasse em colapso. Disse: ‘o povo está dominado pelo fatalismo da catástrofe que se aproxima. Sabe que virá e esperará até que aconteça. Isto prova uma vez mais que vciô, vciô prosta slutchaiet (“tudo, tudo apenas acontece”). Usem fatores-lembretes para não se deixarem arrastar pela psicose de massa que se aproxima. De resto, não há mesmo muito que possa ser feito. Os dados já parecem estar lançados’. Parto para Tífliss hoje com os pacotes de Gurdjieff”.
A essa altura da leitura das notas, Shirali interrompeu-me para dizer que Gurdjieff desapareceu durante todo o mês de janeiro, reaparecendo em fevereiro, para se ausentar de novo por cerca de três meses, desta vez por ter partido para o Cáucaso, onde permaneceu de março até fins de maio.

Moscou, 18 de janeiro de 1917. “Gurdjieff viajou hoje. Não se sabe exatamente para onde. Aqui em Moscou tudo está cada vez mais tenso e sombrio. Não acho que o Príncipe Lvov vá ficar no poder por muito tempo. Muitos acham que o Czar ainda pode voltar e salvar a nação do colapso. Que ilusão!”
Havia ainda uma pequena nota de rodapé: "Katya (irmã mais velha de Shirali, casada com um pintor francês) partiu ontem para Paris e convidou-me para ir junto. Disse-lhe que talvez vá, em breve. A despedida na estação foi muito penosa para mamãe, que anda muito abatida e pessimista".

"Petrogrado, 17 de fevereiro de 1917. Estou de novo desempenhando o papel de mensageiro. Gurdjieff enviou-me à Finlândia e a Kiev para liquidar uma pendência num negócio de tapetes. Há por aqui uma indescritível tensão política, impaciência e euforia antecipada... Será um dilúvio? Como? Ontem houve reunião na casa de uma dama da sociedade. À exceção de Anna, ninguém a conhecia. Estudamos símbolos, entre os quais o eneagrama. Gurdjieff explicou que os símbolos, particularmente os geométricos, são a mais alta forma de preservar o essencial de um conhecimento. Gurdjieff realçou a falácia da ilusão quanto a existência de um único eu no homem comum. “Vocês precisam perceber a existência dessa multiplicidade de Ivanovs, Petrovs, Yuris, etc, dentro de cada um. São todos personagens construídos na superfício de suas representações de si, e alimentados pelo processo cultural e pela falsa educação”.

Petrogrado, 20 de fevereiro de 1917. A reunião de hoje foi na casa de um militar licenciado do fronte. Havia de novo muito nervosismo e tensão por causa desta onda de assassinatos e da desordem que parecem se alastrar pela cidade. Gurdjieff instigou um prolongado silêncio entre os participantes. Quando a tensão estava aparentemente incontrolável, ele usou uma de suas frases típicas: “Eh! Não vejo vocês! Os níveis superiores do Trabalho só podem ser obtidos se a ‘casa’ estiver arrumada. Isto significa estar com domínio de si, não ser assaltado pela sugestionabilidade, pelo imaginário. As halucinações são fruto dos desequilíbrios do centro. Tranquilo no olho do furacão. E para a casa estar arrumada é necessário ser um verdadeiro obyvatel, ou seja, um gerenciador responsável das obrigações familiares, domésticas, profissionais.
"O trabalho sobre si é mais produtivo- e, às vezes, só pode ser produtivo - quando em meio às piores crises. Mais cedo ou mais tarde cada um de vocês começará a sentir a emergência de seu verdadeiro Eu. Mas isto tem ( dolzhen ) que vir como resultado da totalidade dos esforços e não de apenas de um único centro, e sobretudo não por força simplesmente da aspiração mental. Trabalhar sobre si significa sempre esforço-extra. Sair dos automatismos através da auto-observação, do lembrar-se de si mesmo com a totalidade dos centros. Lembrar-se de si periscopicamente, como se foramos um mosaico em profusas dimensões. As conquistas só podem vir com muito esforço; hoje vocês não podem, amanhã talvez já possam. O conhecimento espiritual ainda é para vocês puro romantismo, é imaginário ou excessivamente intelectualizado. Certamente que para uns é mais difícil que para outros, dependendo do material herdado dos antepassados e também das influências astrológicas e da educação que tiveram. Mas, independente do tipo psicológico, do tipo de idiota que cada um carrega dentro de si, a meta é sempre a mesma. Desidentifiquem-se de suas máquinas! E estejam preparados para morrer antes de morrer."
Seguiram-se várias perguntas, algumas bem disparatadas. Uns indagavam se a revolução seria longa ou curta e outros se a influência dos astros estava desempenhando algum papel.
"Segundo Gurdjieff as guerras são impulsionadas por certas influências cósmicas. Esse é um dos conjuntos de leis aos quais os homens comuns estão inteiramente sujeitos. Um outro conjunto é o dos traços herdados individual e coletivamente. Estamos em meio a uma linha ascensional de gigantescas tendências político-sociais antagônicas, autodestrutivas, cujo clímax ainda não foi atingido. Tal é a situação dos homens, escravos dessas leis cósmicas e de suas inexorabilidades. Mas há uma chance de fugir disto e o momento atual poder ser o melhor. Não tenham dúvida de que em vários lugares do mundo existem grupos trabalhando nessa direção. Deveremos continuar o Trabalho, em ritmo ainda mais intenso, talvez no Cáucaso. É necessário que aquele que queira ir comece a se preparar”.

Nota bene: Saímos da reunião e fomos diretamente ao Fillipoff. Essa noite havia muito barulho e foi-nos impossível ocupar nossas mesas habituais. Yuri bebeu três cálices de vodka muito rapidamente, sem nada petiscar. O álcool subiu-lhe depressa. Todos beberam um pouco acima do normal. Tive a impressão que Gurdjieff estava provocando uma situação de catarse, que acabou ocorrendo com Zaharov e Yuri. Em voz alta, e de maneira inequivocamente insolente, Yuri passou a proclamar: "trabalhar sobre si, trabalhar sobre si para tentar evitar o inevitável: a morte. A morte, triste e inexorável que nos espreita a cada momento. Pois eu quero então morrer bêbado, assim terei certeza de estar menos prisioneiro do mental. Sinto logo existo, sinto logo existo! A seguir, levantando-se com o cálice na mão gritou em direção a todas as mesas: "Sintam, sintam e morram felizes! Depois foi a vez de Zaharov, que discursou sobre a questão do "impossível metafísico " em qualquer linha espiritual e concluiu dizendo que talvez tudo não passasse de uma gigantesca ilusão.
Gurdjieff apreciou tudo com um meio sorriso de perplexidade. Levantou-se então, ergueu seu copo como fazem os daghestaneses por ocasião de um casamento, saudou a todos e, em tom de voz monasterial, como que a entoar um refrão do serviço ortodoxo russo, disse:
- E não se esqueçam nunca de se lembrarem sempre de si mesmos e de que o objetivo do Trabalho é a Consciência Superior Objetiva".
Como quase todos estavam estimulados pelas bebidas, cada qual teve sua ponta de petulância e rebeldia naquela noite, incluindo o coronel, que mal conhecíamos. Também levantei-me e fiz meu discurso sobre a necessidade de esforço contínuo no trabalho sobre si mesmo, pois que desta forma iríamos nos libertar da identificação...etc., etc.. Gurdjieff apenas sorria e parecia não dar a mínima importância aos excessos. Zaharov estava um pouco mais petulante que todos e notei que havia algo de estranho entre ele e Gurdjieff, como que uma incompatibilidade instintiva. Talvez tenha sido apenas impressão".
O material de Shirali sobre o período russo tornou-se abruptamente escasso. Ele resumiu os primeiros meses de 1917 com observações esporádicas sobre os intermitentes encontros do grupo e deixou-se transportar pelas reminiscências dos acontecimentos políticos. Quando da emergência do governo Kerensky, uma parte de sua família havia voltado para o Cáucaso, alguns se evadindo para Europa Central, Apenas a mãe e um tio permaneceram em Moscou. Seu pai falecera alguns anos antes. A prevalescência bolchevique crescia a olhos vistos e a tomada do poder era apenas uma questão de tempo. Quando, por fim, Gurdjieff começa a convocar seus discípulos desde o Cáucaso, o Czar e sua família, já detidos, havia iniciado o calvário do trágico epílogo que se anunciava. Shirali resolvera também abandonar Moscou. Estamos em junho de 1917.

X

Sugestionabilidade e Automatismos


Ao caminhar com Shirali através do seu jardim, enquanto ele desempenhava pequenas tarefas, aparando e irrigando as estranhas espécies botânicas que cultivava, formulei-lhe a seguinte pergunta:
-Teria a influência da linha esotérica que vinha do Egito antigo sido mais importante que aquela herdade pelos armênios através dos assírios? Ao que ele respondeu, de maneira ríspida e direta:
- “E o que isto tem diretamente a ver com a realidade de teu mundo interior? Por quê você se ocupa dessas elocubrações? Tais perguntas são exatamente aquilo que chamamos no Trabalho de formatórias!”
Fiquei mudo e desconcertado. Shirali, por sua vez, após olhar-me sem pestanejar por alguns segundos, abriu um largo sorriso e disse-me: “é claro que você tem que fazer perguntas desse tipo, já que há uma tarefa a cumprir, mas é necessário ficar atento aos efeitos colaterais. Pergunte sempre qual a função que esta ou aquela pergunta de ordem intelectual possui em relação aos problemas centrais de seu mundo interior. Ou, em outras palavras, o que ela tem a ver com você mesmo. Analise sobretudo o teor de verdade contido na pergunta e se ela não é formatória, isto é, feita pela parte mecânica do intelecto. Evite perguntas, questionamentos, formulações formatórias. Logo você estará notando como a humanidade tagarela sem parar e vive absurdamente na superfície, esquecidos e distante de suas essências”.
Esta era uma das várias formas que Shirali usava para fazer-me compreender a dimensão concreta do trabalho e, sobretudo, sua inescapável objetividade ôntica.
Gurdjieff considerava a fraqueza proveniente do poder de sugestionabilidade um dos piores malefícios da condição psíquica do homem. Os homens estão sujeitos a creditarem, repetir e sair matando por qualquer história da carochinha que tenha escuitado e que, sem maiores verificações, o tenha convencido. É também por essa razão que ele enfatizava o princípio da verificabilidade. Mas atenção, pois esta verificabilidade não é apenas de ordem intelectiva. Como somos dotados de três centros, que embora entre si distintos e até antagônicos por interesses, precisam convergir numa espécie de troca de favores, a verificabilidade deve ocorrer também sobre o poder de auto-engôdo que esses centros igualmente detêm.

XI

Cáucaso

"Segundo muitos, o período do Cáucaso foi um dos mais intensos na história do Trabalho. Para alguns, até mais importante, em substância, que o próprio período do Instituto no Prieuré, mais tarde, na França. Concordo em grande parte com isso", afirmou-me Shirali ao dar início aos relatos daquele período.

Ao serem finalmente retomados, após alguns dias de silêncio, os relatos sobre o período do Cáucaso, qual não foi minha surpresa ao vivenciar, por cerca de três horas espaçadas, o descortinar-se de um panorama de considerações históricas e políticas sobre a região. O historiador e o antropólogo que habitavam nele uniram-se ao filósofo Freigeist, em grande estilo.

"Cáucaso! E por algum tempo tornar-se-ía a República Transcaucasiana, reunindo a Geórgia, a Armênia e o Azerbaijão! Os russos, que a partir da revolução bolshevique criariam um imenso império pontilhado de repúblicas soviéticas, ver-se-iam mais tarde conduzidos e manipulados, passado Lênin, por dois psiquismos bastante peculiares, saídos exatamente dessa área, mais precisamente da Geórgia: Yusef Dzhugashuili Stalin, e Laurentje Beria, ademais um mingreliano. Béria não sei, mas Stalin certamente terá esbarrado em Gurdjieff pelas ruas de Tíflis à época de sua juventude.
Para compreender bem o tipo de influência que aqueles dois homens exerceram sobre a vida política da União Soviética, o segundo sobretudo a partir do final da década de 30, é necessário compreender não apenas o tipo de conspiração quase-sanguínea que havia entre eles, mas principalmente as características absolutamente marcantes que constituem o psiquismo dos habitantes da região do Cáucaso.
O Cáucaso, provavelmente o berço da civilização indo- européia, está submetido desde a mais alta e apenas imaginável antiguidade a todos os tipos de influências culturais e políticas concebíveis. Exatamente ali, naquele estreito entre o mar Cáspio e o Negro, em meio àqueles desfiladeiros e passagens gargantilhadas, a junção e o confronto entre o Ocidente e Oriente teve seu palco maior. Até hoje, se você perguntar a um georgiano se ele se percebe como um europeu ou como um asiático ele titubiará ao responder. Atacados continuamente por todos os lados desde tempos imemoriais, a exacerbada sensibilidade política de um armênio ou de um georgiano talvez só encontre correlato próximo no psiquismo de um libanês.
Contudo, à diferença dos armênios, o georgiano não é provido de uma religiosidade tão profunda, e quase trágica. Inseridos numa localização geográfica privilegiada, existe algo do espírito mediterrâneo em nosso povo. Somos impulsivos, alegres e gostamos de celebrar a vida, a amizade, o amor e o heroísmo de maneira tão solene que não conheço outro povo igual. Meu lado georgiano se distingue claramente do meu lado russo com seu pathos religioso, uma tendência fatalistica da espiritualidade. Talvez por força de sermos, na Georgia, -Sakartvelo é o verdadeiro nome-, constituídos por cerca de cem minorias! A pequena comunidade judaica de Tíflis data de outros 2500 anos, a primeira onda grega de imigração de uns 2000 anos, depois vieram os gregos fugidos da queda de Constantinopla, época em que os próprios antepassados paternos de Gurdjieff ingressaram na Anatólia oriental. Cossacos, mongóis, persas, russos, povos bálticos, persas, armênios- que representam uns 10% da população-, ossetianos, megrelianos, azerianos, curdos yezides, azerbaijanos, uzbesquitaneses, assírios... todos preservando mais ou menos suas identidades e línguas. É por isso que o georgiano possui instintivamente uma hipersensibilidade política e se orgulha de pleno direito do seu legado cultural. Em linhas gerais, o mesmo vale para o armênio”
Shirali descrevia agora, item por item, uma interminável lista de influências étnicas e lingüísticas que foram sendo exercidas na região. O emaranhado de línguas era assustador. Para começar, o próprio Kartivelian, conhecido como georgiano, que é apenas a língua principal de uma família de mais quatro, dentre as quais o svan, o mingreliano e o laz. O abkhaziano é hoje também língua oficial na Geórgia. Dentro do georgiano existem pelo menos 17 dialetos, cada um deles com marcantes diferenças, seja no aporte lexicográfico, seja na fonética, seja ainda nos particularismos sintáticos. Sendo língua aglutinativa, uma única palavra pode reunir quase 10 elementos diferentes. Por exemplo, dagvalevinebdito significa " ele disse que você nos daria isto para beber", o verbo beber sendo apenas lev. E todas essas línguas e seus dialetos, incluindo as variantes do armênio, do azerbaijani, do karachai-balkar, do kabardian e outras convivem com outros idiomas que ainda são pura ou hibridamente, tais como o aramaico, o grego, o persa, o turco e turquemênio com seus vários dialetos, assim como, mais acima, o tchetcheno, o bats, o ingushe, o avar, o assete; existem ainda os subgrupos compostos das línguas andiana, botlikha, godobei, chamalal, bagulal, tindi, carata, akhvakha, dido, tsez, hinukh, bezhta, kapucha, hunzib, lezgi, tabasaran, rutul, tsakhur ..." Eu estava começando a ter vertigem e meus dedos já se recusavam a continuar anotando. Shirali parou então de enumerar, não sem antes completar: "Ah, e não nos esqueçamos do russo!
Em termos religiosos, a diversidade é também considerável: judaísmo, mazdeísmo ou zoroastrismo, islamismo – sunita, xiita, alawita-, budismo e variantes do cristianismo como as da igreja ortodoxa grega, a russa, a georgiana e a armênia... cada qual com traços bem específicos. No culto armênio, por exemplo, podemos detectar elementos de uma antiguidade sumérica, herdada através dos assírios...".
A seguir, ao fazer um breve passeio pela história das intermináveis conquistas e reconquistas, Shirali passou a salpicar o relato com observações sobre o psiquismo dos povos e das raças; a expansividade dos gregos, a introversão inata dos turcos, o profundo sentimento religioso dos russos, a arrogância volubilidade dos romanos, o resentimento inato de tal ou tal comunidade, a astúcia dos assírios, a sinuosidade e adaptabilidade dos judeus, a propensão à visão shamânica e geométrica dos povos altaicos, etc.. Na consciência mais profunda de um georgiano existe uma profunda desconfiança, eu diria uma latente paranóia política, transgredida por uma alma expansiva e alegre. Por natureza, o georgiano está sempre conspirando, preparando essa ou aquela ação de retaliação que o ressarcirá dessa ou daquela perda, ofensa, dívida de sangue herdada e cuja genealogia perde-se às vezes na noite dos tempos. Nessa característica ele lembra o homem mediterrâneo. Portanto, essa milenar sensibilidade sociológica, nutrida num quadro geopolítico de profunda vulnerabilidade, é capaz de gerar políticos de um despotismo sem paralelos. A obsessão política de fundo marxista-bolshevique de Stalin fez com que ele renegasse a Geórgia sob o ponto de vista de seus atributos culturais. Sua palavra de ordem era a industrialização a qualquer preço e a todo vapor. Nesse sentido específico, a velha Geórgia beneficiou-se enormente durante aquela Era. Só tarde em vida começou o velho georgiano a ficar nostálgico de sua pátria.
"Gurdjieff, filho de pai de origem grega e de mãe armênia, falando inúmeros dialetos da área e conhecendo toda a região como a palma da mão, possuía também essa extraordinária sensibilidade política dentro de si, ainda que desde cedo os assuntos mundanos tivessem para ele interesse apenas instrumental. Embora tão próximos, as diferenças entre os georgianos e armênios são proverbiais. Um dos momentos máximos dessa disputa ocorreu quando do grande cisma ocorrido no sistema eclesiástico e litúrgico georgiano. De uma maneira genérica, poderíamos comparar a diferença entre esses dois povos com aquela existente entre os italianos e os alemães. Eu diria ainda que no que se refere ao dinheiro, a engenhosidade e a solidariedade mútua, os armênios estão muito mais próximos dos judeus do que qualquer outro povo dessa área.
A igreja ortodoxa armênia preservou igualmente uma linhagem de elementos esotéricos do cristianismo, que têm origem em outros elementos advindos de influências assírias, babilônicas e caldéias. Tudo está cifrado em máximas de sabedoria e, sobretudo, na liturgia. A própria visão, segundo a qual o destino do homem está provido de uma cota de captação de energia, da qual três partes devem ser usadas, uma para a preservação dos trabalhos da tradição, uma para objetivos específicos e uma terceira para a construção da alma ou do corpo astral de cada um.
Quanto aos russos... bem devo dizer que a grande ironia é que eles praticamente não foram governados por um outro russo pelo menos nos últimos três séculos e meio. Os Romanoves, que dominaram a Rússia por uns trezentos anos, eram de ascendência lituana e alemã; Lênin tinha forte ascendência judaica e mongólica, Stalin era um georgiano de puro sangue.
A permanência de Gurdjieff no Cáucaso durou cerca de dois anos e meio, ou seja, de meados de 1917 a princípios de 1921. O ponto alto desse período, em termos de iniciação espiritual, teria ocorrido em Essentuki- onde alguns acham que Gurdjieff mantinha uma relação transpsíquica direta com certas fontes. Tal se deu mais ou menos de julho a agosto de 1917.
Contudo, a verdadeira dinamização e articulação operacional do Trabalho ocorreu em Tbilisse, onde, de fato, o Instituto nasceu. “Ali as danças sagradas adquiriram, pela primeira vez, a importância central que viriam a ocupar mais tarde; foi ali que apareceram as discípulas que traziam o melhor da tradição européia da dança clássica e das inovações do início do século. Ali, naquela espécie de efêmera Paris da Ásia, como era por alguns Tíflis denominada, e durante o curto governo menshevique que acabara de se instalar, reuniram-se muitos dos sobreviventes de um mundo que acabara de desabar, e foi ali que o Trabalho cristalizaria suas características mais marcantes. O núcleo era constituído de umas 12 pessoas”.
“Combinávamos tarefas físicas com exercícios respiratórios leves, os movimentos das danças sagradas e as palestras, sete dias sobre sete na semana. Reinava um clima absolutamente transcendente em termos de estado de espírito, porque não dizer mágico, entre os membros. Muitos de nós teve ali o mais importante momento espiritual de suas vidas. O que se passou no Cáucaso foi algo de extraordinariamente único, insuperável, definitivamente inaugural. De resto, corroborava uma velha assertiva do Trabalho, a saber, de que é exatamente nas circunstâncias adversas que a essência vêm à tona e podemos melhor compreende-la e trabalhar sobre ela”.
Mas, voltando a Essentuki, aconteceu então algo inesperável. Encontrávamo-nos havia cerca de dois meses em meio aquilo que hoje no Ocidente chama-se de um Workshop intensivo e, de repente, tudo foi suspenso. Se bem me lembro, tal se deu em meados de agosto. Uma abrupta mudança de rumo, seja ao nível do contato com a fonte espiritual que Gurdjieff parecia manter, seja puramente em termos de precaução política. As informações apontavam para uma inesperada chegada das tropas bolsheviques, talvez do cossacos mercenários também. Mas nunca se soube bem porque tudo foi interrompido. Gurdjieff disse que partiria para Tuapse. Piotr Demianovitch demonstrou ser o mais chocado de todos com aquela repentina mudança de planos. Era como se ele tivesse investido toda a sua esperança naquele momento. Assim sendo, tivemos que nos meter en route, desconstruir o cenário, desmontar as tendas e fazer a troupe seguir caminho. O Dr. Nicoll costumava enfatizar esta característica do Trabalho: “não tem um ponto fixo, um único cenário, sequer um formato, está sempre em movimento, desconstruindo os hábitos”. Deslocamo-nos então pela costa do mar Negro, de um lugar para outro, entre Tuapse e Socchi, até meados de 1918, quando por fim retornarmos a Essentuki. Mas as coisas já não seriam a mesmas. Zacharoff falecera nesse interim e Piotr Demianovitch resolvera se afastar por algum tempo do Trabalho.


"A fé tem que ser fruto da consciência e não de uma cegueira emocional ou instintiva qualquer. A consciência, por sua vez, é obtida pela expansão da compreensão e da vivência".

Assim estava escrito em russo, em estilo caligráfico, num dos tapetes pendurados na sala da casa de Shirali. Ele solicitou-me repetir a frase em voz alta e retomou dali a narrativa:

"Com o transcorrer de 1918, a situação política na região de Mineralni Vodi, onde Essentuki estava situada, tornara-se extremamente instável. Ora, ocorria o avanço dos bolcheviques, tendo lugar todos os acertos de contas típicos do estilo da época; ora dominavam a situação os cossacos, não muito democráticos, ora o Exército "Branco" do czar. Pouco a pouco ia se alastrando um pânico generalizado. Tudo isto ocorria na região setentrional do Cáucaso, enquanto que, ao sul, os turcos avançavam de maneira cada vez mais incisiva. Gurdjieff tinha por costume prolongar ao máximo, até um ponto limite, a hora de uma decisão, de uma mudança de rumo, de modo a poder aprofundar e dominar todas as variantes em jogo. Quando ele decide abandonar Essentuki, em direção a Maikop, e a seguir empreender com dois grupos distintos a passagem pelo Cáucaso rumo a Sochi, encontrava-se já de posse de pelo menos três tipos de passaportes diferentes. A justificativa, argumentava, era a de liderar uma expedição científica com objetivo de estudar os dólmens antiqüíssimos existentes naquela área,- o que não era de todo uma inverdade. Piotr Demianiovitch resolvera não partir com a nossa troupe.
A rigor, a jornada propriamente dita começaria de fato em Khamichki. Seriam dois meses e meio de uma epopéia empreendida a pé, no âmago da cordilheira do Cáucaso, através de terras abandonadas que lembravam, pela beleza, o "paraíso terrestre". O trecho final fora extremamente penoso, já que as provisões haviam acabado, vários membros do grupo de Pityagorsky estavam doentes e um clima de frustração passara a predominar. Ao chegarmos em Sochi, Gurdjieff dispensou sumariamente a maior parte do grupo. Desagregados em demasia do espírito do conjunto, não apropriados para o Trabalho, deve ter ele pensado.
Permanecemos então algum tempo em Sochi, antes de partirmos para Tíflis, onde acabara de se instalar um governo liberal sob o comando dos mensheviques, os quais, movidos por moderados ideais socialistas, exercitariam por uns três anos o maior exemplo de social-democracia que a Geórgia jamais tivera.” XII



INSTITUTO P/ O DESENVOLVIMENTO HARMONIOSO DO HOMEM

(continuação dos relatos de Shirali sobre o período do Cáucaso)


“Entrar no território da Geórgia e ingressar em Tbilise foi para mim uma benção dos céus. Sentia-me agora em casa e numa das melhores fases da história do país. O Trabalho agora se institucionaliza e se articulará em torno do eixo danças sagradas, exercícios psiquisomáticos e palestras. Gurdjieff recrutava, e sua lista de aquisições abrangia uma variada pauta de tipos psicológicos. A presença de algumas mulheres excepcionais, tais como Jeanne Salzmann, antes Allemand, Olga de Hartmann e Olga Hirzenberg ou Milanoff ("Olgivanna", mais tarde Lloyd Wright), Jessmin Howarth, Julia Ostrowska e Elisabete Galumnian, mais tarde também tradutora de Gurdjieff, foi decisiva na implantação do Instituto. O período de Tbilisse constitui um marco na história do Trabalho. Gurdjieff também se sentia em casa na cidade, onde possuía parentes e contatos cultivados desde seus anos de juventude. Não era ele o sobrinho do príncipe Mukransky, da antiga família real georgiana? Não era ele íntimo de Laskhshvili, o liberal ministro do governo menshvique? Não era ele um distinto freqüentador do famoso Café Restaurante Chimerion, ou do Café Internacional, onde políticos, intelectuais e artistas russos fugindo da Revolução, mesclados à entusiástica intelligentsia georgiana, se reuniam e praticavam seus famosos brindes ao renascimento cultural da capital, agora espécie de Paris oriental?
Se a experiência em Essentuki tivera para alguns um sabor místico, quase religioso, em Tíflis a dança e a pauta variada de atividades desempenharão papel diferente, evocando e propiciando o acesso à sabedoria pela vertente estética. Gurdjieff aproveitará a oportunidade para estimular Thomas de Hartmann a entrar em contato com a riqueza musical da região. Em particular, ele travará contato com o extraordinário músico e poeta armênio Somoghon Somoghmonian, conhecido como Komitas Vartapet, através do qual será iniciado nas escalas e no espírito da música litúrgica, passando a realizar apresentações públicas em beneficio do Instituto. Komitas, alma extremamente sensível, espécie de Bela Bartók do Cáucaso, verdadeiro arqueólogo da tradição musical daquela área, morrerá em Paris quase louco, em meados da década de 30, ainda traumatizado pelos horrores do genocídio armênio, cujos efeitos ele vivenciara em Istambul em 1915.
O talentoso pianista Thomas de Hartmann e sua aristocrática esposa Olga haviam se associado a Gurdjieff ainda em São Petersburgo, movidos também pela curiosidade intelectual em torno dos assuntos da espiritualidade. Gurdjieff mantivera com o casal uma relação um pouco exclusiva por aquela época, mas agora ambos passavam a fazer parte de uma única família e com missões e tarefas bem definidas. Olga, decidida, prática, desempenhará um papel administrativo central, enquanto que Thomas deverá divinizar a dimensão estética do Trabalho através da música.
Gurdjieff conhece Jeanne Salzmann e seu marido, o excêntrico, desconcertante e polivalente Alexander. Thomas de Hartmann e Alexander haviam se conhecido em Munique, antes da guerra, e se reencontravam agora, em pleno êxodo revolucionário, na efervescente e sensual Tíflis. Jeanne dava aulas da dança eurítmica criada por Dalcroze; Alexander, cenógrafo e iluminista, fazia bicos artísticos. Os Hartmann tentavam conseguir cargos fixos na ópera local, ela como cantora lírica, ele como pianista. Mas agora todos seriam imantados por um fenômeno humano sem paralelos e que faria deles peças centrais num projeto artístico que escondia em seu seio uma das mais instigantes e completas versões do conhecimento esotérico. As danças sagradas, representavam muito, muito mais do que apenas expressão artística e Jeanne, Olgivanna e outras compreenderam isso com grande rapidez.
Após curta visita a uma das classes euritmicas de Jeanne, Gurdjieff convenceu parte do grupo a incorporarem alguns dos “movimentos” dele em suas apresentações- e cobrarem ingressos, o que escandalizou e afastou algumas dançarinas. Em breve quase todas já faziam parte da troupe de Gurdjieff, como membros do Instituto, ocupando-se exclusivamente com as danças sagradas, codificadas e dirigidas pelo Mestre.

O Instituto foi então formalmente fundado em meados de 1919- “Instituto Para o Desenvolvimento Harmônico do Homem, com sede em várias capitais do mundo”-, dizia seu bombástico folheto, enviado aos quatro cantos do mundo.
Quanto a mim, retomei algumas de minhas atividades arqueológicas e comecei a dar aulas de linguas ocidentais, por aquela época em grande demanda, principalmente o francês e o inglês. Apesar do moderadamente eufórico clima de liberdade, havia subrepticiamente a dúvida quanto ao caráter duradouro daquele estado democrático de coisas. Gurdjieff retomara o negócio de tapetes, ao mesmo tempo em que consolidava a operacionalidade do Instituto. Cada um de nós tinha que participar e contribuir com alguma atividade “mundana” para os fundos do Instituto, o que viria provar ser providencial em breve. Esse foi também um período de vida aprazível, desfrutada nos cafés, nos banhos sulfurosos das famosas termas locais e nas nobres aspirações político-espirituais”.
“Gurdjieff outorgava às danças sagradas, mais tarde “movimentos”, o estatuto de uma variante de seu legominismo in progress, ou seja, uma modalidade específica de transmissão de conhecimento esotérico. Isto para o Ocidente pareceria algo novo, mas não no Oriente, onde em várias tradições espirituais codificaram-se percursos de auto-conhecimento através da expressão corporal. Na Índia, embora com uma aspiração fortemente mais mítica do que especificamente psicológica; no mundo islâmico através do sufismo, mas de maneira incomparavelmente reduzida, e mesmo no budismo Tibetano... Mas Gurdjieff, um mestre sem paralelos, foi sobretudo um sincretista– no sentido hors guénoniano do termo- e sobretudo um pragmático. Suas dansas serão específicas para propósitos específicos e, à excessão de algumas concessões estéticas para o grande publico, é pura arte objetiva. Assim, quando em meados dos anos, 20 este excepcional material está pronto, intimamente associado à produção musical criada por ele em parceria com Thomas de Hartmann, ad hoc, o mundo estará sendo agraciado com um produto excepcional, sui generis, e reservado, por força de seu teor subjacente, a uma elite muito exclusiva. Sua expansão será muito lenta, felizmente, pois caso contrario estaria sujeita à descaracterização. O papel de Jeanne Salzmann será vital nessa tarefa”.
“Tíflis foi, portanto, crucial para a sedimentação dessa tarefa.". Longe dali, um pensador extraordinário, reticente, está forjando uma inteligibilidade epistemológica para as várias facetas do Trabalho: Piotr Demianovitch Uspenskii.”
Shirali fizera uma pausa. Falar sobre o período do Cáucaso redobrara-lhe as forças vitais, seus olhos adquiriram um renovado fulgor e ele tornara-se algo nostálgico e emotivo. De algum recanto de seu ser, estas evocações turbilhonaram algo e tudo passara a vir quase como que num ininterrupto fluxo associações de seu subconsciente. Após beliscar um pedaço de halva, ele retomou:
"E assim passou-se o ano de 1919, um dos mais democráticos da história da Geórgia. E assim seria até meados de 1920, quando da deterioração do governo instalado, por força do avanço bolshevique e das dissidências internas. Em fins de maio, já de posse dos vistos de entrada para a Turquia e com boa provisão de tapetes raros (a maioria dos quais nos seria confiscada pelos guardas mensheviques da alfandega), partimos para Batum, e de lá para Istambul.
Assim, ali em plena Geórgia, em meio à algo hedonística transitoriedade do pós-guerra, vigorosas sementes frutificantes haviam sido lançadas para a história do Trabalho. Piotr Demianovitch, que se esforçava sobremaneira por já "fazer seu próprio" tudo o que havia recebido, parecia estar se afastando cada vez mais de Gurdjieff e não me lembro de tê-lo visto visitando o Instituto sequer uma vez! Ouspensky ainda não compreendia, de resto nenhum de nós, que o Trabalho não possui uma roupagem específica, uma única modalidade, um formato fixo. O Trabalho tem que ter o espírito do sentido contido no eneagrama, ou seja, de que tudo está em movimento: o que serviu num dado momento, já não é apropriado numa circunstância subseqüente. A verdade é que, tanto em Essentuki, quanto em Tíflis, fora-nos servido um monumental banquete e nós, pobres maltrapilhos mentais e espirituais, não tivemos condições de digerí-lo bem. Para alguns, haveria "indigestão para o resto da vida".

"Ouspensky deveria ter estado lá em Tiflis para ver, sentir e vivenciar. Aliás, ele sempre fora refratário a essa vertente do Trabalho, indubitavelmente por ser predominantemente um tipo mental, um homem nº 3. Não obstante essa deficiência ao nível pessoal, Ouspensky viria mais tarde a dar, sob várias roupagens, valiosíssimas contribuições ao Trabalho, tanto em Istambul quanto em Londres, não obstante estivesse cada vez mais decidido a se afastar da influência de Gurdjieff e moldar uma modalidade de cunho próprio a partir do material que lhe fora transmitido ao longo daqueles seis anos de convívio íntimo. Não tenho dúvidas de que sua mulher, Sophia, a imperial Madame Ouspensky, compreendeu o erro que ele cometia, do qual não lhe cabia a inteira culpa, refém que era não apenas de seu tipo psicológico, mas também das características demoníacas do homem Gurdjieff."
Shirali parecia estar de posse dos sete fôlegos aquela manhã. Eram transcorridas já três horas de relatos quase ininterruptos, durante os quais eu só me movera para saborear pedaços do delicioso khachapari (espécie de empadão georgiano, à base de iogurte e menta), beber mais chá ou trocar de lápis. Mas agora ele já estava extenuado, e eu devia partir. Só nos veríamos vários dias depois.
Shirali falara do período do Cáucaso com grande emoção; afinal de contas, ele era um nativo da região. Contudo, havia uma outra razão para isso, mais pessoal ainda, mais profunda. Tal como depreendi posteriormente, aquela fora uma época em que ele se sentira mais freqüentemente próximo da morte, e, ao mesmo tempo, de Gurdjieff. Aquele fora o período, para ele e aparentemente para todos os outros, de maior condensação de todas os postulados do Trabalho; fora o período de sedimentação, cristalização. Ao partirem do mar Negro para Istambul, mais tarde, e mesmo durante os difíceis anos da Segunda Guerra Mundial, ele jamais vivenciaria algo de tão intenso como durante aqueles turbulentos três anos.

XIII

Alpinismo espiritual

“O homem possui um mundo ao seu redor,
e todo um universo dentro de si.”


Shirali exercera múltiplas atividades no curso de sua longa existência. Quando o via ocupado com alguma delas, tais como a culinária ou a jardinagem, a marcenaria ou a restauração de tapetes, provocava seus comentários a respeito com uma saraivada de perguntas. Por vezes, ele apenas murmurava algo, como que para si mesmo, e isto tinha a ver com o perguntar em excesso. "Melhor observar bastante primeiro, sentir, e perguntar depois, se necessário. Perguntas em geral são coisas mentais, práticas do aparelho formatório e têm pouco importância. Mesmo quanto aos meus relatos, é necessário perguntar também apenas o essencial”.
Um outro desses "hobbies" era o alpinismo, que agora, na sua idade avançada, constituia-se apenas na escalada a meio-pau de morros e modestas montanhas. Este era um esporte que ele praticara desde seus tempos de jovem estudante de arqueologia. Explorara extensivamente as montanhas no Cáucaso - subira o Ararat-, os Alpes e outras cordilheiras menores. O fato de que continuava ainda a praticar esse esporte, causara-me grande surpresa, devido a sua idade avançada. E eis que um dia veio o convite para acompanhá-lo numa de suas escaladas semestrais. Diante de minha incredulidade, e hesitação, ele discorreu:
-“O alpinismo é um esporte muito nobre, excelente para a harmonização dos centros- uma metáfora do trabalho espiritual. Grandes esoteristas foram alpinistas, tais como Aleister Crowley e Julius Evola. Não se espante com minha idade. Você sabia que em 1976, ou 77 talvez, quando das filmagens de Encontros com Homens Notáveis, Jeanne de Salzmann, então com 90 e poucos anos, tomou a iniciativa de subir um íngreme morro no Afeganistão diante da pusilanimidade da equipe cinematográfica? Foi um gesto e tanto! Eu estava lá para ver.
Shirali alimentava ainda a intenção de fazer uma árdua expedição até os limites do terrível deserto do Takla Makan, não muito distante da lendária cidade de Kashe, ao sul de Tashkent. Mas a excessiva dureza das condições de vida naquele deserto, um dos trechos do qual seria descrito por Gurdjieff como uma espécie de linha divisória entre a terra e o inferno, fê-lo desistir da idéia. Tal como Gurdjieff, Sven Hedin e tantos outros exploradores, Shirali acreditava que é exatamente nas condições limites da resistência, nos esforços de ascetismo e de perseverança sob as mais inóspitas condições que se opera o verdadeiro crescimento da essência. Esforço extra, ascetismo interior... Beba água quando a sede estiver crítica e saborei-a; coma quando a fome for verdadeira, e desguste o alimento com prazer pleno; durma quando houver de fato sono...
E assim foi que, uma semana após aquela conversa, aproveitando uma postergada viagem que deveria fazer à Georgia, partimos de carro ao raiar do dia, acompanhados por um de seus auxiliares uzbesques, em direção a uma das inumeráveis montanhas caucasianas, do outro lado do Cáspio. Após uma prolongada e extenuante viagem, chegamos por fim ao mais próximo povoado do conjunto de montanhas que ele pretendia parcialmente escalar, onde pernoitamos. Shirali foi efusivamente saudado não apenas pela família que nos acolheu, mas também por outras do lugarejo. No jantar fomos objeto de muitos brindes e frases hospitaleiras, bem à maneira caucasiana.
No dia seguinte, antecipando-nos à sonolenta aurora que logo se manifestaria, demos início à jornada, em ritmo de tartaruga e com frequentes paradas, subindo e contornando a primeira etapa da montanha, cuja face sul dava para a desembocadura do vale e de onde já se descortinava uma extraordinária vista de toda a região. Nunca compreendi porque Shirali escolhera aquela montanha em particular, já que se parecia tanto com praticamente qualquer uma das várias outras que circundavam, como que protegendo o curso d’água que as serpenteava. A jornada de subida à estação-meta levou outras quatro horas. Encontrávamo-nos agora na sua face oposta e a cerca de um terço do trecho do percurso até o topo. Dali seguiam, à direita e à esquerda, outras trilhas que conduziam a outros povoados. E era aquele o ponto de chegada de Shirali, e onde sentamos, descansamos e saboreamos da provisão dos deliciosos “pomeris” georgianos.
-Observe e sinta como é substancialmente diferente conversar e vivenciar, seja o que for, aqui nesta altura, tendo o mundo lá embaixo, aos nossos pés. Não tenha dúvida que é também por esta razão que os tibetanos desenvolveram tanto a espiritualidade. Eles estavam sempre bem lá em cima. Um dos russos mais notáveis deste século, o pintor e místico Nicolau Roerich, costumava dizer que seu fervor místico-artistico só pôde efetivamente se desenvolver nas proximidades do Himalaia. Quanto a mim se deu o mesmo: só pude vislumbrar e entrar em estados de consciência superior nas oportunidades em que me encontrava escalando e apreciando os vastos panoramas das montanhas.
Desfrutamos assim um par de horas lá em cima, e notei que Shirali procurava atrair a minha atenção, não propriamente a mental, mas um tipo de atenção essencialmente mais instintiva, para aquilo que estava ao meu redor, mas não menos daquilo que estava dentro de mim. Próximo a nós, um rebanho de ovelhas pastava.
-“Perceba as ovelhas, sinta com elas, comungue com elas, disse-me ele em voz bem baixa, susurrante. Sua voz não foi apenas por mim ouvida; ela ocupou um espaço no meu ser, e atuou como um comando. Eu me deslocava agora da atenção mental corriqueira e emergia para outras várias atenções orgânicas, que convergiam numa totalidade observante. Como a respiração se fazia mais lenta, este fator também forçava a atenção tornar-se mais orgânica e genuina. Era como se todo o meu ser se enchesse de oxigênio existencial, liberado das amarras vampirescas da mente; era como se a totalidade do ser recebesse os benefícios de uma revigorante reverberação e assim permanecesse, em êxtase, liberado, por um bom tempo, desentupindo os chacras saturados. O mental passara de ativo a passivo e a atenção dos outros centros predominava. Os olhos adquiriam força, o olhar plenitude, e não havia detalhe na realidade da cena dos animais que eu não percebesse. Minha consciência tornara-se objetiva no sentido de que era um todo que observava tudo a partir de uma outra instância, lá no olho do furacão dos vai-e-vens do ser, como se fora. Todas as tristezas desapareciam, todas as pendências, toda a ansiedade. Aquele novo fluxo de consciência era como uma corrente d’água que lavava o tapete sujo do psiquismo e que, em seu percurso, ia tapando todos os buracos, cicatrizando todas as feridas. “Eu”, ou aquela totalidade de mim, e as cabras... e um mundo panorâmico ao meu redor, e Shirali ao meu lado, e os outros homens à distância e todo o universo resplandescente. O mundo adquirira sentido. Mesmo depois de transcorridos os momentos cruciais dessa vivência, e a cena que dela fazia parte, as seqüências do que quer que eu viesse a fazer lá em cima- falar, olhar, andar- aconteceriam em outra dimensão, sob a égida de outra sensação do todo e de mim. Eu me regozijava em olhar para os animais, a natureza, e conscientemente sentia que meus gestos agora provinham como que de uma outra instância dentro de mim, eram próprios de minha essência animal- mas ao mesmo tempo cósmica- e não das minhas atuantes máscaras corriqueiras, frutos dos ideais do ego, dos meus medos ou ambições, ou dos códigos culturais vigentes. Vivenciava uma dupla sensação: a de haver assumido a minha parte instintiva, sentindo mesmo uma espécie de orgulho de appartenence com as cabras, e a de estar instalado, permeado ou propulsionado por uma consciência superior. Era como se o estado de consciência que se instalara abrangesse dois planos, o superior com o inferior- kether e malkuth. Eu olhava para as ovelhas e era como se fossem minha própria espécie, como se entre nós houvesse a identificação de membros de uma comunidade. E tenho certeza de que era isso que Shirali queria que eu vivenciasse.
Pouco antes de iniciarmos a longa e lenta descida, ele tocou-me no braço e disse: “lá embaixo é fácil se esquecer de si mesmo. O silêncio aqui ajuda a relembrar o que ainda (ele enfatizou o ieshio russo) somos. As árvores mais altas têm que ter raízes mais profundas. Como poderia não ser assim? Seria voar com asas de cera rumo ao sol. Lembrar-se de si é o mais importante e o mais difícil. Mas não é coisa mental. Quando o observador neutro atua, a lembrança de si tem que vir junto, e isto significa sentir, sensoriar como um todo. É um salto no escuro. Seu coração tem que lhe dar a coragem. Só então você é, só então você existe, só então começam a ocorrer flashes do estado de consciência objetiva. Caso contrário, tudo estará apenas imerso no sono, estaremos nos falsos estados de vigília, e tudo estará apenas acontecendo mecanicamente. O Trabalho é essencialmente isto".
A seguir, com leves toques com a palma da mão bateu-me na região abaixo do plexo solar, designada pelos chineses como tan tien, arremetando: “o centro de gravidade! O centro de gravidade! Não deixe o mental fazer com que você se esqueça dele, ou que ele se esqueça de você”.
Uma vez de volta ao lugarejo, pernoitaríamos uma vez mais junto à mesma família, partindo no dia seguinte para Tíflis, onde permaneci apenas alguns dias, seguindo para Moscou.
Quando de meu retorno a Tashkent, fui direto da estação ferroviária até sua casa. Sim, Shirali também já havia regressado e saudava-me agora jovialmente da varanda. Dirigiu-se em seguida a um dos quartos da casa, de onde voltou trazendo um pergaminho.
-“Veja isto e diga-me se não lembra o desenho da geografia do nordeste da África. Este seria o Egito pré-faraônico, pré-deserto, quando existia nas vizinhanças uma outra civilização, anterior a todas, provavelmente proveniente daquilo que fora relegado pela Atlântida. Pois bem, aqui, nessa junção histórico-geológico-esotérica da história do mundo- e estamos falando cerca de 15.000 anos antes de Cristo- é que Gurdjieff foi buscar as raízes da sabedoria esotérica ocidental. Tal qual Heinrich Schillermann, que tivera um sonho-visão quando menino, no qual se via descobrindo a lendária Tróia, Gurdjieff buscava também subconscientemente o fio de meada de um tradição de conhecimentos antiqüíssimos, preservados até sua época por uma suposta Irmandade Sarmung. Pode até ser que esta referência seja apenas uma metáfora, que a idéia de um conhecimento original preservado tenha apenas valor simbólico, já que os homens estão condicionados a cultivar o pressuposto da pureza das origens, não raramente de uma origem única. Seja como for, os mais profundos anseios de Gurdjieff nessa direção tinham raízes muito profundas e a Suméria e Babilônia eram referências recentes para o seu amplíssimo, cósmico senso da história.
Fato é que Gurdjieff realizou várias visitas ao Egito na sua juventude, e foi ali, de alguma forma, iniciado nos segredos desses conhecimentos, aos pés dos templos de Karnak e de Edfu. Ali, e aparentemente na Etiópia, teria ele encontrado o fio da meada do cristianismo esotérico e de grande parte de toda a tradição ocultista ocidental. Mas, à diferença de outros, que se deixaram arrastar pelos ventos místicos dessas verdades, ele cristalizou um conjunto harmônico, pleno de ressonância em cada uma das suas faces. Em Gurdjieff, não se pode nunca falar de misticismo, mas tão somente de Conhecimento a múltiplas faces.
Gurdjieff acompanhará aquela linha de conhecimentos através da cabala judaica, dos essênios, dos neo-platônicos, da cabala cristã e, na outra ponta, através de outro momento igualmente enigmático e obscuro da história das antigas sabedorias, agora nas proximidades de sua própria região natal- na misteriosa Suméria. Ele beberá igualmente de outras fontes e se iniciará também nas escolas sufis e no budismo tibetano.
Para Gurdjieff, como de resto para a visão cosmogônica dos hindus, na história da humanidade ocorrem de tempos em tempos eras de ruptura com os princípios de sabedoria. Quando esses períodos sombrios são muito intensos costuma ocorrer paralelamente alguma catástrofe geológica ou exacerbação de influências planetárias. O mito da busca do Santo Graal é uma das parábolas disso: durante um período de obscurantismo alguns se mantêm firmes na busca da preservação de um conhecimento imperecível.” Shirali fez então uma pausa e despachou-me dizendo: “Isso será tudo por hoje”.

XIV

Istambul


Como preâmbulo à narrativa do período de Istambul, Shirali deixou-se de novo dominar pelo historiador, pelo poeta e arqueólogo que habitavam nele. Era como se houvesse um elo comum unindo toda a Anatólia, do Bósforo ao Cáucaso. Era como se houvesse uma ancestralidade comum naquela região, para além de todas as religiões, para além de todas as diferenças étnicas, de todos os acontecimentos históricos, e era como que em nome disso que ele sentia poder discorrer a respeito, como se ele fosse a um só tempo egípcio, armênio, grego, romano, turco, sírio, judeu, assírio, georgiano...
"Gurdjieff partiu a pé, com umas duas dezenas de alunos, de Tíflis para Batum, de onde, após inúmeros preparativos, o grupo seguiu finalmente para Istambul, ali chegando cerca de 10 dias depois. Lembro-me ainda, sensorialmente, das dores que um recorrente “calo” me casou durante aquela longa caminhada. Lembro-me também do sentimento de desolação que nos invadiu quando tivemos os tapetes confiscados na alfândega, não obstante apresentarmos toda a devida documentação... e também dos vários sentimentos que me embalaram o espírito durante a travessia do mar Negro.
Exatamente um mês antes, Kemal Ataturk chegara a Samsum, situado a apenas alguns quilômetros dali, onde daria início à expulsão dos franceses da Anatólia Central e, em breve, de todas as potências estrangeiras presentes no país, restabelecendo por fim a soberania e a territorialidade da nova Turquia.
Gurdjieff e entourage chegam em Istambul em princípios de julho de 1920. Portanto, em pleno início de uma nova onda nacionalista. Após uma acomodação provisória em Pera (na Kumbaradji Cad), há séculos bairro-reduto dos estrangeiros e minorias, agora principalmente dos refugiados russos, armênios e gregos, passamos a ocupar os labirintuosos apartamentos do número 13 da Abdullatif Yemeneci Sokaka. Uma vez mais era extraordinário ver a capacidade de Gurdjieff para entrar em ação a fim de solucionar as necessidades imediatas.
Não obstante a eminente tragédia que se delineava com o êxodo das populações gregas expulsas do território turco oriental, agora rumo à Grécia e ao Chipre, e não obstante o imenso massacre que se abatia havia anos sobre o povo armênio por toda a Anatólia, Gurdjieff, um descendente desses dois povos, colocava-se acima dessa injunção e sabia que tinha uma missão maior a cumprir. Enfiou-se então numa série de negócios, da prática de cura de alcoólatras à venda de pedras preciosas e tapetes antigos, ao mesmo tempo em que administrava e ensaiava o grupo para a apresentação de seu work in progress, A Luta dos Magos.
Ao mesmo tempo, aprimorava as formas, a coreografia e mesmo o “texto” do libreto, principalmente quando de suas excurções às ilhas Príncipes em companhia de Piotr Demianovitch, quando juntos exercitavam-se na tradução da poesia persa. Agora, em pleno coração do território turco, tinhamos à disposição farto material das danças dervishes e da música sufi tradicional. Gurdjieff tinha as suas predileções voltadas para as escolas do Mukabele e sua cerimônia da rotação dançante. Ele continuava aperfeiçoando, incorporando, experimentando...
Mas aquela difícil e incessante busca por fundos financeiros aumentava também a multiplicidade dos negócios de circunstância e um deles, a cura de um alcoólatra inveterado já dado por desenganado, valeu a Gurdjieff um navio cargueiro como pagamento, com o qual ele logo faria um bom negócio; ele sabia que teria que partir para Europa com muito em cash. O famoso restaurante-café Black Rose, frequentado por toda sorte de exilados da revolução russa, de intelectuais e artistas a militares do exército branco fugidos e membros da nobreza russa, servia de escritório para o agenciamento de uma variedade de negócios.
Recebi por duas vezes a incumbência, durante esse curto período em Constantinopla, de retornar ao Cáucaso para uma série de diligências, numa das quais consegui chegar de novo a Tíflis. Por ali tudo já estava mudando abruptamente, com os bolsheviques se assenhorando por completo da situação política. Passando-me então exclusivamente por georgiano e provido de um passaporte “quente” em dia, não me fora tão difícil fazer o périplo. Gurdjieff já estava agora absolutamente convencido de que a antiga Constantinopla não poderia, uma vez mais, ser o local definitivo para o Instituto, mas apenas um trampolim o Ocidente. Ele contemplara durante bom tempo essa possibilidade por várias razões, talvez principalmente por ver nessa cidade a expressão geográfica, etnica e histórica maior da junção entre o Ocidente e o Oriente. Mas os “jovens turcos” estavam ali, para uma vez mais atrapalhar seus planos.
Negociando nossos percursos pelas ruelas e íngremes escadarias da velha Pera e suas adjacências, costumávamos deslocar-nos por vezes até o antigo Banho Çemberlitas, na Yeniceriter Cad, próximo à coluna de Constantino. Por essa época, eu me tornara um habitué de praticas as mais estapafúrdias. Uma delas consistia em, matinalmente, fazer exercícios respiratórios junto a cada uma das 57 portas tradicionais de Istambul. Perguntei a Gurdjieff se poderia haver algo de extra-positivo naqueles exercícios. Ele me respondeu que o extra-positivo pode ocorrer em absolutamente qualquer situação, mesmo a mais trivial, se os antecedentes vivificadores para tal coincidirem sincronicamente e se houver estado de consciência suficiente para assimilar e dimensionar a ocorrência.
O período de Istambul durou exatamente um ano e três meses. Durante algum tempo hospedei-me também no famoso Buyük Londra, antiga construção oitocentista situada na Mesrutiyet Cad. Havia um exótico clima literário nos saguões desse estabelecimento hoteleiro, com quartos de preços variados e sua variada fauna de poetas, escritores e artistas residentes ali já havia anos. Gurdjieff entrevistou-se com alguns deles um par de vezes, em minha companhia ou na de Alexander Salzmann.
Ouspensky, por sua vez, retomava por essa época o contato íntimo com Gurdjieff, o que passou a todos a falsa impressão de que as diferenças entre ambos estavam definitivamente superadas. Esse contato recobraria um pouco a energia dos bons tempos, mas Gurdjieff parece que já estava decidido a criar insuperáveis obstáculos nessa direção e, por volta de 1923/24, o afastamento tornar-se-ia inevitável.
As apresentações do balé A Luta dos Magos e dos movimentos em geral, fizeram sucesso por alguns meses, logo caindo, contudo, numa espécie de moderado marasmo. “As Máscaras Tibetanas”, “A Queda da Princesa” e outros sketches iam pouco a pouco adquirindo maior plenitude expressiva. Não era exatamente o público oriental que se sentiria particularmente atraído por essa produção, sobretudo na Turquia ocidentalizante do pós-guerra.
A Luta dos Magos, uma das primeiras expressões do legominismo (livremente traduzido: “sistema filosófico”) de Gurdjieff para o mundo ocidental, traz em seu seio, e esta conclusão eu só cheguei após longos anos de reflexão, o próprio enigma do homem Gurdjieff. Inequivocamente zoroastriano em seu maniqueismo subjacente, profunda e exoticamente oriental no que mais de evocatório existe neste Oriente clássico para a representação ocidental, a luta entre o bem e o mal que ocorre no enredo era uma metáfora dimensionada de sua própria luta interior. Esta luta não apenas deveria necessariamente ocorrer por força de o próprio Gurdjieff propugnar como fórmula de crescimento interior, rumo à consciência objetiva, uma contínua fricção entre forças contrárias, mas também por estar ele e sua ação, ele e suas pulsões como homem, como grego caucasiano, sujeito a tentações internas e externas de todas as espécies, tentações estas que ele mesmo, em grande medida, provocava e atraía. Os exemplos são tão numerosos, passando os mesmos desde os conflitos não raramente insuperáveis que ele criava com os que o cercavam, levando-os ao limite de suas resistências, até à ruptura final: Zaharoff, Ouspensky, Nichol, Thomas e Olga de Hartmann, Orage, Alexander Salzmann, e os inúmeros exemplos menores. No caso de Alexander Salzmann, corre a história que após inúmeras tentativas de contato com Gurdjieff teria se arrastado enfermo ao famoso terraço do Café Henry IV, em Fontainebleau, para ali ser tratado por Gurdjieff com frieza. Segundo um relato não inteiramente confirmado, Salzmann teria confessado, pouco antes de morrer, que apenas "do lado de lá viria a saber se Gurdjieff era um anjo ou um demônio”. História fidedigna ou não, o fato é que este ataque ao maniqueismo foi efetivamente realizado em palavras por um Gurdjieff convalescente na Paris do pós-guerra, quando chamou o casal Adie- responsável mais tarde pela difusão do Trabalho na Austrália- ao seu leito e disse: “Possa Deus vos ajudar. Possa também o Diabo vos ajudar”.
Um demônio o consideraram muitos, Ron Landau e Waldo Franck; alguns, como Boris Mouravieff, um anjo caído, enquanto que outros, como o cético e racional Dr. Leonid Stjornval, no outro extremo, como a própria encarnação do Cristo.
O tema central de A Luta dos Mago - balé sobre o qual ele trabalharia durante toda a vida-, a grande luta dos representantes máximos do poder benéfico e maléfico pela conquista dos seres comuns, deve ter sido usado por Gurdjieff como fator-lembrete. Não tivera ele que de certa feita fazer o juramento de só usar seus poderes psíquicos para o bem? Já que, de maneira categorica, é por ele dito que todo pau tem duas pontas, somo levados a inequivocamente constatar que a dialética de Gurdjieff impunha-lhe a manutenção desses dois planos no seu mundo interior, sendo que nem sempre predominava apenas um, o do bem. A Luta dos magos é a luta dos opostos, sem os quais o dialético processo de desenvolvimento não pode ocorrer. Como manter intactos o lobo e o cordeiro dentro de si? O ideal do amor, da compaixão inerente ao cordeiro, e o instinto agressivo de sobrevivência do lobo. Como fazer preponderar o “bem” sabendo que por vezes o “mal” tem necessariamente que atuar? Todos os íntimos de Gurdjieff pressentiam esta gigantesca luta de forças antagônicas dentro dele.
Contudo, de volta a Istambul, encontramos Gurdjieff empenhado em impulsionar o Instituto para o Desenvolvimento Harmônico do Homem. Ele passa também a dar conferências, para um público em parte trazido por Ouspensky e algo esquisofrenicamente diversificado, próprio das condições típicas daqueles anos de pós-guerra e das emigrações em massa que acorriam à capital turca. E essas palestras introdutórias ele as fazia em grego, em russo, em armênio ou em turco, dependendo do tipo de público que afluira nessa ou naquela noite.
Sabahedin Mehmet, bisneto do Sultão Mahmud II, era uma alma ávida e eclética, que mantinha convívio tanto com o budismo quanto com o cristianismo e recebia em sua residência representantes das mais correntes filosóficas e espirituais do Ocidente e do Oriente. Foi numa dessas reuniões que o jovem capitão John Goodwyn Bennett, matemático autodidata, poliglota em formação e agora precocemente designado chefe da seção turca da Serviço de Inteligência Britânica para o Oriente Médio, haveria de conhecê-lo. Não é impossível que Bennett estivesse então rastreando os passos de Gurdjieff, considerado desde havia muito tempo, entre outros pelo serviço secreto britânico na Índia, como "um perigoso agente russo". Gurdjieff, sabedor ou não que o simpático jovem oficial podia ter informações a seu respeito, resolve demonstrar que tudo que ele, Bennett, alardeava conhecer sobre o hipnotismo era, em verdade, brincadeira de criança”.
Lembro-me bem da silhueta do jovem capitão por essa época, quando pela segunda ou terceira vez assistiu aos ensaios das danças: olhos extremamente cintilantes e argutos que denotavam uma quase incontrolável curiosidade; alto e esbelto, sempre em movimento”.
Como uma das marcantes lembranças de Shirali desse período, havia aquela que relatava a súbita transformação, na expressão facial de Gurdjieff, quando este tomou conhecimento, em dezembro de 1920, que sua irmã Anna havia sido trucidada pelas tropas turcas, em Baitar, junto com o marido e as quatro filhas. O extraordinário domínio de si que ele possuía cedeu visivelmente a uma mudança subita de coloração facial, assim como pela intensidade do olhar, que projetava-se agora ao longe, como que à procura do fundo de um abismo inimaginável, no qual seu imenso sentimento de tristeza pudesse se enfiar. Acho que procurava algo nas águas misteriosas do Bósforo, por cima e através dos tetos das construções próximas à torre da ponte Galata. E assim permaneceu por longo tempo: de pé, imóvel e com aquela impenetrável expressão facial. E ninguém ousou lhe dirigir a palavra durante o resto do dia.
As atividades claudicantes do Instituto em Pera, o velho bairro europeu, assim como o clima político em geral de uma Turquia cada vez mais nacionalista, fazendo com que os "jovens turcos exalassem um aroma não muito agradável" fizeram com que a opção européia se tornasse imperativo. Talvez se tratasse dessas mesmas condições, pouco favoráveis, que aquela carta fazia menção uns dez anos antes. Agora urgia mover-se o mais rapidamente possível.

XV

Intermezzo: Shirali sai de cena

Relata-se que Wu Dao Zi, artista e sábio da China antiga, pintara para o rei uma paisagem-mural na qual havia uma porta. Uma vez terminado o trabalho, e na própria frente do rei, Wu Tao Zi desapareceu, num passe de mágica, pela porta da paisagem, nunca mais regressando.
Shirali insistia sempre que dispunhamos de pouco tempo. Costumava dizer que, se acontecesse algo de inesperado, eu deveria dar sequência a partir do material manuscrito disponível, e então apontava para um pequeno baú de madeira visível sobre uma mesa de canto. "Ali você terá tudo, até mesmo um roteiro para filme". Ocorria-me então pensar que ele receava a morte súbita. Contudo, pouco a pouco, passei a perceber a existência de um desígnio oculto. Tal percepção me fora possível a partir da maneira com que ele se referia ao esquema de etapas de vida preconizado pelo hinduismo clássico, segundo o qual deve haver quatro grandes fases ( aashrama ) na vida de um homem. O primeiro é o periodo de infância, de juventude e de aprendizado básico, passando pelos ritos de iniciação até o casamento- chamado brahmaachaarya. O segundo é o grande período da vida pública, quando um homem se casa, constitui família, tem filhos e uma vida profissional- grhastya; o. terceiro ocorre quando um homem, tendo desempenhado suas funções de marido, pai e homem público, começa pouco a pouco a se afastar dessa vida e dar início a prolongados períodos de retiro espiritual- vanapraastya. E, por fim, aquela fase final em que se retira do universo mundano por completo e passa a se dedicar plenamente à vida ascética e espiritual-sanyaasin.
Quando, ao chegar certo dia à casa de Shirali, após uma semana em Moscou, fui recebido por seu arqueólogo aprendiz Hakim, intuí de pronto que algo ocorrera. Minha suspeita, alimentada por um sentimento estranho oriundo de nossa última despedida, confirmava-se por um lento, resignado balançar de cabeça de Hakim e pelo bilhete que agora me era entregue. Shirali havia partido, não para uma curta viagem, mas para sempre. Pelo que me fora dado de pronto compreender, certos acontecimentos- de seu mundo interior?- fizeram-no precipitar aquela inevitabilidade, que ele esperava, não muito convicto, que pudesse ocorrer apenas após o término de nossas entrevistas.
"Mas raramente, raramente mesmo, comandamos o destino", dizia ele na carta-bilhete. “Não tente me localizar. Hakim lhe entregará o baú com todo o material disponível. Como eu disse antes, existe ali material suficiente para até mesmo um roteiro. Não faça apenas uso literal do meu texto: crie, inove, estabeleça se possível novo parâmetro literário, desde que fidedigno ao conteúdo. É sua obrigação para comigo e para com Ele escrever o livro. Deixo-lhe ainda o meu rosário predileto”.

Ass.: Vladimir Shiralishvili.

Levantei o olhar para procurar Hakim e ele já regressava com a pequena arca de couro ressecado. A seguir, passou-me a pequena chave de ferro. Por fim, com uma expressão facial típica daquela região, balançou de novo a cabeça como a que me consolar.
Então era isso. Shirali já deveria ter partido antes. Ele concretizara a passagem de vanaprastha para sannyasin. Premido por circunstâncias que me eram desconhecidas, ele lograra conduzir-me através de seus depoimentos até Istambul e, a partir dali, se tornar invisível. Havia ainda, na carta, uma recomendação, no sentido de que eu usasse todas as informações, diários, notas esparsas, etc., em discurso direto, não introduzindo sua pessoa nos episódios, promessa que eu pude manter apenas parcialmente. Era como se Shirali estivesse neutralizando sua interferência. Considerei então a possibilidade de que, tal como um Shankaracharya, que segundo alguns era um budista disfarçado de vedantino, Shirali talvez fosse um zen-budista, não disfarçado de gurdjieffiano, mas cumprindo uma nobre missão como se fosse integralmente um, o que ele por questões de foro íntimo apenas parcialmente era. Mas que diferença, em última instância, isto poderia fazer, já que o Trabalho de Gurdjieff não chegou a estabelecer regras de ascese e tampouco modelos de santuário para o recolhimento final, como é o caso da maioria das religiões vigentes, dentre elas o próprio budismo, se visto como uma, para o qual o silêncio, possui valor supremo?.
Assim é, caro leitor, que a partir daqui Shirali não estará mais ao nosso lado, mas apenas em espírito e como fonte. Sinto como meu dever prevenir também que ocorrerá, a partir de agora, uma significativa mudança no estilo narrativo, sempre fiel, contudo, ao material legado.
O acervo de manuscritos de Vladimir Shiralishvli continha umas cento e cinquenta páginas, constituindo um todo fragmentado. Seu conteúdo era diversificado, composto desde frases soltas em guardanapos de restaurantes europeus e russos, contendo por vezes uma única frase, um lembrete para si mesmo - "falar mais sobre o Egito", ou ainda páginas soltas com uma observação dilatada: "O humor dos armênios e o humor greco-armênio de Gurdjieff"-, até cadernos finos completamente preenchidos em sequência. A maior parte do material estava escrito em russo, sendo apenas uma pequena parcela em georgiano, e outra, diminuta, em inglês. Havia no estilo desse material uma síntaxe híbrida, às vezes fluente, iluminista, por vezes bem erudita e, não raramente, fortemente literária. Assim sendo, vez por outra optarei por transcrever literalmente um trecho, ou uma reflexão solta sobre uma pessoa, uma questão filosófica, um acontecimento ou sobre o próprio Gurdjieff. O mais sequencial de todos os segmentos desse espólio literário é o ensaio sobre o opus magnus de Gurdjieff, Relatos de Belzebu a seu Neto, uma das pérolas daquele tesouro e que será aqui inserido como um capítulo único. Estranhamente, as anotações, reflexões e observações de Shirali param com a morte de Gurdjieff. Este fato decepcionou-me um pouco, pois esperava que ali houvesse material referente ao período subsequente, assim como sobre as próprias atividades de Shirali do final da década de 1940 até 1980, quando ele resolve regressar ao Cáucaso e à Ásia Central. Contudo, nenhuma palavra a esse respeito, salvo as que escutei de sua própria boca em nossas conversas.

XVI

Do Bósforo à Alemanha

Os escritos de Ouspensky faziam sucesso na Inglaterra do pós-guerra e ele recebeu então o convite, feito diretamente pela generosa Lady Rothermere, para seguir para Inglaterra, todas as despesas pagas, e encetar um ciclo de palestras sobre o seu Tertium Organum, seu campeão de vendas. Quase que ao mesmo tempo, Gurdjieff recebia também um convite, vindo da Alemanha, para que se instalasse com sua troupe em Hellerau, onde até então funcionava o Instituto Dalcroze.
Os Salzmann já conheciam Jacques Dalcroze desde antes da Primeira Guerra, quando Jeanne, suiça de nascimento e ainda com o sobrenome Matignon, estudara o método de dança euritimica criada sob a inspiração de outro suiço, o notável Rudolf Steiner, fundador do antroposofismo. É desse período de Hellerau que data o casamento dela com o talentoso Alexander Salzmann- amigo de Kandinsky e de grande parte da nata artística da Alemanha do pré-guerra.
Exatamente por aquela época, ainda por singular coincidência, o principe Sergei Wolkonsky, à época grande sacerdote do teatro russo, tornara-se profundamente interessado nas idéias de Dalcroze, convidando-o para uma apoteótica tourné pela Rússia, ocorrida em 1912/1913, exatamente à época em que Gurdjieff chegava a Moscou.
Alexander Salzmann, conterrâneo de Shirali, fora uma das mais desconcertantes e singulares figuras da história do Trabalho. Georgeano de nascimento, mas de ascendência baltico-germânica, ele fundia em si as peculiaridades de espírito, de astúcia e de manifestação de ser típicas de um caucasiano, moldado e aparado por uma forte mistura de alta cultura artística e intelectual russo-germânica. Segundo Shirali, seu senso de humor era proverbial e a aparência felina, provida de uma inteligência inequivocamente incisiva, faziam dele um mestre em seu próprio direito. Suas sarcásticas piadas, histórias de escaramuças e escapadas no Cáucaso ou na Alemanha, como quando certa feita arrastara para o bosque, sob a mira de revólver, um funcionário que tentatava atrapalhar-lhe o projeto de iluminação de uma peça: amarrara-o numa árvore, e regressara ao teatro para assistir ao final do ensaio. “Gurdjieff mantinha com Alexander Salzmann uma relação muito especial, certamente por força das raízes caucasianas. É de se supor que dialogassem, contassem piadas e confabulassem pequenas conspirações em georgiano, protegidos dos ouvidos russos que se encontravam por todos os lados.
Alexander desempenhara, em inúmeras oportunidades, tarefas cruciais em benefício do Trabalho e Shirali parecia lamentar que tenha ocorrido um estranhamento entre ele e Gurdjieff no final dos anos 20. A formação de um dos primeiros grupos franceses, senão do primeiro, devia-se a ele, assim como a ele devia-se muito da concepção artística dos espetáculos e da decoração de interior do Prieuré. Sua morte, ocorrida em 1934, deixaria um certo vácuo, e pareceu inapelavemente prematura, embora algo anunciada.
Embora tivesse feito o convite a Gurdjieff e sua troupe, Dalcroze não viria a ser afetado pelas idéias do Trabalho. Talvez por essa razão a tentativa de Hellerau não tenha dado certo. Houve também o processo judicial em torno da concessão da propriedade a Gurdjieff, que este perdera por haver um tal Harold Dohrn declarado ter estado sob estado de hipnose quando prometera a Giorg Ivanovitch Gurdjieff a primazia na ocupação.
A estada de Gurdjieff na Alemanha durará de setembro de 1921 a julho de 23. Durante esse período, com Olga de Hartmann funcionando como sua secretaria e fazendo todos os contatos possíveis junto à aristocracia alemã, para angariar fundos e adeptos, e Alexander Salzmann com artistas e intelectuais, Gurdjieff pode ter sido abordado por ordens ocultistas alemãs e talvez estabelecido com essas algum tipo de contato. Ele aproveitou também para fazer diversas viagens a países vizinhos, sondando em cada um deles a possibilidade para a implantação do Instituto. As instalações de Hellerau, cedidas num impulso de generosidade, eram agora juridicamente reivindicadas por pelo menos três pretendentes, entre os quais A. S. Neil e seu projeto de Educação para a Liberdade. Em junho a causa estava perdida, mas já por essa época Gurdjieff, após as duas fulminantes visitas a Londres, sabia que o local futuro do Instituto não viria a ser nem na Alemanha nem na Inglaterra, mas sim na "nobre França", onde ele e sua troupe faz sua entrée triomphale em pleno 14 de julho de 1922.

XVII

Interlúdio


Três alimentos
Três mundos
Quatro estados de consciência


Além das duas linhas cruciais, a do ser e a do conhecimento, que deveriam correr em convergência mútua, uma integrando a outra, mas que no homem atual estão disconexas, Gurdjieff falava com frequência dos três alimentos básicos. O “aparatus” humano, visto por Gurdjieff como uma fábrica de extraordinário potencial, mas reduzidíssimo aproveitamento, absorve três alimentos essenciais: a comida que ingerimos, o ar que respiramos e as impressões do mundo externo. Contudo, essa fábrica não apenas ingere os alimentos inapropriadamente, mas igualmente disperdiça energia de maneira disparatada com o trabalho incorreto dos centros instintivo, emocional e intelectual. Comemos apressadamente, sem sentir os alimentos, falamos em excesso, pensamos incorretamente, somos dominados por todos os tipos de tiques nervosos e cacoetes gestuais e mentais inteiramente inconcebíveis à natureza humana. E tudo isto consome enorme energia, e atrapalha e impossibilita o longo trabalho a ser realizado para que possamos resgatar um mínimo necessário com vistas a objetivos maiores. Esses automatismos de todos os tipos, herdados ou adquiridos agora, fazem com que a máquina humana construa uma série de impedimentos para que o homem deixe de ser um homem com aspas e realize o potencial que possui imanente. Além disso, ocorre a ação hipnótica disso que Gurdjieff, num primeiro momento, se refere como o poder de fantasia do kundalini, e que mais tarde ele ele eleverá à categoria de orgão e renomeará como kundabuffer.
Nesse miserável estado em que se encontra, o homem precisa de ajuda e, a rigor, deverá a princípio ter que se submeter à vontade de alguém que já saiba, que já tenha sido ajudado a se libertar. Além disso, ele precisa ter uma vontade cada vez mais forte, um desejo cada vez mais intenso de se libertar (o mumuksha dos hindus ), para que não seja eternamente prisioneiro da recorrência dos estados de mecanicidade. O trabalho certo sobre si mesmo, por outro lado, começa a existir a partir da criação de um centro permanente de gravidade dentro de si. Uma das maneiras que o homem tem de se afastar dessa possibilidade imanente manifesta-se em seu relacionamento com o dinheiro e com o sexo, dos quais ele, em geral, é escravo -ou pelos quais sente uma forma ou outra de obsessão. Outras formas de impedimentos estão relacionados com as fantasiosas ou deformadas representações que o homem tem de si e da vida, geradas por falsas epistemologias, pelas ideologias e pelos errôneos processos educacionais.
Gurdjieff enfatizava a diferenciação fundamental a ser feita entre o mundo interior e o mundo exterior e o quão importante é que não façamos leituras equivocadas sobre as esferas desses dois planos. O mundo externo, o das conveções, o dos incidentes históricos, das efemeridades sociológicas, históricas ou mesmo psicológicas dos homens deve ter pouco ou quase nada a ver com o verdadeiro mundo interior do homem, cuja essencialidade herdada pela injunção de dois fatores básicos- hereditariedade e tipo psicológico, ou seja, injunções planetárias no momento da concepção e nascimento- modifica-se pouco em seu núcleo pelos fatores externos. O processo de auto-conhecimento, conduzido pela atenção plena de si, a auto-observação- a lembrança de si!- faz com que se dependa cada vez menos do mundo exterior. “O trabalho não precisa de nada do exterior”, repetia Gurdjieff. E é desse processo de separação do si de si mesmo, dessa desidentificação in progress, que constitui o motor de qualquer prática dita espiritual do Oriente, que começar a pingar, ou melhor, cristalizar, durante um período de gestação, a presença de um outro corpo, e de um outro mundo: aquele do kesdjan.
Gurdjieff enfatiza o fato de que em vez de chamar de inconsciente a parte essencial do “armazém” das representações e impressões acumuladas, convém designá-la como subconsciente, e é a partir daí que já se encontra latente e deve se expandir a consciência objetiva. Perguntado certa vez sobre a “consciência cósmica”, Gurdjieff respondeu que esta é uma expressão vaga e indefinida. Na maioria dos casos simplesmente uma fantasia, sonhos associativos no estado de “vigília” fruto dos excessos do centro emocional...
Para Gurdjieff, só se pode conhecer a consciência desde que se tenha “vivido a consciência dela”. Pode-se também definir os momentos em que se está próximo a tê-la e ter-se-á certeza desses momentos após se haver experimentado estados de [plena, superior] consciência. Ao observar o surgir e desaparecer de estados de consciência/inconsciência” compreende-se que o estados de mecanicidade são evidentemente mais frequentes e os de consciência apenas flashs, quando muito. A propriedade da consciência é de contínua imprevisibilidade. Há diferentes tipos e diferentes níveis de consciência. Nenhuma definição, conceitualização poderá ajudar a plenamente compreender, sobretudo “vivenciar” ou ensejar os estados de verdadeira consciência. Temos que “sentí-los”, quase que “palatá-los”. Como poderá alguém definir algo que ainda não conhece? Algo que ainda não sabe o que é? E é sobretudo sobre essa gigantesca, falaciosa prática filosófica especulativa que Gurdjieff previne. A obtenção dos estados de consciência só virá como resultado de todos os esforços e condições propiciadoras- ainda que naturalmente herdadas “de vidas passadas”, para usar uma imagem hindu.
Dos quatro estados de consciência a que Gurdjieff se refere, os dois primeiros são típicos do homem ordinário. O primeiro sendo o do sono, um estado passivo no qual o homem dispende um terço ou até a metade de sua vida. O segundo estado é aquele em que ele anda pelas ruas, escreve livros, fala de política, mata outros bípedes tricerebrais semelhantes a eles, filosofia e que ele considera como ativo e de “plena consciência”.
O terceiro estado de consciência é o da lembrança de si ou o da consciência do ser. Este é um estado que “pode vir”, mas que não pode ser “possuído”, obtido simplesmente porque se quer, por pura vontade. Podemos criar condições propícias, através da autoobservação, ou da meditação, para que ele ocorra.
Enfim, o quarto estado de consciência que poderíamos chamar de estado objetivo de consciência. Neste estado, o homem observas coisas como elas são. Este estado é chamado no Oriente em geral como Iluminação e o Buda, o “Desperto”, é também chamado de Tathagata, “aquele que é chegado à natureza tal qual das coisas”. Segundo Gurdjieff, este quarto estado de consciência do homem é o resultado de um crescimento interno e de longo e árduo trabalho sobre si. Os dois últimos estados estão conectados com os centros superiores no homem: o emocional superior e o mental superior.
Gurdjieff abordou profusamente a questão do estados de consciência nos períodos de Moscou/São Petersburgo e do Cáucaso, particularmente em Essentuki.

XVIII

Prieuré

A Europa do pós-guerra foi palco de uma explosão de movimentos artísticos e políticos sem precedentes. Toda a efervescência experimental que vinha ocorrendo desde os princípios do século- e que ficara algo em suspense ou em status nascendi- durante os anos da grande guerra, eclodia agora de maneira ainda mais impetuosa e radical. Também o esoterismo, talvez como uma fuga ao devastador senso de horror que o conflito bélico causara sobre as mentes, florescia em várias direções. Nietzsche readiquire importância. Ocultismo ocidental, teosofismo, antroposofismo, budismo, yoga... Em meio a uma gigantesca perplexidade, há busca… e muita confusão. Surgirá um René Guénon tentando organizar a multiplicidades de vias, normatizar o plano espiritual. Os ecos do Oriente, em cascatas várias de influência, entram na ordem do dia das preocupações espirituais e nas buscas de novas vias. A arte se emancipara definitivamente de qualquer tutela e o primeiro ítem da pauta lê: criar, inovar, avançar. Os anos subsequentes aos da guerra são, no campo das artes e da filosofia, incomparavelmente superiores aos que se seguirão à Segunda Guerra.
Era como se a história das artes ocidentais estivesse fadada a chegar ao limite máximo de seus potenciais até início dos anos 30 e, a seguir, ser congelada pelos movimentos totatalitários que surgiriam. Não sei ao certo se Gurdjieff tinha consciência do quanto a Europa estava faminta pelo novo, pelo radicalmente novo, como se fora num último estertor de avanço e inovatoriedade, antes que mergulhasse uma vez mais em seu processo de auto-destruição. Mas também ele precisava da Europa para levar adiante aquilo que considerava sua missão. Também ele estava buscando os elementos para formatar seu legominismo. Certamente que nós, que representávamos, pela dimensão que se arvorava o Trabalho, uma espécie de avant-garde, tinhamos, senão consciência, pelo menos um pressentimento disso. Estamos em 1922 e após a permanência de cerca de um ano na Alemanha, Gurdjieff prepara-se para se mudar para a França. Este é um momento crucial, pois que significará a experiência do Prieuré.
A aventura do Instituto em Hellerau acabou em processo judicial, que Gurdjieff perdeu. Desse período, ainda que curto e rigorosamente transitório, surgirão mais tarde frutos, já que os contatos de Olga de Hartmann com a alta sociedade alemã introduziu Gurdjieff a algumas pessoas de influência, posteriormente convertidas ao Trabalho.
Antes de definitivamente decidir-se pela França, Gurdjieff sondou amplamente a carta ingleza. Numa das visitas que fez à ilha, durante a qual foi acionado o processo de obtenção de um visto permanente- concedido para ele, mas não para a troupe, o que talvez tenha sido a maneira inglesa de dizer No!-, Gurdjieff criou para Ouspensky uma situação tão constrangedora que era como se mais lenha tivesse sido intencionalmente colocada uma barreira intransponível entre os dois.
Primeiramente, no nível operacional do Trabalho. Gurdjieff deixara claro, durante a primeiríssima palestra, diante de uma platéia sôfrega, composta de expressiva parte da intelligentsia londrina da época, que qualquer abordagem que trabalhasse apenas o centro intelectual estaria fadada ao fracasso, a perpetuar o status quo da condição humana. Somente o Trabalho no plano da essência poderia produzir a diferença necessária e, para tal, um verdadeiro mestre se fazia necessário. Sem muita cerimônia ele deixava claro ser esse mestre. Contudo, para levar adiante seu trabalho necessitava de verbas para fundar o seu Instituto.
Alfred Orage, uma dos mais argutos e proeminentes críticos literários de sua época, nietszchiano a procura de algo mais, soube instintivamente e não teve dúvidas: Gurdjieff, aquele “Deus caminhante”, em suas próprias palavras, era o mestre. Lady Rothermere, a milionária espiritualizante, resolveu então abrir a bolsa para o que fosse necessário. Outras cotizações também foram feitas. A permanência na Inglaterra tornada impossível, em que pese as gestões de Kenneth Walker e outros, a opção francesa adquiria contornos cada vez mais inequívocos.

Segundo as anotações de Shirali, a experiência do castelo do Prieuré, prestes a acontecer, fora um sucesso em vários sentidos; em alguns, pleno fracasso. Sucesso, na medida em que se tornou um marco, a grande referência, um ponto de partida para todo Trabalho na Europa e nos Estados Unidos. Na sequência, o Prieuré pode ser considerado a segunda tentativa institucional, a primeira tendo sido em Tíflis, e a terceira após sua morte com a Fundação Gurdjieff, tendo à frente Jeanne Salzmann e Lord Pentland.
O “insucesso” do Prieuré deveu-se em parte à não consecução de uma integração plenamente frutífera entre o aspecto físico, sensorial do trabalho, e sua contrapartida teórica. Deveu-se também por falta de recursos financeiros. E, não menos, pela impossibilidade latente em tais projetos. O acidente de carro, no qual Gurdjieff por muito pouco não morrera- para os médicos Sirotine e Alexinsky um milagre-, viria a ser decisivo para a abrupta mudança de rota. Algo de poderosamente estranho estava acontecendo. Talvez Gurdjieff tivesse auscultado forças ocultas, poderosas, que obrigaram-no a desconstruir quase tudo e mudar de estratégia. Assim, menos de dois anos após a inauguração, o esvaziamento gradual das atividades e a mudança parcial de formato constituirão um choque para muitos. Havia também algo de um exercício, de uma diabólica intencionalidade, naquelas mudanças súbitas de rumo.
Mais tarde, após a Guerra, quando de novo afluíam os discípulos e os dólares para a rue de Colonels Rénards, o Instituto começou a ser de novo cogitado, quanto mais não fora por força da necessidade de mais “ar puro”, mas o agravamento do estado de saúde de Gurdjieff descontinuou o projeto e a publicação do Belzebu passou a ser prioridade.
Até a retomada das atividades do Trabalho, no pós-guerra, poderíamos dizer que apenas os grupos das mulheres, como aqueles criados por Jane Heap e Jeanne de Salzmann, foram mais bem sucedidos na ênfase ao trabalho corporal, sensorial, orgânico. Os grupos decorrentes das atividades de Ouspensky permaneciam fieis ao formato pergunta-resposta, à dimensão psicológica do Trabalho. Ao perceber com clareza essa tendência, Gurdjieff começa a mudar a dinâmica, esvaziando o aspecto teórico, que será articulado tão somente através das leituras do Belzebu, e enfatizando uma linha mais direta, algo tântrica, algo zen. Foi exatamente por força dessa tendência negativa, ou seja, a tendência a formatar intelectualmente o Trabalho, psicologizando-o demais, assim como pela interferência dos egos, que ele se viu forçado a dissolver os grupos de Nova Iorque, obrigando Alfred Orage, então seu “Diretor para a América”, a assinar um documento renunciando à sua qualidade de instrutor e colocando-se disponível para começar como um aluno igual aos outros. Mas essa também não era a única razão. A dialética de Gurdjieff era sempre labirintuosa, multifacetada e era impossível saber-se exatamente o que realmente estava por trás desta ou daquela atitude. Era praticamente impossível conseguir acompanhar o que se passava em sua mente, já que as indicações que as atitudes externas e expressões faciais poderiam denotar nunca correspondiam ao que realmente existia por detrás de sua extraordinária impenetrabilidade. Ninguém possuía a relativa ou absoluta certeza de realmente conhecer o homem-inigma Gurdjieff, o homem invisível, para além das instâncias que se exteriorizavam em atitudes externas. Sempre inequívoca, contudo, era a paupável existência de uma intencionalidade, de um propósito. Nada era psicologicamente fluido, subjetivamente aéreo. Em tudo havia um centro de gravidade e um objetivo vinculado a alguma forma de ação e de despertar.
Ao chegar em Paris, no verão de 1922, Gurdjieff instalou todo o grupo- cerca de 25 pessoas- no hotel Solferino. Ele dipunha de 100.000 francos, quantia considerável, mas que logo se evaporaria com as despesas da troupe e na espera da generosa visita da Baronesa Rothermere, com a ajuda financeira da qual, entre outras, o Instituto será organizado. Thomas de Hartmann já havia chegado antes e desempenhara uma série de incumbências que G. lhe havia solicitado. Ao esperá-lo no festivo 14 de julho, na Gare de L'Est, ele trazia à mãos as chaves de um pequeno e confortável apartamento situado na rue Commandant Marchand. Providências também já haviam sido tomadas para que a troupe pudesse ensaiar diariamente na filial parisiense do Instituto Dalcroze, situado na rue de Vaugirard, XV ème arrondissement.
Olga de Hartmann tinha agora a missão de descubrir um local amplo e adequado como sede para o Instituto. Com o seu costumeiro senso pragmático, ela acabaria por localizar o imóvel ideal: a uns 60 quilômetros de Paris, e no perímetro da luxuriante Floresta de Fontainebleau, onde a escola de Barbizon tanta inspiração extraira, estava disponível uma célebre residência. O antigo priorado de Basses-loges-, situado na famosa Avon, transformada em residência burguesa desde o século XIX, era em verdade um pequeno castelo reformado. Construção baixa, três andares, sendo que o último, em verdade, constituía algo como uma sequência de mansardas. Uma sóbria porta principal e cerca de 35 janelas de frente. O flanco direito era mais estreito que o esquerdo e nunca soube-se ao certo se por estilo da construção original ou por força de uma das reformas sofridas ao longo dos séculos.
Localizado a rigor no cantão de Avon e, portanto, pertencente à prefeitura de Fontainebleau, a construção do castelo data do século XIV, portanto muito antes de François I voltar embevecido da Itália com as maravilhas do Renascimento e escolher as imediações da famosa floresta como sítio para construção de seu colossal castelo. Toda a área ao redor de Fontainebleau passou a ser objeto da construção de inúmeros priorados, no que o castelo tornou-se, após a sua primeira grande reforma, em consequência da destruição que sofrera com a guerra dos Trinta Anos. Lendárias também ficaram as visitas de Madame Maintenant ao Prieuré, onde costumava assistir as missas.
Após percorrer seis séculos de existência, o pequeno castelo, ou o que dele havia se tornado, pertencia agora à viúva do famoso advogado do capitão Dreyfuss, Madame Marguerite Gustave Libori. Após exaustivas negociações, um termo de compromisso será firmado: o chateau seria alugado por um ano a 65.000 francos, com a promessa de venda a 700.000 findo aquele prazo. Parte da mobília deveria ficar nas dependências do imóvel, assim como o caseiro-jardineiro, segundo a vontade da proprietária. Por alguma razão que a posteridade ainda desconhece, Gurdjieff achava que o caseiro teria que sair. Depois de muitas e cansativas negociações tudo estava acertado, à exceção da questão do caseiro-jardineiro. Gurdjieff, que além de “au-revoir” e “merci” provavelmente só sabia mais umas 10 palavras em francês, dependia inteiramente de Olga de Hartmann para as tramitações. Quando da última rodada de acertos com a proprietária, ele instruira Olga a repetir mentalmente, a cada segundo e a cada situação, para si mesma, e com o restante de sua atenção posta no que Madame Libori dizia, que: o caseiro tem que partir, o caseiro tem que partir. O resto ela deveria deixar por conta dele, Gurdjieff, que estaria acompanhando a entrevista à distância, por telepatia certamente. E assim foi que, após uma ultima longa conversa e sem que fosse tocado o assunto do caseiro em qualquer momento, e com Olga praticando o exercício dado a ela pelo mestre, Madame Labori espontaneamente anunciava: "está bem, e o caseiro sai também!".
Negócio fechado e uma equipe de dançarinos e de outros voluntários se transformava em pelotão de mutirão. Assim, após vasta tarefa de limpeza e ocupação, o Chateau du Prieuré des Basses-Loges sur Avon foi de pleno direito ocupado em 1º de outubro de 1922 pelo Instituto Para o Desenvolvimento Harmonioso do Homem. Programou-se então uma data para a inauguração: 13 de janeiro de 23, dispondo-se assim de pouco mais de três meses para a gigantesca tarefa de adaptação e implementação. Mas os exercícios psicossomáticos, as tarefas físicas e os ensaios dos movimentos e da música sacra não podiam parar. Além de cerca de 50 pessoas da primeira leva da ocupação, dezenas se preparavam para vender seus pertences e se juntarem ao novo guru que surgia como sensação às margens da floresta de Fontainebleau. A energia disponível naqueles primeiros tempos era exultante. O caráter de novidade espiritual, exótica em mais de um aspecto, mas também a proximidade com a natureza e o meio ambiente circundante contribuíram para ganhar da imprensa o título de os “Filósofos da Floresta". Uma singular comunidade liderada por um grego-armênio de origem caucasiana, de aparência desconcertante e olhar hipnótico, cuja a maioria de discípulos era composta de emigrantes russos, mas também franceses, ingleses, armênios e logo a seguir um número expressivo de americanos. Uma nova fórmula de salvação do homem que parte do postulado de que o homem comum, a rigor, nada faz, com que ele tudo acontece.
A escritora Katherine Mansfield, procurando um refúgio para seu atormentado espírito e sua avançada tuberculose também partirá para o Prieuré. Mas sua morte inevitável, a ocorrer em princípios de janeiro, e a repercussão que acarretaria, atrairia para as atividades do Instituto uma atenção negativa. Ela chegara no final do ano, talvez em princípios de novembro de 22, fisicamente terminal. Gurdjieff resolvera optar por uma terapia radical: contato direto com a natureza, o mais próximo possível do curral das vacas. Seu diário e cartas atestam o quão maravilhada estava com tudo aquilo que via a seu redor, embora suspeitasse fortemente que o destino já fechara questão a seu respeito. A morte inevitável de Katherine Mansfield levantará suspeitas sobre o Instituto e seus métodos e Gurdjieff pagará um preço por ter permitido a admissão da escritora. Contrabalançando a imprensa marrom, vozes indignadas saíram em defesa de Gurdjieff, como a de Clifford Sharp, que escreveu uma série de artigos conscienciosos no New Statement.
A partir de 1923, Gurdjieff e seus "filósofos da Floresta" passaram a estar no centro das atenções espirituais de uma Europa sedenta por inovações e buscando em todas as formas de manifestação artística a grande panacéia que livrasse os homens da autodestrutiva prática que ocorria de tempos em tempos. Essa era uma época em que os movimentos expressionistas alemães, no cinema, na literatura e sobretudo no teatro-dança realizavam experimentos radicais. A originalidade surgia como que aos borbotões: Pina Bausch, Rudolf von Laban, Dalcroze, Stravinsky, Fritz Lang, James Joyce, D.H.Lawrence, T.S. Eliot... a lista é longa. A angustiosa e trepidante década de 20.
As danças sagradas de Gurdjieff, com o seu ar de exotismo oriental e com os desconcertantes stops, manifesto dançante de que o homem é uma máquina e que nada pode fazer de real, o apelo à lembrança de si, e as referências vagas à possibilidade de criação de um segundo corpo, astral, asseveradas pela inconstestável presença de uma hipnótica e impressiva individualidade, o próprio Gurdjieff em pessoa, prometiam proporcionar a esperança concreta, não teórica, de uma salvação. Os boatos nas duas pontas do espectro geravam controvérsias e atraíam tanto novos curiosos quanto sinceros aspirantes.
Os residentes semi-internos e internos do Prieuré já alcançavam quase a casa dos cem em número. O rítmo do Trabalho era intensíssimo, fora e dentro do recuperado hangar de um Zeppelin, adquirido por Gurdjieff e agora transformado em Study House. Em seu interior, sagralizado, tinha lugar todo o leque das atividades a serem realizadas indoors. Sua decoração e iluminação fora concebida à la orientale sob a orientação do talentoso de Alexander Salzmann, para o quê ele produziu uma série de croquis.
Praticamente todos aqueles que posteriormente se dedicariam aos grupos de Ouspensky passaram pelo Prieuré, ainda que por pouco tempo. O jovem mercurial capitão Bennett, que conhecera Gurdjieff em Istambul; o médico junguiano Maurice Nicoll, que mais tarde deixaria um estraordinário testemunho na forma de cinco volumes- os Comentários Psicológicos-, Kenneth Walker, C. Nott, e o próprio Ouspensky, que faria várias visitas.
Mas em fins de 1923, Gurdjieff já vislumbrava novos horizontes: a América.

XIX

ESTRANHO ACIDENTE

Ouspensky dizia que Gurdjieff dirigia seu carro como se estivesse montado num cavalo. Os trepidantes relatos dos passageiros que o acompanhavam, do Prieuré a Paris e vice-versa, ou quando das excursões ao sul da França ou à Suiça, são inúmeros. Respiração suspensa e prece aos céus para chegar sãos e salvos. Gurdjieff dirigia em alta velocidade e desrespeitava solenemente as regras de trânsito. Certa ocasião, numa daquelas escapadas “instrutivas”, uma curva fechada surpreendera o motorista afoito e uma freiada abrupta conduziu o veículo literalmente à beira de um pricipício. Ao vislumbrar o cemitério situado lá embaixo, o sarcástico Alexander Salzmann observou: “muito apropriado”! Em outra oportunidade, de retorno de Paris ao Prieuré, Olga de Hartmann, após insistir para que ele diminuisse a velocidade e sendo repelida com um "não se meta no que eu faço", exigiu indignada que o mestre parasse o carro ali mesmo na estrada, para que ela e Thomas pudessem descer, o que Gurdjieff fez, voltando contudo alguns minutos depois para recolher o casal.
Portanto, não seria descartável o pressuposto de imprudência da parte de Gurdjieff quando do acidente quase fatal.
Gurdjieff retorna de sua primeira visita aos Estados Unidos em fins de junho de 1924. Ele havia partido em princípios de janeiro, após uma retumbante e controvertida apresentação das danças sagradas nos Champs Elysées. Tendo sido forçado a lançar mão de parte do dinheiro reservado para as despesas do fiasco daquela apresentação, ele se vira, no final de dezembro, diante de uma situação financeira tão incômoda- como dezenas ou centenas de outras que ele, voluntariamente ou não, se enfiaria durante toda sua vida- e da qual seria salvo pela mão da providência. A mãe, recém-chegada da conturbada garganta sul do Cáucaso, engrossava agora, com uma irmã sobrevivente de Gurdjieff e seu irmão Dmitri, a lista de residentes regulares do Prieuré. Ele se encontrava sentado, envolto em ativa mentação à busca de uma solução para o impasse pecuniário em se encontrava, quando ela interrompe-o para suplicar que a libere daquela obrigação que carregava consigo já havia alguns anos, a saber, a de esconder sob as vestes uma valiosa jóia que lhe fora por ele confiada. Qual! Gurdjieff já havia apagado de sua mente a existência daquele tesouro que remontava à época da revolução russa: um broche que pertencera a uma nobre russa, valendo centenas de milhares de francos da época. Foi com base naquela rara jóia, negociada mais tarde em Nova Iorque, que Gurdjieff sentiu-se estimulado a contrair uma hipoteca capaz de assegurar a sua primeira viagem à América, seguido de troupe e staff de mais de 30 pessoas.
Assim, ao retornar dessa primeira viagem, sem dúvida bem sucedida, durante a qual ele realizou uma tourné por várias cidades americanas, o clima no Prieuré tinha mudado. Havia no ar certa insatisfação e a inequívoca manifestação de certa energia negativa em relação a ele. Nos Estados Unidos, tudo correra promissoramente bem e Gurdjieff retornava com uma filial do Instituto oficialmente inaugurada, dezenas de novos alunos e uma considerável soma em dinheiro. É bem possível que durante essa viagem ele tivesse amadurecido um propósito que já vinha nutrindo havia um bom tempo, a saber, o de passar para a forma escrita o conjunto dos seus conhecimentos. E era de fato imperativo que o fizesse, por várias razões, entre as quais a constatação de haver no Ocidente uma inclinação preponderante à assimilação do conhecimento primeiramente pela via escrita, mas também como medida preventiva, antes que começassem a distorcer seu legominismo por meio de outras publicações e uma indevida proliferação de ismos.
Contudo, no Prieuré a atmosfera de júbilo era modesta. Afinal de contas, seis meses de ausência, os ensinamentos tão esperados em compasso de espera e não menos os problemas financeiros deixados para resolver. O apartamento da rue Commandant-Marchand, no XVIème arrondissement, tivera que ser entregue, mas com a ajuda de Olga de Hartmann um outro seria logo conseguido, próximo da Porte de Maillot, no Boulevard Pereire. Mais tarde, ele se mudará para a rue Labie, um pouco mais à frente, e, com a morte de seu irmão, em 36, para o seu famoso domicílio do primeiro andar do número 6 da recôndita rue des Colonels Rénards.
8 de julho de 1924. Dia calorento. Estrada Paris-Fontainebleau. Cerca de um ano e meio antes, esgotado pelo excesso de trabalho, Gurdjieff dormira ao volante ao ingressar no trecho rodoviário da Floresta, imediatamente nas imediações da famosa Barbizon. Por um milagre seu carro não se espatifou contra uma árvore. Desmaiado dentro do veículo, com as janelas fechadas, e "estacionado" por uma mão invisível à beira da estrada, ali ele ficaria por quase doze horas seguidas, de 11hs da noite até as 10:15hs da manhã seguinte.
Agora, praticamente nas mesmas imediações, em plena luz de uma tarde veranil do dia 8 de julho de 1924, a morte bate à sua porta com tal força que por pouco quase entra. Segundo os médicos que o receberam no hospital de Fontainebleau e os outros do Priueré, Alcock, Young e Stjoerneval, sua vida se encontrou por um tênue, quase invisível fio, devido a multiplicidade de fraturas, considerável perda de sangue, dilaceramentos e, aparentemente, irrecuperável estado de choque.
Aquele fora um dia estranho. Após ordenar uma revisão completa do carro, volante incluído, ter providenciado, sem razão imediata, uma Procuração para Olga de Hartmann, haver desmarcado um encontro agendado por ela e informado que voltaria sozinho de carro, Gurdjieff almoçou no restaurante armênio Chez Simonian e partiu a seguir para o Prieuré, passando pela Porte d'Italie, como sempre em alta velocidade, pouco depois das quatro da tarde. Seguindo pela estrada Fontainebleau, ele não iria além da junção do caminho de Perthes-em-Gatinars. O veículo que o teria abalroado seguiu em frente sem prestar socorros, e um carteiro, somente anos depois reconhecido, foi o primeiro a atendê-lo.
Mais tarde, em O MUNDO SÓ É REAL QUANDO EU SOU, Gurdjieff fará alusão inequívoca ao fato de que forças psíquicas negativas, acionadas contra ele, foram as responsáveis pelo ocorrido. Ouspensky, que dias antes do acidente tivera um desconfortavel encontro com Gurdjieff e tomado a decisão de proibir seus alunos em Londres a manterem contato com o Mestre, dirá mais tarde que receava que forças muito poderosas do ocultismo europeu estivessem atuando. A presença e ação de Gurdjieff na Europa estaria gerando uma guerra de magos.
Durante a viagem de Gurdjieff aos Estados Unidos, em 1924, o Prieuré foi visitado por grande legião de curiosos. O Prieuré estava na ordem do dia. O cético D.H Lawrence, incitado a uma visita por Mabel Luhan, recusou-se desdenhosamente. Mas Aleister Crowley, passando por Avon de volta de Tunis, com os manuscritos de suas Confessions debaixo do braço, parou para uma inspeção. Dois anos depois, já morando em Paris, o mago inglês retornará para um fim de semana, tendo a oportunidade de conhecer pessoalmente o mestre. Ele será vigiado de perto durante sua estada e, segundo alguns, um intenso confronto de olhares ocorrerá entre os dois. Ao se despedir, Crowley será despachado sob linguagem violenta, à soleira da porta, por um Gurdjieff enfurecido: "você está de partida? Então já não é mais hóspede? Você é sujo, imundo por dentro. Nunca mais ponha os pés em minha casa!”
Inúmeros outros leram o sonnez fort da campainha do grande portão de entrada e se sentiram à vontade com a benevolência do extraordinário Major Pinder, encarregado da administração do Chateau e do Instituto durante a ausência de Gurdjieff.
Portanto, à época do retorno da comitiva dos Estados Unidos havia no Prieuré um certo clima de silenciosa rebelião. Havia também a eterna questão do dinheiro, que Gurdjieff esperava que começasse a jorrar dos poços petrolíferos do outro lado do Atlântico, a ser enviado pelos novos discípulos americanos. Gurdjieff reiniciou uma vez mais sua febril atividade dupla, entre o Prieuré e os negócios em Paris, onde sua absolutamente excêntrica figura era também conhecida como Monsieur Bombon, já que levava sempre chocolates nos grandes bolsos de seu paletó, distribuindo-os por onde quer que passasse.
No Café de la Paix costumava aparecer também René Guénon, que mais tarde estará fazendo uma viagem sem retorno ao Egito, agora no auge de sua cruzada depuradora contra o lixo espiritualizante vigente e as correntes esotéricas não legitimadas pelas “tradições”. Ele analisa com desconfiança, através das mesas do bistrô, um Gurdjieff sempre cercado de gente, cuja presença inigmática o incomoda. Não, definitivamente aquele não era o modelo de sábio-iluminado que Guénon procurava. Pelas informações de segunda mão que lhe chegam, ele duvida sobretudo daquela escola ainda não catalogada, cuja combinação de exercícios psíquicos, danças e muita fricção psicológica parecem estar em total desacordo com o que ele considerava como prática espiritual. “Aquele grego exerce um efeito hipnótico sobre seus discípulos”, escreve ele em carta, aconselhando que se mantivesse distância do homem. Buscando ardentemente, sobretudo no sufismo, mas também no hinduismo e no daoismo, os elementos corroboradores do processo de esvanecimento do ego, el fanâ, ele não consegue entender como pode Gurdjieff enfatizar a construção de um Eu verdadeiro. Como encaixar num formato adequado, filiar com precisão cartesiana a uma escola aquele estranho personagem? Guénon procura nas escrituras e não encontra respaldo. Provocado em torno de um cálice de conhaque pelo mordaz e social Alexander Salzmann, ele dirá: “René Guenon n’existe pas”! Ao que Alexander retrucou: “ Non? Helas!”
Visto, contudo, sob o ponto de vista da dinâmica de construção-desconstrução, fricção contínua, condução das situações ao extremo máximo de perigo, típicas de Gurdjieff, tudo o que acontecerá após o acidente em 1924 até o final da década de 30 fazia, por assim dizer, parte do “pacote do modelo gurdjieffiano”, modelo a que poucos conseguiam seguir, provocados ao máximo, levados ao desespero ou simplesmente forçados a reconhecer a impotência diante de tão duras provas que o mestre impunha. Serão muitas as baixas a partir da segunda metade da década de 20 e na primeira da de 30: os Ouspenskys, os Hartmanns, Pindar, Alexander Salzmann e o próprio Orage.
Levado uma vez mais aos limites entre a vida e a morte, o velho mago, qual fênix, reerguer-se-ía uma vez mais das profundezas de seu coma. Quantas árvores, provindas da luxuriante floresta circundante ao priorado não teriam que ser abatidas e queimadas para que o xamã que habitava em Gurdjieff pudesse absorver-lhe o revigorante efeito. Durante longos meses apenas os mais íntimos teriam acesso aos seus aposentos. O fervor típico da comunidade russa do Prieuré desdobrou-se em rezas, vigílias e uma atmosfera sombria dominou longamente o cotidiano do Instituto. Patushka, patushka! Shto ot nas bes vas! Ni idite! [Paizinho, paizinho! O que será de nós sem o senhor. Não vá”].
E então lenta, muito lentamente, ele foi se recuperando, para incredubilidade de quase todos. E de pronto ele já estava de novo presente, plenamente presente, agora mais sério, mesmericamente circunspecto, bem mais gordo. Gurdjieff voltava à cena, mas trazia uma nova pauta. O Instituto fechava suas portas para novas admissões, muitos deveriam partir e apenas alguns poucos permanecer. Toda a dinâmica doméstica haveria de ser mudada, todo o modus operandi nos contatos externos sofreria uma nova formatação. Havia excesso de gente, pouca qualidade nas intenções, muita energia negativa em circulação. Uma grande varredura precisava ser feita. Protestos, ameaças, apelos desesperados de Londres e Nova Iorque. Intransigente, Gurdjieff ía estabelecendo novas regras. Tratava-se de uma nova etapa. Uma nova oitava.
Este foi um período também propício às novas incursões musicais com Thomas de Hartmann. Esta parceria iniciara-se no Cáucaso, prolongara-se intermitentemente em Istambul, em Hellerau e no próprio Prieuré, antes do acidente. Ela era agora retomada sob a égide de um novo pathos. Datam desse período os sete Hinos de Um Grande Templo, possivelmente as 17 peças dos Buscadores da Verdade e parte dos Cantos Religiosos.
O que não fora possível, por uma razão ou outra, ser transmitido na modalidade do Instituto, deveria receber agora uma outra roupagem. O legominismo deveria encontrar uma formatação escrita. Gurdjieff se propunha a ser escritor, mas não como um “qualquer daqueles literatos que vicejavam pelos quatros cantos do planeta terra...”, diz ele no capítulo inicial do Belzebu.
Imensa tarefa, gilgaméshica para ele, e que se deparava com todo tipo de obstáculos, a começar pela lingua em que deveriam ser “escritas” as obras- ele oscilaria entre o grego, o armênio e o russo; a seguir, as dificuldades inerentes ao processo de tradução- do texto inicial em armênio, Galumnian verteria para o russo, o qual seria vertido para o inglês pelos Hartmanns, que por sua vez entregariam a Orage, que faria a revisão estilística-, para tal uma equipe móvel deveria acompanhá-lo nos hotéis, cafés, - o Child, em Nova Iorque e o Café de la Paix, em Paris, muito particularmente-, nas viagens...
Por cerca de sete ou oito anos lutará Gurdjieff com a formulação de suas idéias através da escritura. Inicialmente, um opúsculo, The Herald of Coming Good, publicado, mas logo suprimido por ele mesmo e hoje raridade para bibliófilos. Foi então concebida uma série, composta de três livros, o primeiro o opus magnus -Relatos de Belzebú a seu Neto, “uma crítica objetivamente imparcial da Vida dos Homens”; o segundo autobiográfico- Encontros com Homens Notáveis-, contendo alguns segredos e o terceiro uma coletânea inconclusa de observações de caráter bem pessoal, fortemente psicológicas e até certo ponto um plaidoir: O Mundo Só é Real Quando Eu Sou.

XX

Dissolutio

As dificuldades financeiras, a partir da segunda metade dos anos 20, foram se avolumando e as novas fontes de recursos tornavam-se, com a crise financeira da década, cada vez mais escassas. O custo dos agregados no Prieuré, “mes parasites”, somados às despesas de praxe, faziam seu custo de manutenção altíssimo. Gurdjieff acreditava que com 100.000 francos podia salvar o projeto, e o castelo de ser confiscado. Mas aquele dinheiro não seria produzido. Em Avon, as faturas do padeiro e do fornecedor de carvão haviam chegado a limites intransponíveis. Após o não cumprimento de uma segunda amortização, o oficial de justiça não deixará mais qualquer esperança. Agora, apenas um milagre poderia salvá-lo, mas este também não se produziu. No dia 11 de maio de 1932, o Instituto para O Desenvolvimento Harmônico do Homem, com "filiais em São Petersburgo, Moscou, Tíflis, Constantinopla, Berlim, Nova York…" fechava as portas de sua sede, sito Castelo do Prieuré de Basses-Loges, em Avon, Fontainebleau, Seine et Marnes, França.
Seis meses mais tarde, a propriedade será arrematada em hasta pública por 200.000 mil francos, com tudo que tinha dentro, inclusive as dezenas de bicicletas que Gurdjieff certa vez comprara. Condenado ao intermitente abandono durante os próximos 60 anos, durante os dois últimos dos quais será ocupado por ciganos romenos, um plano de reestruturação urbanística da prefeitura local, em parceria com uma firma de engenharia e promoção imobiliária, transforma o seu parque em carrefour, a fim de solucionar o problema do trânsito local, refaz a parte central do castelo, transformando-a numa estrutura de apartamentos de alto luxo- a fachada e partes externas principais permanecem intactas, à exceção de uma pequena descaracterização no flanco direito-, e constrói um estacionamento subterrâneo. O nome de Gurdjieff e do Instituto estarão por enquanto destinados a desaparecer da memória dos habitantes locais, talvez principalmente pelas reservas morais que a conservadora Avon nutrira desde o início do Instituto, com todo aquele movimento de pessoas excêntricas, assim como pela fama das faturas não liquidadas com os comerciantes locais. Gurdjieff e sua família encontram-se enterrados no cemitério de Avon, onde fiéis e nostálgicos discípulos em peregrinação o reverenciam. Contudo, nem mesmo o solene cortejo do 3 de novembro de 1949, quando de seu enterro, contribuiria para estimular a administração local a algum tipo de homenagem póstuma. Katherine Mansfield, que também se encontra enterrada ao lado de Gurdjieff, teve melhor sorte: uma das ruas de Avon leva hoje seu nome.
Shirali não deixara, em meio a esse estilo fragmentado, qualquer relato de eventuais cenas dramáticas quando do desfecho final, mas tão somente informações dispersas sobre o paradeiro de algumas das figuras mais proeminentes. Disponível uma descrição de um Gurdjieff extremamente circunspecto fazendo a viagem de carro do Prieuré até Paris, sorvendo lerdamente, com ar abismalmente grave, do café pingado ao limão, num bistrô da cidade. O Prieuré fora por fim fechado. Gurdjieff vivencia um fracasso e vai se alojar num modesto hotel parisiense. Jeanne, agora Madame de Salzmann, com uma particule de noblesse já introduzida, irá passar algum tempo com a família na Suíça, onde Alexander já se encontrava, enfermo. Ethel Meretson parte para a Bélgica, Leonid Stjornval para a Normandia. Os rumores se espalham rapidamente pela Europa e pelos Estados Unidos. Na Inglaterra, os detratores de Gurdjieff recebem-na com júbilo. Indiferentes como um todo, salvo em algumas ocasiões em que o sensacionalismo podia despertar, os franceses parecem desconhecer os eventos e os grupos de Jane Heap continuam normalmente suas atividades, assim como os de Jeanne de Salzmann. Parecia ser o nadir, mas ainda não era, já que outros acontecimentos ainda mais desanimadores ocorrerão até 1935.
Um telegrama é enviado a Alfred Orage-, é hora de revistar as tropas, ver quantos desertaram, quantos estão disponíveis. Não, Orage já não está mais formalmente alistado. O feitiço de uma certa “vendedora”, a quasi-alcoólatra, temperamental e possessiva Jessie, fora predominante sobre sua alma eternamente lasciva. Quase que em tom petulante, ele responde: "houve uma época em que eu cruzaria oceanos a seu serviço. Agora nem mesmo o canal da Mancha". Pouco depois, arrependido, ele fará tal qual Tostoy uma última tentativa de se liberar do feitiço doméstico, mas seria imobilizado à porta de saída com violentas ameaças. Já na última fase do pós-guerra, passados uns 15 anos da morte de Orage, Jessie desandou a chorar à mesa de Gurdjieff, no apartamento de Paris, enquanto este, olhando-a fixamente, fazia menção a uma “certa pessoa”, que, embora promissora, fora fraca: Orage.
Mas a contra-maré crescerá ainda mais com as subsequentes visitas aos Estados Unidos, onde Gurdjieff aparentemente desmonta tudo que havia sido construído nos anos anteriores. A dimensão exarcebante das fricções do mestre haviam gerado um mar de incompreensões e de ressentimentos. Sobre os seus ombros recairiam agora imensos fardos.
A gigantesca tarefa de escritura, contudo, seguirá em frente. Olga de Hartmann já não está mais disponível; tampouco Sophia Ouspensky, assim como a Galumnian. Nos Estados Unidos, Toomer oscila. Gurdjieff e o Trabalho ingressam numa fase de aprofundada crise. Resta terminar a missão da escritura e ver se na “América” novas portas podem se abrir.

XXI

Os bizarros anos 30

“ Moi pas queue chien, moi élève Monsieur Gurdjieff”.


Gurdjieff passa a primeira metade da década de 30, particularmente após o fechamento do Prieuré, absorvido por duas tarefas maiores: a conclusão de seus escritos e a busca incessante por dinheiro. Ele desdobra-se em todas as atividades que seus recursos pessoais lhe outorgavam: homem de negócios, terapeuta xamã, mágico, conferencista, mestre de dança. Discípulos episódicos surgem e desaparecem. Gurdjeff retoma também suas antiga profissão de antiquário e, em parceria com um certo comerciante de tapetes, realiza alguns negócios rumorosos. Mas como resistir à crescente onda de adversidades, determinada por leis superiores? Os dados na “noble France” haviam sido por ora lançados, era preciso partir de novo para America. Jean Tommer, o talentoso escritor americano, considera-o insaciável em termos pecuniários, mas quando alguém observou que Gurdjieff estava acabado e que talvez tivesse ficado louco após o acidente de carro, como Ouspensky insinuava, Tomer, que havia estado com ele no dia anterior retrucou: “ele não apenas está plenamente senhor de si, mas também mais lúcido do que nunca”.
Uma admiradora americana, que oferecera nos anos 20 terras para a fundação de uma filial do Instituto nos Estados Unidos, recusa-se agora a confirmar a doação. Gurdjieff visita Taliesin, idealizado pelo genial Frank Loyd-Write, com base nas idéias do Trabalho, e pondera se seria o caso de reativar o Instituto por ali. Não, não era. O jornalista sensacionalista Ron Landau o procura para uma reportagem. Gurdjieff, provavelmente avisado sobre quem se tratava, prepara-lhe uma “peça” em sua suite de Hotel. Landau, intrigado com o ar de espanto do jovem seviçal turco que o fizera entrar, é convidado a sentar-se e escuta de Gurdjieff um plaidoir sobre o seu inglês caucasiano, desconcerta-se com a vehemente insistência para que fume um charuto e observa que um olhar hipnótico o invade. E de repente Landau já não sente mais as pernas e sabe que se tentar levantar-se não conseguirá. Gurdjieff continua olhá-lo fixamente e exerce sobre ele um confinamento psíquico temporário. Por fim, o “libera”. Chocado com a experiência, ele relatará mais tarde o episódio em seu livro God is My Adventure.
O auditório está absolutamente repleto e aquela figura insólita, mistura de faqir hindu e xamã asiático está sentado impassível à mesa do palco, ladeado pelos tradutores. Um silêncio prolonga-se, irritante, provocador, enquanto ele continua descascando uma batata e lançando penetrantes olhares ora sobre um, ora sobre outro da platéia. “Se vocês não trabalharem corretamente sobre si estarão fadados e perecerem como cães. De nada adianta esta maneira como vocês têm sido ensinados (numa referência explicita aos discipulos diretos ou indiretos de Ouspensky).” Um bravo americano levanta-se, voz indignada: “ Mas se não fosse por ele não estaríamos aqui”! “E que diferença faz isso?”, retruca indagativo Gurdjieff. Mais tarde ele observará que ao olhar para aquela platéia tinha por vezes a impressão de que a maioria levava à testa uma placa com os dizeres: “candidato ao hospício”.
Num outro episódio, sentado do outro lado da mesa de uma certa personagem literária americana, durante um jantar, seu famoso penetrante olhar, sincronizado com uma mudança no rítmo respiratório, comanda mais um de seus experimentos. Passado certo tempo, aparentemente perplexa com o calor interno e trepidação que começara abruptamente sentir, a mulher exclama algo como: “aquele homem está me violentando sexualmente!”.
Mas havia talvez ainda uma última chance para rearticular o Instituto, através de um proeminente político americano. A confirmação seria dada quando do retorno do parlamentar de uma viagem. Mas o avião cai, o político morre e este último impacto parece configurar um ciclo de impedimentos insuperáveis. Nadir, nadir. Um Gurdjieff resignado, segundo alguns fisica e psicologicamente abatido, procura a embaixada soviética e após algum tempo de espera recebe uma resposta positiva, provida de enorme condição: ele poderia voltar ao solo russo-soviético, mas não poderia exercer qualquer atividade de ensino. Gurdjieff então desaparece. Fala-se que esteve de passagem pela Alemanha, que viajou até Pérsia e possivelmente até o Cáucaso, por vias tortuosas e sob diferentes personae.
Ele então reaparece em Paris, em meados da década de 30 e já podia de novo ser visto com frequência no Café de la Paix. Jeanne de Salzmann traz notícias sobre os grupos que orientava, Jane Heap mantém contatos intermitentes e um grupo de independentes publicistas e escritoras americanas, todas saídas da entourage original de Jane Heap e da Little Review, começava a oscilar em torno de sua órbita. Solita Solana, uma delas, vai se tornar sua secretaria.
Elas tinham diante de si um Gurdjieff bem mais cáustico, direto, algo tântrico. Uma nova metodologia está em pauta: a correspondência com os animais nas características psicológicas, os aspectos mais diretamente psicológicos do trabalho, os exercícios individuais, os grupos como células, e uma linguagem cada vez mais objetiva, apontando diretamente senão para a face original, então para o calo principal. Vous, merdité complète! Maintenant vous rien de tout. Pas avoir vrai moi. E também a emergência de toda a tipologia dos idiotas.
Após o profundo e exaustivo mergulho no mundo da “mentação”, durante sua atividade de “escritor”- que o levou certa feita à beira de um colapso, tal como ele revela no Mundo Só é Real...- agora vinha a outra ponta: pouca teoria, ou quase nenhuma, e apenas ação concreta sobre si mesmo.
Parte do grupo de Jane Heap se transferira com ela para Londres, onde Ouspensky a hostilizaria, talvez por considerar a possibilidade de ser uma espiã de Gurdjieff. Jeanne de Salzmann, por sua vez, reunia, já havia algum tempo, um grupo seleto, composto de membros tais como o escritor René Daumal, captado irremediavelmente para o Trabalho por Alexander Salzmann. Havia também Pierre Lavastine, um orientalista francês, assim como outros gatos pingados da vida cultural francesa. Mas isto era praticamente tudo, já que o psiquismo, a sensibilidade e os valores culturais franceses tornavam difícil a assimilação das idéias do Trabalho. Gurdjieff supervisiona à distância e, vez por outra, recebe algum neófito para uma entrevista. A René Daumal ele visitará no leite de morte e, colocando em cada uma de suas mãos uma laranja, reconforta-o: “Agora chegou o momento pelo qual você tanto esperava”!

XXII

“A Corda”
[ tradução literal das anotações de Shirali]


“Alice Rohrer, empresária bem-sucedida, fora amante nos anos 20 de Kathryn Hulme, autora de livro razoavelmente interessante, Undiscovery Country. Jane Heap fora a fundadora, com Margaret Anderson, da combativa revista literária Little Review, que tivera a audácia de editar os primeiros capítulos do Ulisse, de James Joyce, que proibido e processado nos Estados Unidos será lançado integralmente em Paris por Sylvia Beach, pela Shakespeare & Company. Margaret Anderson, por sua vez, autora de um valioso The Unknowable Gurdjieff, escrevera também My Thirty Years War e The Strange Necessity. Georgette Leblanc, soprano, morta prematuramente em 1941, companheira de copo de expoentes literários tais como Jean Cocteau e Janet Flanner, autora de La Machine Courage (uma espécie de observações biográficas de Gurdjieff ). Dorothy Caruso, a aflita viúva do renomado tenor, Louise Davidson, atriz e empresária, Elisabeth Gordon, uma inglesa de grande veracidade emotiva... todas essas mulheres e muitas outras foram catalizadas pelas idéias do Trabalho e pela magnética personalidade de Gurdjieff.
Alfred Orage, que mantinha estreitos contatos literários com a maioria delas desde seus tempos de editor da New Age, apresentou-lhes entusiasticamente sua nova descoberta e sobretudo o exemplo vivo da novidade: o próprio Gurdjieff, com todo o potencial de impacto que sua presença causava.
Mulheres dinâmicas, frutos ousados da liberação cultural das primeiras décadas do século e que constituíam a elite literária norte-americana fascinada pela cultura francesa. Ernest Hemingway, Henry Miller e vários outros não escaparam a esse apelo. Contudo, a partir dos anos 30, elas procuravam algo mais além da fama e da literatura: o verdeiro conhecimento de si mesmas. Jane Heap já não tinha mais dúvidas e ao ingressar de corpo e alma no Trabalho abandonara o projeto literário. Solita Solano estava no mesmo caminho e as outras seriam pouco a pouco atraídas pela nova via oferecida por aquele estranho homem do Cáucaso. Estas mulheres provocarão a curiosidade de Gurdjieff e ele trabalhará com várias delas sob diferentes esquemas. Jane Heap era a senior. Ela já vinha trabalhando com Gurdjieff desde praticamente a inauguração do Prieuré, quando se mudara definitivamente para a França. Captara parcelas essenciais do ensinamento e, à exemplo de Jeanne de Salzmann, mantinha-se bem próxima de Gurdjieff, ainda que por uma modalidade mais psicológica. Dotada de imperiosa vontade e independência mental, já no final da década de 20 Gurdjieff lhe autorizava constituir e dirigir um grupo.
A Corda. Para algumas dentre elas surgira esta imagem. Tudo começa com o retorno de Gurdjieff a Paris, lá pelos idos de 34/35, quando, ocupando suite no Grand Hotel, ele volta a ser um habitué do Café de La Paix. À sua procura estavam Elisabeth Gordon e Solita Solano, que passam a frequentar a mesa de bistrô do mestre. Pouco a pouco o grupo cresce e em breve elas serão umas dez. Formavam uma ala particular do Trabalho, com exercícios e códigos de observância especiais, que Gurdjieff as obrigou a respeitar com o silêncio. Mais tarde, vários outros discípulos mostraram-se incomodados com esse privilégio outorgado. Sobretudo os russos.
Gurdjieff dava-lhes uma caracterização animal. Katherine Hulme era “Krokodil”; Solita Solano, “Canary”, Alice, a cobra, M. Anderson, Yakina (a fêmea do Yaki) e assim por diante.
“Vocês anda não possuem um Eu verdadeiro. Vou ensinar-lhes a trabalharem sobre si. Mas primeiro precisam limpar todo o amontoado de idéias falsas que possuem sobre o mundo e si próprias. Precisam se lembrar de si, observarem-se sob vários ângulos diferentes, mosaicalmente, deterem o barulho da máquina que habita em vocês”, lhes dirá Gurdjieff com frequência e das mais variadas maneiras. “Façam os exercícios com abnegação, como serviço, mas sobretudo não esperem pelos resultados imediatos; eles virão quando tiverem que vir”.
Uma das primeiras lutas ocorre contra dois senhores e uma senhora, extremamente incovenientes, obstruidores: o senhor amor-próprio, o senhor orgulho e a senhora vaidade, grande dama de companhia do ego. Esses personagens são como os burocratas supérfluos de uma grande empresa, criam todo os tipos de impedimentos em nome de propósitos menores. Enquanto não se conseguir neutralizar-lhes a ação é impossível ir adiante. Mas atenção, há uma substância da qual cada um deles é feito, inteiramente desvirtuada, que deve ser preservada. Há no orgulho uma substância primeva que serve como acessório orgânico indispensável para o sentimento de preservação do tipo psicológico; há no amor-próprio um sentimento primordial, posteriormente distorcido, que serve como medida do sentimento genuino de amor que se precisa ter de si próprio, e há na vaidade uma graça venusiana, artística, que o espírito precisa preservar para existir. São as essencialidades dos aspectos. O homem do trabalho é como um cartógrafo fazendo levantamento em terra virgem. Ele tem que ir mapeando toda a área existente, mas ainda não bem conhecida: rios, lagos, pântanos, tipos de ávores, os desertos... Se for um cartógrafo de primeira linha, olhará para o céu e verá a ação dos planetas, olhará para o solo como um geomancista, considerará a ação de certos ventos, etc. Sua visão tem que ser de conjunto. Ele tem que apreciar o grande cenário, a totalidade da configuração, vislumbrar o detalhe e criar as correlações, perceber as relações de causa e efeito, as assinaturas.
Fora, na vida social, tudo é teatro e um indivíduo do Trabalho aprenderá a se tornar até mesmo invisível, se necessário. Mas para representar com perfeição um papel, necessário é ter a realidade das emoções e do psiquismo daquele personagem em si mesmo, tê-lo vivido em inúmeras situações, ser potencialmente ele- apenas então você poderá interpretá-lo com genuinidade. Quanto à mágica, o que é ela senão o conhecer profundamente o psiquismo dos outros e saber conduzir a atenção alheia numa direção, enquanto algo é feito em outra; assim como saber sincronizar-se com os insterstícios das situações, cósmicas e sociais. O homem invisível é uma metáfora para esta capacidade de atuação, mas também do fato de que se trata de alguém que já se liberou das categorias corriqueiras do mental usual, do psiquismo repetitivo; trata-se de alguém que já consegue atuar numa outra oitava, para além da apreensão bitolada do homem médio. E é por isso que ele é “invisível” para aquele tipo de apreciador, que constitui a esmagadora maioria da humanidade.
As mulheres podem compreender muito mais rapidamente que os homens certas verdades do Trabalho, exatamente por aquelas vias que costumam ser nelas objeto de impecilhos, já que são mais credulamente manipuladas pelas formas culturais, por suas pautas de sentimentos e pela fantasia. Mas como não há veracidade no ser, se não houver a participação dos sentimentos, a mulher leva a vantagem de possuir este centro já integrado e o que elas apenas precisam é depurá-los, reconduzir-lhe a função. Esses sentimentos não podem ser aqueles particularizados pela pauta do ego, pelas patologias emocionais do romantismo ou da pura organicidade feminina. Eles têm que estar atrelados a um propósito superior, devem servir (grifo de Shirali) no sentido mais orgânico e ao mesmo tempo mais nobre da palavra. As mulheres completam seus grandes objetivos de vida ao sentirem plenamente que servem para algo mais, seja no domínio das idéias, das missões ou da amamentação. Quando ela compreende plenamente isso, ela deixa de concorrer com o homem em áreas que não precisam necessariamente lhes dizer respeito. Mas antes de compreenderem essas verdades, elas precisam historicamente negá-las por um tempo. Trata-se de um parodoxo a ser por elas mesmas elucidado.”
Segundo as anotações de Shirali sobre o papel das mulheres no Trabalho e em geral, o outro instrumento que pode servir para o seu avanço é, paradoxalmente, o da fantasia. O problema da fantasia é que ela está intimamente ligada as formas soltas de articulação do intelecto, dos caprichos volúveis da vaidade, assim como aos poderes emocionalmente incitados pela sugestionabilidade. Ela tem também recebido muito de sua legitimidade através da arte. O combate aos aspectos nocivos da fantasia, que bloqueiam o percurso objetivo da compreensão intelectual pura, assim como o combate impressionismo da sugestionabilidade, tem por objetivo eliminar, nos homens, toda a ação nefasta dessa função, mas não nas mulheres, quando elas apreendem a diferenciar as coisas. A fantasia pode e deve ser usada de maneira extremamente criativa, e na magia ela o é sobremaneira. A fantasia oxigena o ser e o projeta nas esferas do espírito, libertando-o das amarras frias e insossas do intelecto em suas démarches epistemológicas. Mas ela precisa antes ser combatida em seus aspectos inferiores. O domínio superior da fantasia no esoterismo iraniano é chamado de ‘alam mithal, o mundo das epifanias.
“Um dos grandes objetivos do Trabalho é superar o emocional inferior, transmutá-lo em emocional superior e como parte constitutiva da consciência objetiva.”
Gurdjieff dava-lhes então exercícios de auto-observação e de rompimento de hábitos. Impunha a prática de situações em que elas se sentissem “consciente e intencionalmente humilhadas” para que assim fossem despreendendo-se da couraça protetiva do pequeno mundo do ego, ou dos pequenos pudores e sentimento de auto-piedade. Forçava-lhes olharem para suas sexualidades de maneira inequívoca e aprender a usar a energia sexual para propósitos do Trabalho. Uma parcela para a natureza, uma parcela para o cosmo, e outra para o Trabalho.
A quebra de hábitos é no Trabalho instrumento imprescindível, constituindo parte de uma dinâmica por vezes diabólica de mudança de rumos. Para o observador externo, pode parecer pura esquizofrenia, mas para o agente interno, consciente e intencional, representa uma dolorosa, mas poderosa ferramenta. A natureza gosta de se adaptar e se acomodar aos padrões- a quebra de hábitos incita-a de maneira não raramente alarmante. Gurdjieff costuma aconselhar os procedimentos que se usa com os animais em processo de domesticação. “Negocia-se” com esta ou aquela parte de nossas naturezas, exigindo delas um sacrifício de momento, com vista a um propósito superior, sob a promessa de compensá-la de alguma forma depois, talvez com um torrão de açucar, ou uma lauta refeição.”
Era mais ou menos por essas trilhas que, pelo que pude levantar da notas de Shirali, se dava o trabalho de Gurdjieff nos anos trinta, mas sem esquemas formais, fragmentado, instancial e fenomênico. Quanto às mulheres, referencial central dessas atividades por essa época, principalmente na segunda metade dos anos 30, parece que elas travavam um grande combate lutando com seus caprichos, com a desconstrução da visão estético-literária do mundo, a maior das motivações existenciais de suas vidas até então. Elas iam aprendendo a necessidade de demolir um castelo criado em bases fictícias, para que a genuinidade de seus potenciais pudesse florescer. Uma das blagues de Gurdjieff a respeito das mulheres era: “se você tiver uma decisão a tomar consulte uma mulher e aquilo que ela disser vá e faça exatamente o contrário!”.
Shirali, que alternava por essa época sua vida entre as capitais européias e Londres, intercalando vez por outra uma visita à rússia soviética, é extremamente parcimonioso em maiores referências a seu próprio respeito.Uma última passagem desse período pareceu-me digna de transcrever:
“Mas em breve estaremos nos anos 40 e ela, vindoura, já ia se manifestando de maneira cada vez mais inequívoca, soberana e inapelavelmente, injetando incerteza nas mais otimistas previsões, dominando quase todos os movimentos, empurrando os destinos e decidindo sobre as vidas, ela, a Grande Guerra.

Excurso II: anotações de Shirali sobre os Relatos de Belzebu a seu Neto.

[Tradução literal e recriada a partir das anotações de Shirali]


[N.B. Procedi a uma seleção do material contido no ensaio in progress de Shirali, de modo a fornecer ao leitor apenas uma visão de conjunto dos tópicos estudados. Como o material que segue é uma combinação da literalidade das anotações e ao mesmo tempo uma recriação de minha parte, dispensei as aspas.]

XXIII

RELATOS DE BELZEBU A SEU NETO:
( crítica objetivamente imparcial dos homens).


Uma Paródia Cósmica

“Ide e se informe sobre Baal-zebub, o Rei de Ekron”

"Relatos de Belzebu a seu Neto" é um monumento na história do pensamento ocidental. Mas como, perguntará qualquer homem culto ou acadêmico alimentado pelos códigos culturais vigentes, se mal se encontra como referência em qualquer enciclopédia? Existem na história literária, filosófica e científica da humanidade textos inaugurais que foram relegados ao esquecimento ou sugados por outros textos. Mas este não foi nem será o caso dos Relatos. O problema com este livro é que, não obstante sua forma narrativa ser a mais tradicional possível, a visão de mundo que ele apresenta, seu universo conceitual e a profusão de neologismos constituem traços radicalmente deconcertantes. Trata-se de um livro que precisa ser lido várias vezes e só a partir de então a pregnância de seu conteúdo começa a fazer efeito.
Postos num estilo que se trai como certo avatar da narrativa árabe medieval, Relatos de Belzebu a seu Neto é um livro eminentemente esotérico, no que se diferencia de toda a tradição ocultista ocidental, cuja linguagem é dominada por metáforas e alegorias obscuras. Gurdjieff procurou fazer de seu modo expositivo um modelo de clareza- e quando as imagens são algo barrocas ele as usa preponderantemente de maneira irônica, jocosa ou mesmo sarcástica. Sua sintax revela em muito os arquétipos linguísticos da construção da frase do grego ou do alemão e creio que Alfred Orage, talento literário e editorial que era, tinha plena consciência disso ao traduzir para o inglês, o que não obstante causou estranheza e mesmo exasperação em mentes impacientes, como as do mercurial Frank Lloyd Write, que aparentemente “nunca estava em casa”, admoestado duramente por Gurdjieff num par de situações.
Baal-zebub foi um Deus da cidade de Ekron, espécie de versão filistina do Baal-zebul canaanita. Alguns acham que, em verdade, trata-se de um trocadilho, através do qual se usava Zebub, que significa "mosca" em pejorativa alusão ao então todo poderoso Baalzebul, o Deus Principe. Essa variante, jocosa ou não, atravessou toda a antiguidade da Mesopotâmia e ingressou posteriormente no cristianismo, adquirindo a conotação de deus do mal, satânico, etc. A mesma deformação ocorreu com Lucifer. O próprio Jesus teria se referido indiscriminadamente a Beel-zebub/zebul como Principe dos Demônios, tal como verificamos em Mateus 10:25 ou em Lucas 11:15. Contudo, no Velho Testamento, Baal-zebub é apenas o Deus de Ekron. Gurdjieff, cuja dialética usa o avesso e o direito de maneira provocativa, revela-se instigador já a começar pelo título da obra.
A primeiríssima lição dos Relatos de Belzebu a seu Neto está contida no próprio enredo da obra: na nave transplanetária Karnak, durante viagem entre galáxias, o sábio Belzebu começa a narrar, quase que incidentalmente e por insistência de seu neto Hassim, as peculiaridades históricas e psíquicas daqueles estranhos seres, profundamente anormais em seus processos “esserais” por força, entre outras coisas, da influência do orgão kundabuffer- que embora extraído posteriormente da constituição dos seres humanos, ainda produzia o efeito de não poderem eles verem o mundo e a realidade como realmente são.
Karnak é armênio para corpo morto, mas é também o nome do famoso templo em Luxor, símbolo da arte e do conhecimento esotérico do Egito faraônico, e mesmo do pré-faraônico.
Portanto, esses estranhos seres, bípedes tricerebrais, longamente observados por Belzebu através de seu telescópio - teskooano-, a partir de Martes, assim como, mais detidamente, quando de suas seis descidas ao estranho planeta Terra, quando ele, em ocasiões diferentes, entrou em contato com os representantes das mais diversas comunidades. A primeira lição está já ali, na extraordinária imagem de Distância, Imparcialidade e Desidentificação que o homem deve ter em relação a si mesmo e aos outros seres, de modo a adquirir com isto imparcialidade, e posteriormente consciência objetiva e amor não particularizado, mas universal. Primeira lição, primeiro exercício estimulado por força da imagem subjacente. Lá estão aqueles estranhos e infelizes seres, naquele minúsculo planeta obscuro, observados como se fossem moscas, pelo poderoso Baal.
Segundo vários testemunhos, dentre os quais o de sua tradutora alemã, Gurdjieff teria refeito o Despertar do Pensamento, que constitui o capítulo introdutório, umas doze vezes. Ele sabia que essa primeira parte teria que cumprir a função de aclimatar o leitor- não sem provocar fricções em seus hábitos de pensar-, para a maneira expositiva que dominará a narrativa.
Este capítulo contém três ou quatro lições fundamentais. Mas antes que essas sejam transmitidas, o lacônico linguista em Gurdjieff discorre sobre a profunda perda de sentido que ocorria com as versões modernas, então em curso, de linguas como o armênio, o grego e o russo, quase irreconhecíveis diante da riqueza que tiveram em tempos pretéritos.
A primeira parábola instrutiva, autobiográfica, é extraída de uma decisão de Gurdjieff, assumida desde de menino, em consequência da injunção de sua avó no leito de morte: “na vida faça tudo ao contrário dos outros ou não faça nada diferente.”
O truque de G., ao contar uma história aparentemente tão trivial, reminiscência pitoresca de um episódio de infância, mas que desempenhará papel crucial na eclosão das sincronicidades de seu processo de individuação, visa testar, provocar ou modificar os hábitos de pensar. Ao leitor cabe desautomatizar-se e, superando sua vaidosa pretensão intelectual, perceber que a singela história esconde algo de fundamental importância.
Assim é que, como consequência daquela poderosa injunção, seguida da própria morte da avó, o menino Giorgis ou Gurdjian corre em estado de choque para o quintal da casa e se enfia no primeiro buraco seguro que vislumbra. Ali ele permanecerá em estado de comoção por longo tempo, até que sua mãe o localize. As palavras da imperiosa moribunda penetraram em todo o espectro de seu ser- de cabo a rabo- e, assim sendo, já no próprio enterro da avó, quando com toda a seriedade de praxe os ritos estavam sendo cumpridos, começa ele a dançar e cantarolar de alegria, causando espanto e desconcerto. E a partir de então tudo passou a ser diferente: ao brincar com uma bola, antes de automaticamente fazer isto ou aquilo, Tatakh (seu apelido de infância) dava tempo a si mesmo, chutando-a para cima ou para trás, inovando de alguma maneira, e levando seus amigos ao desespero; ao comer um doce, antes de mecanicamente saciar a vontade de engolí-lo, ele apreciava a guloseima de várias formas, brincando com o seu impulso imediato. As imagens evocatórias são de uma brutal simplicidade, de uma simplicidade irritantemente ingênua, não fora pelo truque que escondem e pela tremenda lição que encerram. O exercício contínuo de quebra de automatismos, rompimento com os hábitos, o provocar a si mesmo, exercitar a paciência, constitui ferramenta imprescindível para o desenvolvimento da consciência de si, e, a longo prazo, da visão imparcial, desidentificada do mundo.
Inúmeras chaves foram ocultadas no primeiro capítulo do Belzebu, de modo a forçar o leitor a cultivar o esforço e a paciência-, “a paciência, mãe da vontade". Gurdjieff esconde seus ossos profunda, estratégicamente, impondo-nos esforço-extra para encontrá-los, cães que ainda somos, por força da preguiça, passividade e pavlovianas repetitividades. Temos que cavar bem, diligentemente, e a cada vez que os encontramos saimos da condição de homens com aspas, farejando, e nos transformamos em homens sem aspas, mais conscientes de nós mesmos e do horror da situação em que nos encontramos.
A outra parábola, sobre a teimosia do viajante curdo, descreve e realça uma das caracteristicas mais típicas da humanidade. Havendo gasto seus últimos centavos na compra de pimentas que lhe pareceram à primeira vista apetitosos doces, ele está prestes a queimar-se vivo agora que se encontra à beira da estrada saboreando suas guloseimas. Surpreendido por um passante nesse estado é admoestado a largar imediatamente aquele impróprio alimento que lhe consumirá as víceras. No entanto, prisioneiro de sua teimosia, o viajante curdo responde. “Jamais, paguei todo o dinheiro que tinha por isto e mesmo que me queima a alma não deixarei de comer.” Tal a humanidade, que pelo capricho da teimosia é incapaz de abandonar a tempo o curso de um erro e persiste nele mesmo que o conduza à destruição.
Por tanto uma espécie de nova tipologia da consciência está se delineando e Gurdjieff deixa enfaticamente claro que os homens ordinários vivem sob o grande equívoco da superfície do ser, daquilo que chamam de consciência de vigília, designando o restante como inconsciente. Gurdjieff explica então que só a partir desse "inconsciente", que ele prefere chamar de subconsciente, é que pode haver crescimento:
Na totalidade da “presença geral” de cada homem, independentemente de sua hereditariedade e educação, formam-se duas consciências independentes, que não possuem entre si, tanto em termos de funcionamento, quanto de manifestação, nada em comum. Uma consciência delas é formada a partir da percepção de todos os tipos de impressões mecânicas, acidentais ou produzidas intencionalmente por outros, entre as quais devem ser também incluídas as "consoantes" de várias palavras, que são, como dito, vazias; a outra consciencia é formada, por assim dizer, dos "resultados materiais já previamente formados", transmitidos por hereditariedade, que se misturaram com as partes correspondentes da totalidade dos seus elementos constitutivos, assim como dos dados que surgem de sua evocação consciente das confrontações associativas desses ‘dados materializados’ já presentes nele.”
Para Gurdjieff, é esta segunda consciência humana, que não é nada mais do que aquilo que se deveria chamar de subconsciente, aquela que deve predominar na manifestação dos homens. É a partir dela e da essência sensorial-instintiva do ser que a ela está visceralmente vinculada que deve se dar o trabalho de retomada do crescimento interno.
O leitor se deparará a seguir com dois relatos inocentes, um do estranho dente de sete pontas, arrancado-lhe pelo soco de um amigo de rua e cuja explicação quanto a peculiar forma é procurada com o barbeiro local, e o outro do comerciante que se decide por realizar a compra de um livro em Moscou, mesmo sabendo que vai ter que “pagar o porte e a embalagem”, além do preço afixado, ilustram o primeiro a necessidade das soluções práticas e o segundo a máxima: “se você tiver que fazer algo, faça de cabo a rabo, até suas últimas consequências.”
A seguir, um primeiro momento de síntese esotérica, como um bônus aos esforços anteriores do leitor, posta em estilo de livre associações que não deixam de lembrar a última parte do Finnegans Wake. Trata-se da descrição daquilo que pode ter sido um momento de transmutação alquimística no interior de seu corpo, um momento de djartklom, de iluminação: sincrônico e simultâneo, “ao longo de toda a região da coluna vertebral, uma dor quase insuportável e uma cólica no próprio centro do plexo solar, também insuportável, e tudo isto, ou seja, esta sensação dupla, estimuladoras entre si, que seria após certo tempo substituída por uma condição interior de paz” , tal como apenas uma outra vez ele viria a sentir, quando da cerimônia da grande iniciação na “Irmandade dos Fazedores de Manteiga com o Ar ".
Gurdjieff está aludindo à transformação do grosseiro em sutil, de refinamento da matéria, está fazendo menção a passagens de oitavas na alquimia interna, de processos de transformação...
Gurdjieff está nos dizendo, também, que ocorreu uma SINCRONICIDADE, uma eclosão de eventos internos, tais como aqueles, numa outra oitava, ocorridos após a admoestação de sua moribunda avó. Assim, a observação hilárica e decidida do comerciante de Moscou, estimulado por alguns tragos, - “quando tiver que fazer algo, faça de cabo a rabo!”- serviria de lembrete para a necessidade de fazer convergir todos os fatores, sem a mesquinha timidez de não manifestar o ser plenamente em momentos decisivos, pequenos ou grandes.
Antes ainda de encerrar o capítulo é nos dado um aviso sutil, que em verdade constitui um truque psicológico para evitar vibrações negativas vindas de nossos semelhantes. O Karapet de Tíflis relata como, após ter sido atingido durante meses pelas negatividades psíquicas que sua profissão de tocador do estridentíssimo apito a vapor da cidade atraía, tinha descoberto que a maneira de evitar os efeitos daquelas pragas proferidas pelos cidadãos contra ele era simplesmente vociferar, aos quatro ventos, antes de fazer soar o infernal apito pré-matutino: "sua mãe é uma... possa você morrer no... seu filho da..., etc. Assim, só nos resta agora imaginar quais vituperações Gurdjieff poderá ter proferido, por precaução, àqueles que viriam a emitir em sua direção insultos e pragas pelo livro que ele entregava a humanidade.


O Enredo


O segundo capítulo abre-se com a descrição da viagem transpacial de retorno que um exilado Belzebu, já em idade avançada, realiza a bordo da nave Karnak. Partindo do planeta Karatas, ele ruma para o sistema solar Pandetznokh ("Tudo-criança-ainda?"), mais especificamente para o planeta Revcozvradendr, a fim de participar de uma conferência.
Em tempos pretéritos, num remoto lugar do Universo, onde reina Sua Santidade O INFINITO, o jovem Beelzebu, em sua juvenil impetuosidade, rebelara-se contra algo que lhe parecera "ilógico" na ordem do universo. Por força de sua indignada atitude acabara por reunir inúmeros adeptos e por pouco não levara a cabo uma verdadeira revolução cósmica. Embora nutrisse pelo jovem admiração, O INFINITO fora obrigado a puní-lo por esse ato, exilando-o num sistema solar distante, Ors, exatamente o nosso sistema solar. Belzebu e seus camaradas de infortúnio escolheram então o planeta Marte como ponto fixo de morada, embora desfrutassem da possibilidade de visitar os outros planetas vizinhos. Provido de seu telescópio, Belzebu passa a observar e estudar o comportamente bizarro dos seres tricerebrais que habitam outros planetas, em particular os da Terra. Ele realizará também longas viagens ao planeta Saturno, onde entra em contato com os sábios locais e onde, após prolongados períodos de descanso das febris atividades que realizava em Marte, adquire muito conhecimento. Numa referência esotérica de profundo significado, é feita menção ao fato de que as viagens do planeta Saturno ao planeta Marte não transcorriam sem grandes perigos, por causa das fortes turbulências, e poucos eram realmente capazes de realizá-las.
Portanto, toda a matéria temática, assim como o processo descritivo de Gurdjieff, induz o leitor a um início de distanciamento em relação a si e ao mundo no qual encontra-se inserido; sob a perspectiva e o impacto da narrativa Belzebubiana instala-se no leitor um processo de desidentificação.
Mas, voltando à narrativa, somos informados que, integrando a comitiva, encontra-se o neto de Belzebu, Hasseim, filho de Tooloof. Hasseim será o interlocutor privilegiado da obra. Mas agora surgia um problema no percurso, cuja solução é solicitada pelo capitão da nave ao próprio Belzebu. O comandante interespacial recebera informes de que estaria em breve prestes a passar por uma área afetada pelo nocivo Zilnotrago, um perigoso gás deixado pelo transcurso de um cometa desvairado, o Madcap. O capitão havia considerado um longo desvio, ou uma longa espera, como alternativas àquela inevitabilidade. Belzebu, diante da situação não sabe exatamente o que aconselhar e aproveita para fazer menção a um sábio que ele conhecera numa de suas descidas ao planeta Terra. Esse sábio, Mullah Nassr Eddin, tinha para cada situação difícil da vida uma “tirada". Diante daquela situação em particular, Belzebu achava que ele provavelmente diria: "não se pode pular sobre os próprios joelhos e é impossível tentar beijar a própria sobrancelha".
Surpreso com a reação de euforia do jovem neto quanto à possibilidade de a nave ter que retardar seu percurso, fato que proporcionaria mais tempo para as narrativas sobre aqueles seres que tanto despertavam a curiosidade de Hasseim, os terráqueos, Belzebu poem-se então a relatar. Assim sendo, instalado com seu enorme telescópio- “teskooano”- em Marte, mas capaz de viajar para outros planetas por meio da nave interplanetária Occasion, colocada à sua disposição, e por força de um certo acontecimento que envolvera alguém de sua própria tribo no referido planeta terra, ver-se-ía Belzebu obrigado a fazer ali algumas “descidas”, em épocas e regiões diferentes, a fim de resolver e elucidar questões pendentes. Nessas descidas ele visitará a Atlantida, a Índia antiga (Perlolândia), o Tibete, a Russia, a França, a Alemanha e a América, em épocas que vão da mais remota antiguidade aos tempos atuais..
Mais tarde, a extraordinária figura do santo Ashiata Shiemash, quando de uma visita “àquele sistema solar”, ao constatar o quão sinceramente arrependido Belzebu estava de sua imprudência e como, através de ações concretas, havia se redimido de sua infração, resolve interceder junto ao Todo Poderoso Infinito para que ele pudesse retornar, o que é logrado.

Hasseim receberá um importante conselho-exercício já no princípio da obra: antecipando uma análise sobre uma “categoria” central no Trabalho, a saber, o do ser “sendo parktdolgduty”- a grosso modo: “atuar com consciência responsável”, “atuar com a consciência dos esforços em relação a si e os outros”-, ele ensina a importância de que seu neto exercite, todos os dias quando da alvorada, o olhar para o Sol Absoluto e tentar constituir uma forma de contato, de diálogo, entre as partes conscientes e não-conscientes de sua presença geral. O que não é outra coisa senão o lembrar-se plenamente de si.
Antes ainda que Belzebu ceda junto às insistências de seu neto e relate sobre aqueles estranhos bípedes tri-cerebrais, uma advertência é feita quando Hasseim se refere aos terráqueos como “lesmas”. Belzebu faz-lhe ver o quão perigoso pode ser a prática de exteriorizar opiniões sarcásticas sobre aqueles seres, já que eles podem se vingar terrivelmente de quem as emitir... E conta ad hoc uma história.
O capítulo 8 explica a lei da “Harmonia-Geral-Cósmica da Manutenção-Recíproca de Todas as Concentrações Cósmicas”. A lua é apenas um fragmento e de acordo com a ação da lei acima referida, recebe dela as sagradas vibrações Askokin, que só existem naqueles planetas nos quais atuam as duas leis sagradas fundamentais -heptaparaparshinokh (a lei de sete) e triamazikamno (lei de três).
Dois desses fragmentos que se despreenderam da Terra, Loonderperzo, e Anulios, eram as duas luas que nos circundam. Os habitantes do continente desaparecido Atlantis, que Belzebu visitará em sua primeira descida, ainda se lembravam da existência do primeiro fragmento, mas a partir do surgimento do órgão gerador de fantasias e de esquecimento de certos conhecimentos transmitidos (em verdade, um forma de esquecimento do ser), o kundabuffer, os homens passaram a acreditar apenas na existência de uma única lua...
No capítulo 10, Belzebu explica por que, em geral, os “homens” não são Homens naquele planeta terra e informa também que as leis do instinto mecânico desses seres impedem o acesso à Consciencia-Razão Objetiva, pela qual, entre outras coisas, compreenderiam que uma das razões cósmicas de suas existências é a de que devem servir de “alimento” para a lua. O órgão kundabuffer, que faz com a realidade seja vista turvamente, ou de cabeça para baixo, foi instalado então pela sábia mãe natureza no organismo dos seres do planeta terra, de modo a protegê-los da compreensão dessa espantosa realidade.

Harnelmiatznel


Das duas leis fundamentais do cosmo, heptaparaparshinokh e triamazikamno, esta última está diretamente vinculada a um outro neologismo-conceito em Gurdjieff: harnelmiatznel. Se triamazikalmno é a lei de três em seu puro sentido dialético, tese-antítese e síntese, grosso modo, harnelmiatznel é a dimensão alquímica da “combinação de planos superiores com os inferiores, a vida orgânica com a vida espiritual, produzindo não só uma síntese de teor intermediário, como também a imagem de que o superior desce um grau e o inferior sobe um. Harnelmiatznel é o imperativo da dialética em triamazikmano, seu resultado concreto em termos físicos. A partir daqui, Gurdjieff fará inúmeras menções aos aspectos alquímicos do Trabalho. O Trabalho é, por assim dizer, a dinâmica do compreender e ingressar no plano das substâncias mais finas, conscientemente. A inteligência superior, binah para os cabalistas, buddhi para os hindus ou budistas- é uma das expressões desse processo de ascenção, ancilla da consciência plena, que por sua vez possui vários outros níveis de manifestação. Os vários mundos dentro dos mundos, dos planos mais sutis aos mais grosseiros, representam verdadeiros universos dentro de universos. Mas é sobretudo partir de certa fase, exclusivamenbte dentro de si, que este grande percurso deverá ocorrer.
“Para conhecer realmente basta conhecer pouco, mas para conhecer esse pouco é preciso antes conhecer muito”. Os taoistas dizem que você pode conhecer o mundo e o universo dentro de si, numa caverna, e a própria física moderna usa a imagem de uma casca de avelã comno metáfora dessa mesma compreensão. Gurdjieff dissera certa feita que o homem possuía todo um mundo ao seu redor, mas um universo inteiro dentro de si. “Um homem deve primeiro conhecer a si mesmo. Como poderá ele trabalhar sobre si se, previamente, não se conhecer. Mas para começar a conhecer a si mesmo ele precisa combater ou anular os efeitos vários criados sobre seu psiquismo e sua compreensão por força do órgão kundabuffer: vaidade, autocomplascência, sugestionabilidade, repetitividade, amor-próprio, etc”. Contudo, ao tentar se devincular dessas injunções impeditivas ele estará indo contra vários oponentes, verdadeiras coortes simbióticas dessa ordem vigente das coisas, principalmente aquelas próprias ao domínio da natureza, em sua repetitividade, em sua expressão banal chamada “vida”. A vida em si é uma absurda impossibilidade, mas tal qual um sistema político que procura a todo custo manter os privilégios das classes ou dos grupos que o criaram, a natureza resistirá a qualquer tentativa de modificação. São os hábitos, apegos, etc. Lutar pela liberação é lutar contra essa ordem vigente, já que os homens são alimentos dos deuses, como dizem os hindus, ou da lua, como dirá Belzebu, assim como de outras leis cósmicas..
Ansanbaluizar é o termo empregado por Gurdjieff para especificar a relação de evolução/involução nos processos existenciais dos seres. Se harnelmiatznel esclarece a lei de três no plano, por assim dizer, alquímico das transformações, ansanbaluizar diz respeito à convergência, à totalidade de fatores de energia nesse processo. Gurdjieff vê homens como aparelhos, e num sentido mais cáustico, como máquinas (“Para começar o estudo do homem não se deve iniciar pela psicologia, mas sim pelas leis da mecânica.”). Etherokrilno, esta substância cósmica primordial, possui um elemento intrínsico “divinificador” e os homens precisam compreendê-la, reconhecê-la e operacionalizá-la em benefício próprio e da humanidade. Portanto, se os homens são como que “aparatus” impõem-se que eles descubram uma maneira de atuar sobre si mesmos, com a ajuda de outros seres, como se estivessem num laboratório realizando experimentos de todos os tipos. E se seu princípio primeiro não pertence à natureza deste planeta, vindo de um outro sistema superior, mas que se encontra acondicionado nas limitações da existência terráquea, ele terá que reconduzir-se à dimensão daquele princípio gerador.
Métodos, rituais de recondução são praticados desde a mais alta antguidade que se tenha notícia. Mas certos experimentos, certas operações podem sair erradas, devido ao não domínio de todos os fatores envolvidos, tal como Gurdjieff faz referência ao ocorrido no Tibete, à época da invasão inglesa, quando vários monges lamaistas se reuniram para uma “operação” da mais alta envergadura, que consistia em entrar em contato com o corpo astral de um então-recém falecido mestre. Nesse caso, como todo ritual, as medidas preparatórias, que incluem previsões de convergências diversas, precisam estar corretas.
Vivificar e processo vivificante são expressões usadas por Gurdjieff com frequência. A mistura ou combinação que é o harnelmiatznel, representa na prática- quando produzida com plena intencionalidade-uma vivificação de fatores imanentes..
Okidanokh é um neologismo que aparentemente foi formado a partir de oki, variante do grego moderno “não”, da que em russo é “sim” e nokh que pode ser uma variante do alemão noch “ainda”: aquilo que reconcilia o sim e o não. Seja como for, okidanokh possui três momentos: um afirmativo, um negativo e aquele que reconcilia. Embora aparentemente semelhante, este termo é tecnicamente usado numa acepção diferente do seu correlato triamazikamno.
Segundo Belzebú, no capítulo da obra dedicado ao hipnotismo, o conhecimento deste terceiro elemento e de sua capacidade de reverter a decadência, havia sido transmitido aos antigos egípcios pelos habitantes da Atlantida. Dentre outros usos, os egípcios usavam este conhecimento para a técnica de mumificação.
Hanbledzoin é o sangue da alma, mas também a energia vital, magnética do corpo astral construído através da manipulação de vários elementos, inclusive do exioëhory, o esperma. Aqueles seres superiores que dispõem desse corpo kesdjan podem usar de sua energia para curar outros seres tri-cerebrais necessitados, em parte através do hipnotismo, que abre caminho para que se atue sobre o subconsciente dos pobres infelizes terráqueos, mas também por transferência magnética. Contudo, ao constatar que ocorria grande dispêndio do hanbledzoin nessas ações altruísquicas, Belzebu resolve lançar mão de outros expedientes que possam poupá-lo desse desgaste.
O objetivo maior de todo esoterismo é a construção de um segundo corpo, um corpo astral. A transmutação de metal vil em ouro é apenas uma metáfora disso na alquimia. Alquimia externa e a interna. O hindus, que aprofundaram essas questões de maneira sistemática, falam de vários outros corpos posteriores, cada um decorrência, em estado mais sutil, ora positivo, ora negativo, em relação ao anterior. Na China, o objetivo do verdadeiro daoismo é o processo de gestação desse novo corpo, que a alegoria esotérica faz referência como levando extamente nove meses de gestação no campo do tan tian.
Em Gurdjieff, esse corpo é designado kesdjian, vulgarmente chamado de alma. Kesdjan é aparentemente um neologismo de origem armênia. Gurdjieff costumava repetir que a alma é um luxo e que ninguém nasce com uma. Sua obtenção só é possível através de muito trabalho sobre si, e como resultado de uma cristalização proveniente dos depósitos sutis da fricção entre o sim e o não- ou seja, através de sofrimento intencional.
Numa passagem do capítulo “Religião”, altamente esotérica, Belzebu descreve para Hasseim certas particularidades do corpo kesdjan, principalmente em relação à reunião desse corpo à particula que lhe é correspondente, localizada no plano cósmico- por força da ação do handbledzoin-, após a morte do corpo físico: “De modo a que possamos fazer inteligíveis nossas conversas subsequentes sobre esta questão, é necessário que você seja aqui informado que a referida conexão- uma ponta da qual é mantida no corpo kesdjan que emergiu à sua esfera correspondente e a outra ponta que permanece, seja dentro das superplanetárias formações na qual foi fixada a partícula da massa geral do hanbledzoin do dado corpo kesdjan, seja naqueles seres que intencionalmente misturaram o hanbledzoin de um dado corpo kesdjan com o handbledzoin de seu próprio corpo kesdjan- podem existir no espaço apenas por um período limitado de tempo, a saber, apenas até ser complementado o movimento próprio daquele planeta no qual surgiu aquele ser, em torno de seu sol.
“E no início da complementação de cada novo movimento as referidas ligações desaparecem por completo”
O tempo, Heropass na terminologia gurdjieffiana, é desapiedado em sua “marcha”. Ho xronos to didaskalos ton antropon estin- “O tempo é o mestre dos homens”- diz um ditado grego, mas em Gurdjieff a compreensão do caráter inexorável do tempo impõe o imperativo de que o homem trabalhe sobre si rumo à consciência objetiva, rumo, em sua incessante aspiração de crescimento e liberação, ao soleil absolut.


O Santo Planeta Purgatório


O capítulo é o 39 e muito se perguntou sobre o porquê desta localização no corpo do texto, já que este é considerado, por muitos, como um dos mais importantes da obra.
Neste capítulo Gurdjieff nos conduz por uma desconcertante trilha de incertezas. O criador eterno e absoluto. Assim sendo, a lei de sete, sobre a qual Gurdjieff discorrerá mais detidamente no capítulo seguinte, apresenta o grave fato das descontinuidades no universo e suas leis, como se fossem lacunas a serem preenchidas por fatores fora de controle. Essas descontinuidades, manifestas na lei da oitava, ensejam a contemplação das idéias de caos e incerteza, tão próprias da física moderna. Se hoje em dia a física fala de expansão do universo, a partir das constatações feitas com o “telescópio” de Huber, fala-se não menos de buracos negros e hiatos. Em linguagem Gurdjieffiana trata-se de um processo entrópico, que ele particulariza sob a expressão trogoautoegocrata, ou seja “(Eu sou) por meio de auto devorar-me”. O Santo Planeta Purgatório, a terra certamente, depura, lava as almas, propicia às missões superiores. Mas existe uma quantidade específica de energia e uma cota para reingresso, para o retorno aos estados mais sutiz da matéria: retorno à dimensão do solei absolut, no percurso que vai do plano mais grosseiro ao mais sutil. Toda essa cosmogonia tem muito em comum com a abordagem da cabala, em termos da visão das emanações e dos vários mundos, por um lado, e com o posterior imaginário judaico-cristão, por outro. Mas Gurdjieff aparentemente está indo além, talvez por força de sua reicidente dialética, a qual se recusa, tal como a budista, a fixar alicerces-conceitos ou representações de maneira definitiva.
Gurdjieff trata também, neste capítulo, do corpo “astral”, por cunhado por ele kesdjian, que é formado a partir de invisíveis cristalizações e combinações no interior do corpo físico- este é o corpo que propicia trânsito, o veículo para que se estabeça contato com outros planos superiores.
Ashiata Shiemash, o grande modelo do mais completo sábio, conclui que os homens chegaram a um tal estado de degradação moral e de ignorância que os expedientes usados nos tempos antigos, através das religiões, já não surtem mais efeito. É necessário que os homens voltem a desenvolver a consciência objetiva, o que só pode vir através de esforço intencional, saltos qualitativos produzidos por passagens de oitavas. Mas para que tal ocorra não depende só deles. O universo tem que conspirar a seu favor e, por razões de sua dinâmica própria, isto nem sempre acontece.
Djartklom talvez seja melhor traduzido por iluminação, ou choque que produz um estado de consciência “iluminada”. Os exemplos alegóricos dados pelos experimentos de Gornakh Harharkh no planeta Saturno- “onde fiz os meus melhores e mais sinceros amigos e cujos habitantes têm aparência que lembram a de um corvo”- apontam para o “djartklom artificial”, tentado em laboratório (metáfora talvez para o Instituto). Novos métodos precisam ser tentados, novas abordagens... Talvez a “graça” espiritual, concedida ou obtida, seja necessária... Este impasse talvez é melhor ilustrado pelo dito daoista: “O dao... se você quizer alcançá-lo não conseguirá, mas como poderá alcançá-lo se não quizer?” Algo mais é necessário no trabalho além do esforço, da fricção e mesmo do amor e da pura compreensão. Na escala dos aspectos do Trabalho, este é o sétimo e dentre os sete planetas, Venus representa, em seu atributo maior, exatamente esta qualidade: a graça, a suavidade que conquista os favores dos elementos coadjuvantes, as ninfas e anjos sussurantes talvez. Portanto, a condição básica de “ser partkdolgduty”, ou seja “a consciência do esforçar-se com ciência dos deveres superiores” - sine qua non ao aspirante, mas também imperativa sobre na Terra para evitar o iminente processo de autodestruição, o que antecipa a visão ecológica-, não deve ser tão “obstinada” a ponto de fazer com que percamos de vista a dimensão flexível, yin do processo.
A parte final do último capítulo do Belzebu- “Do Autor”-, traça em palavras diretas o quadro da situação do homem: “Tal é a condição ordinária do homem médio- um escravo inconsciente inteiramente a serviço de todos os propósitos cósmicos, alheios à sua própria individualidade”. Gurdjieff agora reduzirá, nessas páginas finais, toda sua cosmogonia, cosmologia e mitologia a algumas poucas observações psicológicas, práticas.
Gurdjieff deseja reavivar a esperança do leitor e explica-lhe que uma das maneiras que dispõe para fugir a essa escravidão consiste em, por esforço próprio, tentar erradicar a ação nefasta do tal órgão kundabuffer. Depois de esclarecer ainda mais sobre os efeitos negativos desse “órgão”, que produz sobre o psiquismo dos homens toda sorte de automatismos e infantilismos absurdos, superdilatando-lhes a vaidade, Gurdjieff enfatiza, uma vez mais, a necessidade de que se possua um Eu verdadeiro, e não apenas uma constelação de minúsculas entidades esvoaçantes que se dizem eus. Tendo a vida duas correntes, uma que conduz aos mesmos círculos existenciais, repetitivos, próprios de um eterno retorno cármico, e a outra que conduz ao grande oceano, o homem que possui um Eu verdadeiro torna-se apto a ingressar no segundo grande caudal.
E assim, retocado por bem-humoradas observações sobre o deleite de sorver o néctar restante das 27 garrafas de um precioso suprimento de Calvados, que haviam sido desenterrados nas imediações do priorado, Gurdjieff praticamente fecha seu opus magnus.
N.B. Este foi o material que pude extrair dos cadernos de anotações de Shirali. Tive que deixar de lado, para não fadigar em excesso o leitor, dezenas de páginas de observações minuciosas sobre a formação dos neologismos gurdjieffianos, análises comparativistas dos conceitos-chave com os das diversas escolas de filosofia ocidental, de correntes esotéricas, assim como um capítulo em progresso sobre as semelhanças com o sistema da Cabala, etc. Tentei fazer de tudo o melhor résumé que pude e espero que o formato dado possa ajudá-lo a iniciar o seu próprio percurso, graças a Shirali, através daquele monumento de sabedoria que é o Belzebu, um livro que trata de tudo e de cada coisa e que ensina “até mesmo a fritar um ovo”, embora não exista no texto qualquer registro explícito à arte da culinaria.
Dotado de extraordinária amplitude, quase incomensurável, e de profundidade quase abismal, os Relatos lembram um tratado alquímico posto em linguagem sobretudo alegórica, mas não menos científica. Um panorama histórico todo abrangente, dotado de uma psicologia profunda, objetiva, incisiva, e de uma implacável crítica de costumes. Constitui também um receituário educacional, onde cosmogonia, cosmologia, e esoterismo do mais alto grau são postos em linguagem direta, simples, intercalada pelas tiradas do tenor do bom-senso oriental, o Mullah Nassr Edin.
Vasto, vasto é o universo contido no Belzebu, mas sua compreensão não poderá jamais ser linear. Ela virá por saltos, através de descontinuidades e, sobretudo, através de muita desconstrução nos nossos hábitos de pensar. XXIV

O Trabalho continua na Paris ocupada.

“Você ainda nulidade! Mas agora tem que decidir: tudo ou nada. Ou realmente tenta mudar ou esqueça tudo e permaneça como está. Precisa compreender que, tal como sois, vous êtez une merdité. Uma fonte de infortúnio para si e para os outros. Trata-se agora de uma nova justiça. Ela tem uma nova indumentária, um cinturão e também um chapéu. Um chapéu alto ”.

Quando da invasão alemã da França, foi oferecida a Gurdjieff a oportunidade de se mudar para o interior, fugir da opressiva Paris ocupada. E ele de fato partiu, mas apenas por pouco tempo, retornando logo a seguir ao velho apartamento da rue de Colonels Rénard, nas proximidades do L’Arc du Triomphe.
Durante todo o período da da Segunda Grande Guerra, Shirali vivera no interior da Inglaterra, para onde se transferira durante a década de trinta. As notícias que chegavam com regularidade sobre Gurdjieff desde Paris praticamente cessaram com a ocupação alemã, quando então desceu entre o continente e a ilha uma cortina pesada de silêncio. Os Ouspenskys partiriam para os Estados Unidos, mas a americana Jane Heap resistiria em solo inglês. Apesar da ausência de Piotr Demianovitch. os grupos de Londres continuariam a “trabalhar”. durante a guerra, assim como os da Paris ocupada. Mas do próprio Gurdjieff as notícias se tornariam absolutamente escassas e a comunicação com ele só seria restabelecida a partir de 45. Cerca de quatro longos anos de silêncio, durante os quais o processo de auto-destruição da humanidade, sobre o qual Gurdjieff tão repetidas vezes fizera menção, se arrastaria pelos quatro cantos do continente e do mundo, desta vez em escala planetária.
Além do grupo seleto de Paris, que se reunia clandestinamente, tendo que para tal esgueirar-se perigosamente pelos postos de controle das patrulhas alemãs, suspeitosas de qualquer movimento incomum na vida da cidade, poucos sabiam se Gurdjieff ainda vivia.
Franz Peter, o genioso sobrinho de Jane Heap que tivera o privilégio, na década de 20, de ser educado pelo próprio Gurdjieff nas dependências do Prieuré, agora ativo maquis à beira de um colapso por exaustão, procura furtivamente o mestre em seu apartamento.
-“My son! Entrez!” recebe-o calorosamente o mestre. Conduzindo-o à pequena cozinha, Gurdjieff prepara-lhe café forte e põe comida para esquentar. Peter sorve do café quase que caído sobre a mesa, absolutamente dominado pelo cansaço causado por semanas de clandestinidade e privações. Mas, de repente, ele começa a sentir uma rajada de calor percorrer-lhe o corpo. Revigorado, levanta a cabeça e surprende Gurdjieff olhando-o fixamente. Emanando de seus olhos, numa face agora imbuída de uma cor violeta, podia ele claramente distinguir a emissão de um jato de luz. Era como se uma onda energética lhe estivesse sendo lançada àquela reduzida distância. Gurdjieff começa então a curvar-se, como que profundamente enfraquecido, e diz: “Agora você está bem! Observe a comida no fogão. Eu preciso ir”.
Os testemunhos desse tipo não são poucos. Solita Solano, que mantivera até a morte a promessa de não descortinar certos segredos, revelara pelo menos este: ao saírem certo dia do Café de la Paix, Gurdjieff lhe diz que deseja fazer um experimento. Ao chegarem ao apartamento, pediu que ela fosse até a janela e permanecesse em pé de costas para ele. Passados alguns minutos, Solita começou a sentir uma rajada de energia percorrer-lhe a espinha dorsal, fazendo seu corpo reverberar. Ela então protesta: “Mas o Sr. está me sacudindo”, ao que Gurdjieff retrucou: “Como, se estou sentado bem aqui atrás?” Alguns espíritos mais irreverentes observariam que Gurdjieff, notando no Café a espécie de agitado cio em que Solita se encontrava, resolveu proporcionar-lhe um orgasmo por controle remoto.
As informações que dispomos das reuniões na Paris ocupada dão uma razoável idéia do formato do Trabalho por aquela época, antecipando já o que seria o último período, no pós-guerra. Jeanne de Salzmann coordenava os “movimentos” num dos quartos do apartamento enquanto que na pequena sala de estar tinham lugar as reuniões e as frugais refeições marcadas pela cerimônia do brinde ao idiota do dia, fortemente iniciática.
Esses são tempos difíceis, de despitamento e ocultação, e os fragmentos de informações dão notícias de um Gurdjieff tomando aqui e ali dinheiro emprestado para sustentar a si e seus agregados, com a promessa de que seus discípulos americanos, donos de poços de petróleo e de dólares, ressarciriam os credores passada a guerra- o que de fato ocorreu. A imagem do mestre em ação, que emerge dessas descrições, delineiam um Gurdjieff muito parecido com o dos anos trinta: direto, sarcástico, incansável, enormente humano e compassivo. A proverbial habilidade para a sobrevivência do mestre está de novo atuante e, apesar da escassez geral e dos racionamentos, ele consegue manter sua despensa sempre bem abastecida de gêneros alimentícios, bom conhaque, café e tabaco. Gurdjieff, o mestre das situações difíceis, veterano de tantas guerras e conflitos, o “tigre do Turquestão”, se sairá bem de mais esta.


XXV

Idiotas no pós-guerra

"Must want go soleil absolut"


Shirali registrou em seus cadernos que uma das primeiras notícias que recebera sobre Gurdjieff, no final da guerra, causara-lhe uma grande gargalhada. Isto porque essa notícia dizia que, para sobreviver na Paris sob domínio alemão, ele se ocupara com a nobre profissão de confecionar cílios postiços. “Nunca tive a oportunidade de verificar se isto de fato ocorreu, mas não me parece de modo algum improvável. Apenas alguns meses apos a libertação de Paris, embora a guerra ainda não finda, consegui alistar-me num grupo da Cruz Vermelha que partiria do sul da Inglaterra para a França. Minha incumbência como auxiliar de enfermagem era o de acompanhar as equipes médicas que seguiam o avanço dos aliados sobre os territórios conquistados aos alemães. Após várias semanas de intenso trabalho ao longo da linha de retarguada da destroçada Normandia, não me seria muito difícil- mas tampouco fácil – esgueirar-me até Paris, e mais especificamente à rue de Colonels Renard. Transportado no trecho final como ajudante de agricultor num caminhão de verduras, cheguei à cidade bem cedo, numa fria manhã outonal. Foi o próprio Gurdjieff, para minha grande emoção, quem me recebeu à porta de entrada. Sua presença adquirira uma gravidade monumental, sua aparência uma inequívoca atemporalidade:

Poistveshi! (“Mensageiro”, em georgiano!) exclamou ele ao me ver. Uma vez mais não havia dúvida, a tipologia que me fora atribuída parecia fadada a permanecer. Um pouco mais tarde, sentados à sua pequena mesa de cozinha, na qual fez-me comer como se há anos estivesse passando fome, e após escutar os inúmeros relatos de minhas peripécias durante os anos da Guerra, ele disse:
-“Hoje à noite você convidado especial para brinde ao Idiota, ao idiota em Zigzag que você costuma ser! Shiralishvali, o mensageiro do Cáucaso!”
Shirali me descrevera o idiota em zig-zag como um tipo em movimento contínuo, esquerda-direita, para cima-para baixo, simétrico-assimétrico, ele faz uso de inúmeras identidades para dinamizar o seu percurso. “Lembre-se bem que o idiota em zig-zag, que usa seus vários eus como trampolins para o trabalho sobre si, sabendo da “merdité” que ele é, este eu respeito com a totalidade de minha presença. Mas o idiota em zig-zag que faz de cada segunda-feira uma sexta-feira, este idiota eu considerocomo o... (Shirali achava que Gurdjieff fizera menção a algo como o estrume da hiena, mas não tinha certeza).
A arte, técnica ou mesmo ciência dos idiotas tem origem na Ásia menor. Na Geórgia, por exemplo, costuma-se brindar a esta ou aquela peculiaridade de alguém presente a uma refeição. Gurdjieff adaptou essa prática e deu-lhe uma formatação psicológica que servia aos seus propósitos didáticos, mas parece que tal ato acarretou-lhe problemas. Além disso, essa prática fazia parte de uma outra cerimônia, também considerada por ele da maior importância: a das refeições coletivas, onde o senso de congregação iniciática emprestava à cada situação, palavra ou gesto, uma reverberação quase sagrada. A quebra do ritual nessas refeições coletivas era por ele severamente admoestada, já que a sua intenção parecia ser a de construir psicologicamente momentos especiais de consciência coletiva. Havia algo do arquétipo da Última Ceia no ar. O último Gurdjieff concebera um grande plano e parecia se esforçar no sentido de ungir as pessoas em torno desse novo projeto para a humanidade.
A caracterização do tipo de idiota que se é, ainda que por certo período de tempo, tem certa relação com outra categoria gurdjieffiana, a saber, a do “traço principal” de um indivíduo. Embora próximos, e por vezes absolutamente coalescentes, esses elementos são distintos. O traço fundamental é aquilo que está cristalizado como o quantum psicológico mais profundo de uma pessoa, quase que inapelavelmente, enquanto que o tipo de idiota que se é pode – e deve- ser substituído à medida em que se trabalha sobre si.
Os tipos de idiota são cerca de 20 ou 21. O próprio Gurdjieff seria o número 18. O idiota número 1 é a criança por excelência, em sua pura manifestação de essência e mesmo de ingenuidade, quando ainda não contaminada pela ingerência da personalidade. A seguir vêm vários tipos de idiotas geométricos: “quadrado”, “redondo”, em zig-zag, etc, ou seja, indivíduos com características comportamentais providas desse ou daquele tipo de configuração psíquica. Há os idiotas presunçosos, tais como os arqueidiotas, que são os juizes e médicos em geral; idiotas desesperançados, objetivos e subjetivos.
“ Que tipo de idiota é você?”, perguntou ele a C. Nott certa vez. Nott fingiu que não sabia ou que não se lembrava, ao que Gurdjieff retrucou: “Como não sabe? Um homem precisa conhecer a si mesmo”! Nott, que bem sabia qual era o seu tipo, acedeu: “Idiota desesperançado”. Mas Gurdjieff ainda não se dera por satisfeito: “Sim, mas de que tipo, subjetivo ou objetivo”? “Subjetivo”, arrematou Nott. Para Gurdjieff, o idiota desesperançado objetivo era um caso perdido, enquanto que o subjetivo ainda armazenava em si possibilidades, apesar de profundamente descrente.
O idiota “esclarecido” ou “iluminado” é aquele que alcançou o máximo de compreensão intelectual, mas seu ser não consegue crescer, prisioneiro encurralado do intelecto em que se transformou . Gurdjieff parecia achar que este era um dos piores casos. Perguntado certa vez sobre o porque desta situação de impossibilidade, quase trágica do idiota iluminado, ele respondeu: “Não sei se existe ser mais infeliz sobre a face da terra. Não sei bem as razões, talvez sua avó tenha sido uma prostituta. O idiota iluminado tem que descer, conscientemente, até o nível do idiota número 1, o idiota ordinário. A seguir, lenta e conscientemente, deverá ele subir de novo, para talvez ultrapassar o estágio em que estava...”
Mas essa imagem da descida do idiota esclarecido, aquele ou aquela que atingiu um alto nível de compreensão intelectual, mas que exatamente por isso estancou, prisioneiro do instrumento que o conduziu até ali, amparado nesse impasse pelo orgulho ou pela vaidade, é também uma metáfora da dialética gurdjieffiana. O Trabalho não tem formato, em última instância. Por isso, ele precisa desconstruir, estar começando do zero, para fortalecer, revigorar o percurso, enriquecendo-o e depurando-o. Começar tudo de novo é obter a chance de retificar, sanear, depenar, aparar, eliminar. De uma forma ou de outra Gurdjieff impôs esse sacrificial exercício a vários de seus discipulos, como Orage por exemplo, obrigado a renunciar de maneira humilhante ao seu estatus de “Diretor do Trabalho para América”. Após travar intensa luta interna, Orage compreendeu o que estava por trás daquele teste de Gurdjieff. Mas a maioria não consegue superar as barreiras erguidas por seus impáfios egos.
A praxis ampla e irrestrita do Trabalho constitui a mais anti-burguesa de todas as posturas revolucionárias. Lembro-me que, numa das reuniões de grupo, um jovem revolucionário francês alegara que Trabalho não tinha uma visão política, era composto de aristocratas decadentes, intelectuais e artistas pequeno-burgueses, sem senso da história, e de uma legião de alienados que buscavam nas promessas espirituais um refúgio da realidade social, composta de forças políticas e econômicas em profundos antagonismos. Alguém levantou-se e fez um plaidoir em favor do do Trabalho:
-“ Visto do ângulo ainda superficial e genérico em que você se encontra, tudo isto parece ser verdade. Mas todas essas roupagens e atributos decadentes e pequeno-burgueses a que você se refere estarão completamente demolidos e transmutados quando o processo depurador do Trabalho tiver alcançado certo grau de penetração em cada um de nós. Seria absolutamente incongruente conciliar esses valores com a pauta superior, despojante, ascética, altruística do Trabalho. Aqui, a negação de valores de superfície é feita lá nas raízes do ser e não no plano volátil das idéias, hoje de um tipo, amanhã de outro, a sabor das ideologias que vão surgindo.”

Ouspensky retornara à Inglaterra, de seu exílio voluntário nos Estados Unidos durante a Guerra, já doente e desiludido. Numa reunião histórica com os discípulos que o aguardaram durante aqueles difíceis anos, deixaria ele claro que aquela era a última estação. Entre uma dose e outra de um forte cocktail, “única maneira de fugir ao grande tédio”, faz transparecer um lamento em relação a Gurdjieff, algo como um “por quê ele não me permite voltar?”. Mas sua obra fundamental está pronta, os Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido, mais tarde prosaicamente intitulado pelos editores americanos como “Em Busca do Milagroso”. Numa última visita de Gurdjieff aos Estados Unidos, no pós-guerra, a imperial Madame Ouspensky, que havia preparado seus ansiosos alunos para a chegada do verdadeiro Mestre, pede permissão para a publicação do livro. Gurdjieff escutará várias passagens e após observações do tipo “é exatamente isto que eu disse”, “muito bom, Ouspensky um bom jornalista”, ou ainda “falta alguma coisa, está muito líquido... ” concede seu imprimatur.
Estavamos agora no pós-guerra, havia uma explosão de otimismo e a busca pelas restaurações estava na ordem do dia por toda a Europa. O dinheiro começava de novo a aparecer, em quantidades cada vez maiores, e Gurdjieff, embora avisado do perigo de uma batida policial, continuava a esconder os vários tipos de moeda estrangeira debaixo de seu colchão. Por fim ela veio e ele teve que passar alguns dias atrás das grades, antes que seus influentes discípulos franceses o liberassem. Perguntado por um deliquente da mesma cela quantas vezes tinha sido preso, ele responderia com certo desdenho que nenhuma. Mas ao observar que sua resposta não surtira um efeito positivo, preparou-se para a próxima vez, quando então retorquiu com plena intonação monasterial : “Dix-Huit!”
A partir do final de 1947 e início de 48 o afluxo de Londres cresce quase que alarmantemente, e de maneira tal que Gurdjieff se via obrigado espantar com vários subterfúgios todos aqueles que se aproximavam por mera curiosidade. Jane Heap trouxera praticamente todo o contigente de seus grupos londrinos, o mesmo fizera Kenneth Walker com parte dos fieis a Ouspensky, liberados pela própria Sophia. John Bennett, que agora pela terceira vez se aproximava de Gurdjieff, os trazia em grandes quantidades como frutos de suas palestras e ação catalizadora. Em seu primeiro reencontro, Gurdjieff fora-lhe indiferente e quase hostil. Aliás, a sua recepção aos membros originários de Ouspensky era no início severa. Elisabeth Bennett, adoentada, sentou-se à frente do mestre numa daqueles primeiros encontros. Após cravar sobre ela longamente seu olhar, Gurdjieff pergunta: “Aonde está sua dor agora”? Ao que Elisabeth respondeu, atônita: “Desapareceu”. “Não”, insistiu Gurdjieff. “Estou perguntando onde ela está agora”. E ela então diz: “O senhor a tomou”. Gurdjieff então arremata : “Bom, agora podemos trabalhar”.


XXVI

“Adieu tout le Monde”

O pequeno apartamento da rue de Colonels Rénards torna-se centro de uma grande atividade no pós-guerra, principalmente a partir de 47. Gurdjieff acompanha as aulas dos movimentos, trabalha intensamente com os vários grupos, recebe individualmente, aparece com frequência nos cafés vestido em seu “terno parisiense”, cozinha muito e viaja. Apesar daquele quase fatal acidente de carro, ele continua dirigir seu novo carro afoitamente. Ocorre então mais um acidente, grave. Transfigurado pelos efeitos corporais do episódio ele diz: “agora precisa de novo reconstruir corpo planetário.” Mas havia algo mais de muito mais sério, havia um cancer.
Com o segundo acidente de carro, sua saúde piorou drasticamente, pois que agora as pavorosas dores de seu cancer aumentam. Ele recusa os analgésicos. Ele agora permanecia acamado durante dias, ou até semanas, recebendo visitas sob supervisão. A energia que conseguia reunir quando de seus períodos de descanso era como que inevitavelmente despejada nas várias atividades que desenvolvia quando estava de pé. Em outubro de 1949, quando supervisionava um ensaio dos movimentos, ele por fim colapsa.
De volta ao apartamento seu quadro clínico é diagnosticado como extremamente crítico. Urge interná-lo. Não se tratava apenas do cancer galopante, às dores do qual ele resistia como expediente de luta interna, mas também de outras complicações generalizadas. O Dr. Welch foi chamado às pressas e atravessou o Atlântico no primeiro vôo disponível. Ao ser transportado para o hospital, solenemente sentado na maca, para uma viagem sem retorno, Gurdjieff vai se despedindo daqueles que se alinham ao longo do corredor do prédio e à saída: “Adieu tout le monde!” O antigo e fiel concierge chora, mas os alunos perplexos estão confiantes de que trata-se de algo passageiro, pois o mestre deles é imortal. Gurdjieff, contudo, sabe que a grande travessia está próxima.
Agora, no Hospital Americano, faz-se necessário agir com máxima rapidez. Impõe-se uma drenagem. Perguntado se concorda, Gurdjieff, cigarro com piteira numa das mãos e xícara de café na outra, retruca bem-humorado: “Adiante doutor, desde que não esteja cansado. Bravo Amerique!” A quantidade de líquido retirada é assustadora e mais tarde, após a autópsia, Welch mostrou-se incrédulo com o estado avançado de degenerescência do organismo do seu ilustre mestre e paciente; era simplesmente inacreditável que Gurdjieff não estivesse morto já de longa data.
Pouco antes de entrar em coma, Gurdjieff terá dito a Madame de Salzmann : "Você fica aqui para me ver partir ". E ela de fato teria "visto" o segundo corpo deixar o primeiro, o astral abandonar o planetário, em meio a uma circunstância de maravilhoso fenômeno energético, sobre a qual tanto ela quanto o próprio Welch se recusarem sempre a dar detalhes.
Nas indicações que Gurdjieff fizera, oralmente ou por escrito, em relação a esse segundo corpo, ele fala de conexões sutis, certas misturas ou combinações de elementos, nisso estando envolvidos o ar e o sangue. A luta entre o sim e o não como motor. Este é um processo demorado, não comensurável pelos esquemas vigentes de tempo. É como se fossem depositadas porções de sal num copo com água e se mexesse com uma colher. O sal irá se dissolvendo na água e você não poderá ainda vê-lo. Mas, a partir de um determinado momento, ele se tornará inequivocamente visível.
Além dos eventos do Hospital Americano de Paris, foram muitos os estranhos fatos e fenômenos ocorridos durante os preparativos para o enterro e na missa de corpo presente, quando, de maneira absolutamente inexplicável, todas as luzes da igreja se apagaram.
O cortejo fúnebro causou sensação em Paris, e depois em Avon. Umas duzentas pessoas estiveram presentes ao serviço na catedral Alexander Nievsky e pelo menos cerca de dois terços dessas deslocou-se até Avon. Altos dignatários, artistas e intelectuais dos quatro cantos da Europa, mendigos, emigrados russos e armênios, garçons e porteiros. E a grande quantidade de discípulos.
“E possa Deus ter misericórdia da alma de seu filho G. I. Gurdjieff”... “ proclamou a voz profunda do padre ortodoxo. Partia agora deste plano terrestre o sobrinho do príncipe Mukransky, o Tatakh da distante infância no conturbado Cáucaso de princípios da segunda metade do século XIX. Quanta coisa se passara no lapso daqueles oitenta anos, que pelo volume das experiências internas e externas parecia uma galáxia! E o quão gigantesco fora seu esforço em passar adiante a maior quantidade possível dos conhecimentos que ele acumulara. Agora ele de fato se fora, e uma página era virada. Ficava o legado, seus escritos e discípulos. Uma missão a ser tocada adiante.
“Quando um mestre como Gurdjieff desaparece, não é possível substituí-lo”, avisa Jeanne de Salzmann numa das primeiras reuniões após o enterro, destinada a traçar os novos rumos do legado gurdjieffiano, supostamente em concordância com as indicações que ele deixara. O Trabalho deveria prosseguir como Instituição, embora a peça fundamental da engrenagem, seu sopro vital, já não estivesse mais disponível. Mas, como cada iniciação é no fundo um processo de auto-iniciação, os homens devem seguir buscando o crescimento de suas partes constitutivas, rumo à consciência objetiva, em direção ao Soleil Absolut. Para Gurdjieff, o homem é um produto inacabado. A sábia mãe- e madrasta!- natureza desenvolveu-o até certo ponto, abandonando-o a seguir à própria sorte, como ser finito e incompleto. Cabe a ele ascender por esforço.
Mestres como Gurdjieff são notáveis sobretudo pelo essência que manifestam, por aquilo que são e não por aquilo que escrevem. Esta é uma diferença crucial. Em geral é esta a dificuldade que existe no Ocidente em reconhecer de pleno direito tais homens, já que estamos acostumados a medir as pessoas pela repercussão externa daquilo que fazem ou dizem que fazem, e não por aquilo que representam na interioridade de seus seres.
Em sua sequência cronológica, o material deixado por Shirali terminava com a morte de Gurdjieff. Num outro tipo de hermenêutica, que procurei exercitar sobre esse material, como que para captar outras informações imanentes, subliminares, para além daquelas que as palavras escritas ou oralmente articuladas num primeiro plano denotavam, observei a existência de uma postura crítica, ligeiramente cética quanto à veracidade, não dos ensinamentos, mas, como se fora, de sua plena possibilidade de completude. “Muito são chamados, mas apenas alguns eleitos”, diz o adágio. Era como se Shirali estivesse tentando dizer que aquilo que Gurdjieff alcançara pessoalmente dificilmente poderia ser obtido por outra pessoa na mesma dimensão. Havia algo de excepcional e inalienavelmente próprio à sua pessoa. Uma espécie de exclusividade cósmica e ôntica com a qual ele havia nascido!
Por outro lado, Gurdjieff estava experimentando, fato que um exame mais atento de sua vida não deixa dúvidas. Aliás, a palavra experimento parecia exercer sobre sua visão de mundo um certo fascínio. Ele estava rompendo barreiras, desmascarando falácias, mudando os formatos... E com que coragem! Após Gurdjieff o esoterismo já não pode ser o mesmo. Aliás, esoterismo para Gurdjieff é apenas Conhecimento ainda não plenamente explicitado.
Algumas observações soltas de Shirali, aqui e ali, diziam: “mas isto já existe no yoga, sob formas diversas”; ou então: “ a origem budista aqui é inequivoca, mas em Gurdjieff está por demais modificada e quase truncada”; ou ainda: “Não há como se enganar que se trata aqui do homem Gurdjieff, com suas idiossincrasias, e não do mestre”... “O médico que existia em G. era de uma outra escola: holístico, shamânico, com plena consciência da importância dos meridianos e dos chakras, assim como da importância da energia vital. Ele procurava buscar ali o núcleo do problema e atuava diretamente”. Gurdjieff ridicularizava os “ médicos de última geração”, preocupados apenas com um parafuso da engrenagem, sem levarem em conta a dinâmica do todo.
De fato, as técnicas de concentração, de desenvolvimento da atenção, são no método gurdjieffiano precárias se comparadas com os gigantescos legados das escolas hindus ou chinesas. Por outro lado, são mais realistas e de bom tamanho para o psiquismo do homem atual. O sitting para autoobservação é sem dúvida poderoso e crescerá em qualidade com a prática. Mas nas escolas orientais, suas variantes, suas técnicas e acessórios são múltiplas. A inigmática e central “lembrança de si” não precisa ser formulada nas escolas orientais, porque já é imanente nas técnicas de meditação. Mas Gurdjieff era um pragmático e sabia que estava lidando com um tipo de homem excessivamente deformado pela sugestionabilidade, pela gigantesca fantasia sobre as dimensões do conhecimento dito esotérico, pitorescamente etiquetado como “espiritualidade”. Ele sabia que havia uma enorme imaturidade no psiquismo ocidental, anestesiado por séculos de um cristianismo prosaico, algo enfraquecedor, pelo esquecimento do ser e pela extrapolação da “consciência científica” e ainda pelas novas misticálias que se proliferavam. Havia sem dúvida o efeito do órgão kundabuffer. Gurdjieff estava produzindo um vade-mecum e colocando muito, muito de sua própria lavra ali dentro.
Basta um rápido olhar pelas várias facetas e fases de seu percurso para se verificar o quão cada vez mais reduzido e direto, drasticamente direto- o que o aproxima dos tântricos e dos zen-budistas- seus ensinamentos foram ficando. “EU- QUERO -SER”, o primeiro momento com consciência toda posta no centro intelectual, o segundo no do sentimento e o terceiro no do instintivo. Plenamente!. “Viu como consigo fazer tudo bem simples, Eh!” “Procurem vislumbrar em tudo a essencialidade, não se percam em detalhes menores. Ao escreverem também, procurem o centro de gravidade da idéia e da frase.” “Vocês estão sentados em cadeiras de porcelana e têm medo que essas se quebrem!”

Mãi guru banta hum. Mujhe shishya kya? Rameshvara Jha.

( “Eu formo gurus. Para que [vou querer] manter discípulos”?!)

[ Observação de Shirali, no original em hindi, entre o parágrafo acima e o que segue abaixo]. Nota bene: o que vale dizer, em última instância, que todos deveriam almejar a se tornarem unidades autônomas, após passarem pelas etapas de discípulos e de mestres, pois que apenas assim cada individualidade poderá plenamente concretizar seu verdadeiro Eu, e não apenas permanecer um “seguidor”.

“Outro fator inequivocamente problemático em Gurdjieff é o dos efeitos residuais da sua gigantesca presença- a personalidade magnética do homem-, que inibiam e contaminavam os processos de individuação dos discípulos, estabelecendo equivocados padrões, impingindo inexoravelmente falsos modelos. Gurdjieff era Gurdjieff, com uma essência própria, uma configuração astrológica própria e peculiaridades de várias ordens absolutamente próprias, que não podem servir de modelo ou como imagem até mesmo comportamental desse ou daquele conceito. No Oriente, da Índia para lá, essas pessoalizações são reduzidas a um mínimo, e chegam a ser profundamente esmaecidas no daoismo e no zen-budismo. O pathos de Gurdjieff, em grande parte talvez a contra-gosto, impregnou excessivamente o trabalho. O próprio Gurdjieff sentiu-se não raramente na obrigação de afugentar, desistimular, por vias até mesmo chocantes, aqueles que o cercavam, muito embora vários tenham se afastado por terem chegado aos seus limites pessoais de tolerância e resistência. Ouspensky fazia questão de enfatizar a diferença a ser feita entre o homem e o mestre, o santo e o demônio. Essa última diferença Alexander Salzmann parece ter reservado para elucidar “lá do outro lado”.
O Trabalho de Gurdjieff possui, até certo ponto, semelhanças com o super-homem nietzscheano. Superar-se, superar-se continuamente. Mas superar-se na essência e não apenas no plano das idéias, o que é, segundo Gurdjieff, “cheap”, barato. Uma das diferenças reside na avassaladora contundência ôntica que ele conclama e preconiza. Não se trata de um universo de idéias, mas sim de trabalho e resultado, desconstruções e verificações, ascenção por oitavas, sobretudo por choques de oitavas. O miraculoso diz respeito não só aos resultados literalmente “milagrosos”- na acepção correta desse termo, sem os efeitos afetados-, que só são alcançados à medida em que os estados de consciência vão se repetindo, mas também aos poderes psíquicos e outros que vão sendo obtidos- siddhi. O trabalho, como de resto qualquer escola de conhecimento esotérico, torna o aspirante um mago. Mago, não no sentido pitoresco, misticálico, romântico até do termo, mas sim na acepção concreta da obtenção de recursos, de níveis de compreensão da realidade externa e interna- e de como manipulá-la. Gurdjieff, um mago da maior envergadura, o “homem invisível”, tinha uma pauta para os seus poderes, para a sua missão. E esta pauta, dramaticamente manifesta no Gurdjieff do pós-Guerra, era do mais alto grau ético que humanidade possa ter concebido em sua história religiosa. Menschliches, allzumenschliches é o traço que predomina no último Gurdjieff; taumatúrgico, impactantemente insofismável em sua magnética presença, inevitável, intergiversável. Intencional! Uma presença que se movia graciosa e felinamente, como se em pleno estado de alerta. Seus poderes psíquicos eram tão evidentes que era como se estivessemos lidando com um halterofilista cuja estrutura muscular era tão impressiva e evidente que teríamos que pensar duas vezes antes de contrariá-lo, mesmo que soubessemos que ele jamais tiraria partido de sua inequívoca força. Os exemplos e testemunhos a esse respeito são tão abundantes que dispensam referências.
Mas a sua dialética e seus procedimentos podiam ser também tão desconcertantes e cáusticos a ponto de levantar incertezas quanto a genuinidade de suas verdadeiras intenções. Um “muito obrigado” profundamente emocionado catapulta-se boca afora de uma “miss” Gordon à soleira da porta que o próprio Gurdjieff abrira: “Ele se afastou, encostando na parede. Um faixo de luz então iluminou-lhe o rosto”, descortinando uma expressão facial inesquecível para ela. “Deus me ajuda, disse ele” e com isso respondeu a todas as perguntas que pressentiu que ela desejava formular.
Há um retrato de Gurdjieff, tirado provavelmente em meados de 1949, para a edição então vindoura do Belzebu, que tem um valor praticamente icônico, através do qual devemos compreender atributos ou verdades de pauta espiritual. Nesse caso, o valor maior que aquela expressão facial evoca e assevera, para além dos de profunda compenetração e sábia inteligência, é o da compaixão. Não conheço outra expressão facial que possua aquela força quanto a esse atributo da condição humana.
Gurdjieff afetava imediata e profundamente quem quer que com ele entrasse em contato, fosse por desnudar, com um único olhar, um traço psicológico ocultado, fosse por suscitar uma emoção verdadeira que estava sendo bloqueada ou ainda por trazer à tona a veracidade “essérica” deste ou daquele, camuflada e distorcida pelas vãs máscaras da personalidade. Não raramente, ele mandava buscar o seu instrumento predileto, uma espécie de harmônica, e o ambiente psicológico da sala passava a ser dominado por uma lânguida expectativa, imersa num silêncio que se fazia abismal. Os acordes então saíam com pujância mágica, mexendo lá por dentre de cada um, como exemplo genuino do que era a arte verdadeira e qual propósito ela deveria ter. A música deve suscitar sentimentos fortes, genuinos, propiciar um certo fervor, fervor que dá seriedade ao ser, dimensão, profundidade, retirando-o da superficialidade “ôntica” do mental, frio, formatório. Gurdjieff, conhecedor consumado da natureza psicológica humana, sabia exatamente quais os sentimentos que intencionava sucitar. Não raramente, este ou aquele discípulo ou visitante presente irrompia em profundo choro. Feita a catarse, as almas lavadas, alguma forma de trabalho podia começar, a vida seguia seu curso de maneira mais genuina, consequente, real, promissora...
Tal como está o homem precisa morrer, e então renascer. A seguir, tal qual um bebê ele conscientemente reditará a si mesmo com a ajuda das forças superiores, as quais, segundo Gurdjieff, só aparecem quando o território está propício para tal, a “casa está arrumada.” O amor pelos pais e pela humanidade cria no homem um campo magnético; quando os entes mais queridos desaparecem fica o espaço aberto para que Deus entre, dizia ele. E é exatamente aqui, nessa ênfase ao inapelável imperativo do exercício do amor, da compaixão pelos semelhantes, que reside o mais profundo do cristianismo em Gurdjieff.
O surgimento físico e espiritual de Gurdjieff no Ocidente produziu sobre o esoterismo um impacto cuja real envergadura ainda apenas superficialmente foi vislumbrado. Sua passagem foi absolutamente devastadora, entre outros pelo simples fato de haver extirpado da consciência fantasiosa ocidental toda uma falange de erros e ilusões sobre os verdadeiros processos de auto-conhecimento. A representação- e a praxis! do esoterismo é posta por ele de cabeça para baixo. “Olho para vocês e não os vejo. Vocês não estão em casa.” (Isto é: estão sendo para a função fantasiosa de seus imaginários, desconectados de suas verdadeiras essências, sonhando em suposto estado de vigília. Vocês não existem simplesmente porque não estão instalados em si mesmos, esquecidos que estão das partes constitutivas de seus seres...).
Em sua primeira intervenção em Londres, e desfechando um duro golpe às pretensões acadêmicas e intelectivas de Ouspensky, Gurdjieff deixa claro que a existência das duas linhas, a do conhecimento intelectivo e a do ser, constitui a espinha dorsal de seu Trabalho. Os cavalos, a essência, o ser tout court, só avançará e se modificará se houver trabalho sobre a infra-estrutura. A mente é um luxo e por ela não se vai muito longe nos problemas do ser; na espistemologia sim, nas ciências e “na questão da Índia que se trata nos Clubs nos fins de semana “, mas não no que tange o âmago do ser. Aqui a “realidade” é outra, e o modus operandi, dinâmico, fenomênico, também deverá ser diversificado, por vezes “diabolicamente”.
Gurdjieff, nas idéias e na praxis, rompeu com quase todo o repertório de pré-conceitos que se tinha sobre a prática espiritual. Em sua presença, a realidade interna de cada um desnudava-se de suas cabotinas roupagens, de suas falaciosas construções feitas dos “contos da carochinha”, vaidade, frivolidades, presunção e prepotência. Gurdjieff rompeu com as banais dicotomias de bem e mal e provava sempre, para grande maioria, ser um homem de uma gigantesca generosidade e compaixão. Nos seus últimos meses de vida, os mendigos, alcoólatras e desamparados de Paris faziam fila nos bares para vê-lo e receber dele orientação ou ajuda em dinheiro. Com Gurdjieff a imagem do santo ou líder espiritual enclausurado numa caverna ou num monastério, beatificado pela pieguice de seus atos, é definitivamente desmontada. É por isso que René Guénon, receoso de entrar em contato pessoal, julgava-o à distância, protegido pela parafernália escolástica das tradições em que bebia.
Seus escritos também foram altamente desconstrutivistas e visavam destruir desapiedadamente toda sorte de falácia que os “frutos das civilizações” haviam criado. Crítica implacável imparcial dos homens! Talvez excessivamente implacável. O observador neutro é precursor do mestre e o conhecimento verdadeiro, estrutural, é a ante-sala da consciência objetiva.

Por fim, a questão do “formato” do Trabalho, tal como passou a predominar sob a hegemonia anglo-saxônica. Gurdjieff via a difusão de suas idéias como o Elefante e os Cegos da parábola hindu: cada qual pega uma parte acreditando ter o todo em mãos. Tive sempre a impressão, durante meus interlóquios com Shirali, e também a partir de seus escritos, que havia uma postura de certa prevenção em relação aos grupos de Trabalho no Ocidente. O formato pergunta-resposta, de ascendência fortemente Ouspenskiana, ou prosaicamente denominada “Quarto Caminho”; a modalidade depoimentos e fins-de-semana com distribuição de tarefas e exercício de fricção, entremeados da prática dos movimentos, eram para Shirali indispensáveis. Mas ele parecia achar, oriental que era, que para algo de mais significativamente milagroso ocorrer impunha-se uma relação quase sanguínea entre os membros de um grupo. Um pacto de total confiança e despojamento. Criar-se-ía assim um círculo mágico, etc.
Shirali achava também que havia o perigo de, pouco a pouco, preponderar a burocracia idiossincrática das atividades, o olhar para o dedo e não para a lua que ele aponta, instrutores investidos de uma autoridade para a qual não detêm legitimidade, a não ser pelo fato– tal como na psicanálise- de haver estado “no trabalho” por 10, 15, 20 ou 30 anos e ter-lhe sido outorgado aquele estatuto. A legitimidade que advém exclusivamente da prática faz no Oriente um pandit, no Ocidente um instrutor. Mas, como não ser assim se cada um de nós tem que aspirar a ser um dia um mestre? As hierarquias “espirituais” têm uma legitimidade que nasce de outras instâncias, tal como a verdadeira nobreza, que não é hereditária. Certas propensões podem, de fato ser herdadas, mas o miolo daquilo que faz alguém um “nobre” de pleno direito advém de atributos inalienavelmente conquistados. por esforço próprio. Gurdjieff tinha uma presença majestuosa, um príncipe na juventude, um rei na maturidade e velhice. E, no entanto, suas origens eram as de um pastor de ovelhas ou de um homem simples do petit métier. E este homem e sua extraordinária obra, filho de um ventre armênio, é praticamente desconhecido em sua terra natal. Perguntado sobre a razão disso, Shirali respondeu-me certa vez com ironia: “É porque os armênios só pensam em dinheiro, fama, cantos litúrgicos e martírio. Não são muito dados à filosofia ou a verdadeira espiritualidade.” Mas eu sabia que Shirali estava apenas zombando, já que a razão desse desconhecimento tinha a ver com a própria história geopolítica dos armênios e também com a própria universalidade que Gurdjieff se esforçou por se outorgar.
A partir dos fragmentos de percepções sutis e insinuações imanentes, pude pouco a pouco reconstituir uma outra linha de visão crítica em torno da qual Shirali oscilava. Gurdjieff parece haver se proposto a inaugurar um novo momento na espiritualidade, criar um novo polo, representado por ele. Mas em assim fazendo ele destituía os seus discípulos de uma relação direta com os mestres dos mestres dos mestres, ou seja, dessa ou daquela silsilah, desta ou daquela corrente, linhagem espiritual que ele mesmo Gurdjieff, de uma forma ou de outra, inevitavelmente pertencia. Ao retraçar a genealogia das fontes de Gurdjieff, costumeiro é trilhar as vias do esoterismo cristão, não infrequentemente perambulando por informações vagas e não raramente imprecisas e românticas; aquelas do budismo, em particular o tibetano, e nesse caso ainda mais vagas, tanto historicamente quanto em termos de parampará (linhagem espiritual). Por fim a vertente súfi, a partir da qual, pela linha naqshbandi, detectamos tanto historica quanto tecnicamente inúmeros exemplos concretos de absorção, seja no formato do trabalho em grupos ou células, seja no dos exercícios, seja no das danças, seja ainda em relação ao uso do eneagrama. Mas Gurdjieff, que certamente não trilhara os caminhos apócrifos que sugerem uma certa obra fantasiosa recentemente publicada, estivera sem dúvida com vários mestres sufis ao longo de seu percurso espiritual na Anatólia, no Cáucaso e na Ásia Central. Shirali nunca deixara dúvidas quanto à ascendência sufi dos ensinamentos de Gurdjieff, mas esses haviam sido de tal forma adaptados ao um novo formato que já não deixavam transparecer para o ignorante sua inequívoca genealogia.
Gurdjieff vez por outra fizera menção ao fato de ter sido repreendido ou criticado por certos mestres por haver “adaptado” ou “revelado” essa ou aquela técnica. Ele se justificava dizendo que fora obrigado a assim agir por sentir necessidade operacional.
O elemento nuclear dessa crítica, que eu cria haver captado em Shirali, parecia dirigir-se ao fato de que, em havendo “instaurado” uma nova escola na tradição espiritual do Ocidente, Gurdjieff, uma vez desaparecido fisicamente, não tornara nítida a linhagem de sua tariqa, para usar aqui um termo súfi. E, em assim sendo, deixara seus discípulos desprovidos da aura da baraka que viera se acumulando e que encontrara nele um momento de concentração decisiva. Os críticos mais severos afirmam que houve algo de uma imposição pessoal de Gurdjieff nesse sentido, enquanto que outros que o seu esforço de adaptar os fundamentos das técnicas orientais de autoconhecimento às condições psíquicas do homem ocidental contemporâneo exigira um certo grau de amálgama e algo de um inexpresso sincretismo. Os que contestam essa visão apontam para o fato que os seus discípulos mais próximos teriam de fato recebido essa baraka, em particular Madame de Salzmann, através da qual a linhagem haveria de seguir seu curso.

Paideia. Shirali voltava continuamente ao termo paideia em suas anotações. Ele via a missão de Gurdjieff como filosófica (lato-senso, é bem verdade), psicológica, mas também eminentemente educacional, e achava, como o mestre, que grande parte das inconsequências e desatinos da humanidade advinha exatamente dos errados processos político-culturais que formatavam distorcidamente os seres humanos. Mas Shirali parecia ser crítico quanto ao caráter alijado e “exclusivamente exclusivista” (sic) que o Trabalho acabava por impregnar seus discípulos. Não foram poucos os que se rebelaram contra aquela irresistível tendência à idolatração de Gurdjieff, uma quasi-deificação que costumava ter consequências desastrosas em vários planos, como de resto tão larga e inequivocamente atesta toda a história religiosa, filosófica e política da humanidade, com seus formadores axiais de visões de mundo. “Se encontrar o Buda, elimine-o”, diz um adágio zen-budista. Gurdjieff dissera certa vez que, afinal de contas, talvez os espíritas não estivessem de todo errados (aludindo à possibilidade de que certas intervenções e intercessões pudessem de fato ocorrer). Shirali, numa nota de rodapé, certamente escrita num momento de profunda reflexão crítica, ponderava: “Afinal de contas, talvez René Guénon não estivesse de todo errado”.
Igualmente solta, fora de contexto, uma observação, como se fora uma máxima, postulava numa linhagem bem nagarjuniana:
“A dialética negativa, no plano das instâncias cognitivas, é o processo da não-identidade; no plano da fenomenologia ontológica, é o da desidentificação ôntica.”
“Uma nova paideia, para os dois objetivos, cultural e espiritual!”. “Paideia atravessada pelo amor filial nas relações familiares, tal como já enfatizava Confúcio! Paideia destituída de dogmatismos que icidem sobre uma visão deformada do mundo. Urge uma nova paideia para uma nova humanidade! “Uma nova paideia...uma nova paideia”, escreveu Shirali repetidas vezes em estilos caligráficos diversos, em diferentes linguas e em diferentes lugares de seu espólio literário. Ele parecia acreditar que sem ela a humanidade estará fadada ao ocaso.
PAIDEIA. PAIDEIA. PAIDEIA.
WUSHIDAO. WUSHIDAO. WUSHIDAO.
BUSHIDO. BUSHIDO. BUSHIDO.
BILDUNG. BILDUNG. BILDUNG.
Repetia sem parecer cessar a caligrafia de Shirali ao longo de toda uma página, como se ele tivesse descoberto, finalmente, o verdadeiro caminho possível para a humanidade.

Karma! Karma! Como fazer tábua rasa desse inexorável fluxo acumulado? Para absorver poderes ao nível do Ser temos que esvaziar o mental e despejar fora todo o lixo herdado. Apenas o Oriente se propôs, idealisticamente ou não a ir tão longe na sua tentativa de passar de uma margem para a outra.
Uma observação solta, em caráter algo solitária, foi por mim encontrada num pedaço de papel: “Em última instância, o Trabalho está na vida, em que pese a importância dos grupos”, como se fora um lembrete de Shirali para si mesmo! E esta observação era seguida de outra, um pouco mais longa: “Tal como Nagarjuna certa vez dissera, a dialética negativa da linha budista Madhyamika pode se transformar em veneno para o aspirante, se usada inapropriamente”. “Descubra o seu próprio antídoto para os efeitos nocivos do Trabalho, pois ele os tem, quanto mais não seja por nossa culpa”, encontrei escrito no fim de uma outra página. “Olhe para a lua, e não para o dedo que a aponta”, lia a epígrafe em estilo caligráfico russo na capa do último bloco de anotações, com um desenho ilustrando a idéia. A lua..., pensei eu, esta vampira das energias terrestres e do psiquismo humano?! “A metáfora do Soleil absolut deve ser vivenciada também poeticamente, quase que inconsequentemente... Netuno. A graça! Tem que haver espaço também para imaginação, não importa o quão criticável possa ela ser como poder de ilusão. O sentimento de amor deve também advir da graça, não apenas do sofrimento, e sobretudo não de uma vontade racional. Como poderia não ser assim?”
“Poistvesh! O Mensageiro! O Mensageiro do Cáucaso! Eu? Ah, mas como não perceber de quem realmente se tratava!?” (última nota manuscrita de Shirali. Tashkent, 1982).